Membros da comissão de honra, ex-ministros, dirigentes e militantes destacados dos partidos de esquerda e até o líder da oposição exigem ao Presidente da República que tome uma posição sobre a carga policial do último sábado nas acampadas de Lisboa e Porto. Ao mesmo tempo, os próprios manifestantes perderam a paciência com o silêncio do chefe de Estado e tornaram-no num novo alvo dos protestos. Depois de Luís Montenegro e Pedro Duarte, há uma nova pinhata nas acampadas.

Os partidos à esquerda, que foram a base de apoio de Seguro na primeira volta das Presidenciais, aumentaram a pressão sobre o Presidente da República desde as cargas policiais de sábado à noite em Lisboa e Porto. Logo na manhã seguinte, o co-porta-voz do Livre, Jorge Pinto, avançou que, na reunião que terá na quinta-feira com o chefe de Estado, o partido “irá insistir com António José Seguro para que tenha uma posição firme sobre o que aconteceu nas últimas semanas. O silêncio a que nos habituou o primeiro-ministro não pode ser o silêncio do Presidente da República”.

Poucas horas depois foi a vez do líder do Bloco de Esquerda, José Manuel Pureza, dizer que “toda a democracia tem de se pronunciar sobre o que está a acontecer: Presidente da República, partidos, sindicatos, todos”. Mais ácido ainda foi o ex-eurodeputado e dirigente do Bloco de Esquerda, José Gusmão, que ironizou: “Nem me consigo ouvir pensar com o barulho do Presidente a defender a Constituição.”

Os apelos também surgiram por parte do partido que António José Seguro já liderou. A ex-ministra e atual vice-presidente da bancada dos socialistas europeus, Ana Catarina Mendes, deixou uma crítica velada ao silêncio do chefe de Estado sobre a carga policial: “Estou habituada a ter a voz do Presidente da República Mário Soares, a do Presidente da República Jorge Sampaio, que em momentos desta natureza, e de carga policial, intervieram a pedir que haja respeito escrupuloso pelo Estado de Direito. É isso que eu espero de um Presidente da República.”

Antes disso já a ex-ministra da Modernização do Estado e vereadora na Câmara de Lisboa, Alexandra Leitão, tinha escrito na rede social X que “além do direito à habitação, está em causa a liberdade de manifestação. E com ela, a Democracia.” E deixava um apelo: “O Presidente da República tem de falar.” Um outro ex-ministro do PS, Pedro Adão e Silva, também se atirou a Seguro ao dizer que estava “convencido de que as platitudes de António José Seguro surpreendem um total de zero portugueses entre os 3.502.613 que o escolheram para Belém.”

A própria Juventude Socialista — que Seguro liderava quando no passado condenou cargas policiais sobre estudantes — emitiu este domingo um comunicado em que apela “ao Presidente da República para que intervenha.” A estrutura juvenil — que é liderada por Sofia Pereira, uma das apoiantes do atual Presidente durante a campanha das Presidenciais — lembra que “António José Seguro tem apelado ao diálogo para resolver a crise da habitação.” Mas deixa um apelo claro: “Hoje, pedimos-lhe que faça ouvir a sua voz também em defesa de quem se manifesta por esse direito.”

Membros da comissão de honra pressionam Presidente

Seguro já começou a ser até pressionado diretamente pelos seus próprios apoiantes. Vários elementos da Comissão de Honra da sua candidatura enviaram mesmo uma carta ao Presidente da República a apelar a uma tomada de posição: “O seu silêncio neste momento não acalma a violência. Só a sua palavra pode repor a tranquilidade pública e a primazia do respeito pelos direitos cívicos dos cidadãos”. Na carta aberta — assinada por figuras como o advogado Ricardo Sá Fernandes, pela ex-vereadora da Habitação Helena Rosa, pelos músicos Capicua e Pedro Abrunhosa e pelo escritor Valter Hugo Mãe — os subscritores lembram que “num Estado de Direito democrático, nunca pode ser admissível que, numa circunstância em que não há violência nas ruas, seja a polícia a iniciá-la” e que, por isso mesmo, é “urgente e inadiável ouvir a voz do Presidente da República.”

O comentador Daniel Oliveira, que revelou ter votado no atual Presidente nas duas voltas das Presidenciais, faz depender o arrependimento do seu voto do fim desse silêncio: “Se Seguro continuar calado, terei de concluir que foi um erro não ter ficado em casa na segunda volta. A democracia não está mais em perigo com um fascista do que com um colaboracionista.”

Outros apoiantes de António José Seguro fizeram contrafogo a esta tomada de posição. O comentador Pedro Gomes Sanches lembrou que fez parte da Comissão de Honra de Seguro e que não subscreve o que chama de “excitação” dos subscritores da carta. Gomes Sanches acrescenta ainda que “se o Presidente da República se deixar pressionar por estas senhoras e estes cavalheiros” o irá criticar. O comentador diz que não espera “menos do Presidente da República que saiba afirmar que o direito à manifestação só está garantido com lei e ordem”. Já Álvaro Beleza sai em defesa de Seguro, sugerindo que o silêncio faz parte da estratégia para melhorar a situação: “Está atento. Está a fazer tudo o que pode para que haja entendimentos entre os partidos do Governo e as oposições.”

Há ainda a posição do líder do Chega, André Ventura, que veio dizer que “o Presidente da República devia dar uma palavra que fosse para se colocar ao lado das autoridades e das polícias pela sua intervenção.” O líder da oposição acrescentou: “Eu sei que muitos têm pedido a intervenção do Presidente da República no sentido contrário, eu acho que o Presidente da República, como garante do Estado de Direito, devia fazer o contrário”.

“Tazonde?” De Cavani ao Faroeste, manifestantes fazem de Seguro um alvo

Desde o início dos protestos que os principais alvos dos manifestantes foram Luís Montenegro, Pedro Duarte, Carlos Moedas, Luís Neves e, nos últimos tempos, Benjamim Pereira, presidente do IHRU. Depois da carga policial da noite de sábado para domingo, os manifestantes elegeram um outro alvo dos seus protestos, que se soma aos anteriores: o Presidente da República. Há vários cartazes, ao estilo dos “Wanted: dead or alive” do Faroeste, que dizem: “Procura-se: António José Seguro. Recompensa: Nenhuma. Gastei o dinheiro na renda”.

Há ainda vários outros cartazes que apareceram nos últimos dois dias no Rossio, com algumas variações que dizem: “Tozé, isto não está Seguro“; “António José. Isto não está Seguro.” Há um outro, mais palavroso em que se lê: “Estou surdo com o silêncio do nosso Presidente. ‘Qual é a pressa…’, mas ‘qual é a pressa…'”. E ainda outro que vai buscar um célebre meme do verão de 2020 — que junta a novela da ida do jogador Cavani para o Benfica com um léxico da página satírica JJ Boçe — em que um manifestante pergunta: “Tozé, tazonde? A gente não tá Seguro”

Um dos manifestantes, no último domingo à noite, tinha mesmo um selfie stick com um telemóvel no qual passava a seguinte frase em letras garrafais brancas com um fundo vermelho: “Onde anda o Tozé? Isto não está Seguro”.

Cartazes e slogans à parte, a própria organização também já canaliza críticas e apelos ao Presidente da República. Na Praça Dom João I, uma das porta-vozes da Acampada, Catarina dos Santos pediu este domingo “a intervenção imediata do Presidente da República, que é o grande arauto da Constituição no nosso país. Se fosse agora, já seria tarde demais.” Seguro está agora, também ele, debaixo de fogo.

[Em dezembro de 2009, uma mulher é encontrada assassinada a tiro no estado do Rio de Janeiro. A polícia brasileira há-de confirmar que o corpo é de Rosalina Ribeiro, a herdeira de um milionário português, que tinha sido dada como desaparecida. A última pessoa conhecida a vê-la com vida tinha sido o advogado português dela, o ex-deputado e antigo líder parlamentar do PSD Domingos Duarte Lima. Já pode ouvir, em antestreia, o primeiro episódio de “As Sombras de Duarte Lima”, o novo Podcast Plus do Observador. Está disponível no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube.]