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Cenário da crise política, a moção de confiança ao governo que vai ser debatida e votada na terça-feira, tem chumbo para já anunciado. PS e Chega já disseram que não vão viabilizar esta moção de confiança apresentada pelo governo. Para a véspera dessa votação e desse debate, para esta segunda-feira, os principais atores nesta crise política vão organizar o jogo. O governo tem Conselho de Ministros às 10h e depois fala ao país às 15h. O Chega reúne a direção nacional do partido. O PS, à noite, vai reunir a Comissão Política Nacional. Rui Pedro Antunes, editor de política do Observador. Vamos falar um pouquinho destes encontros, o que é que podemos esperar destas três reuniões? Temos a possibilidade da confirmação de todas as posições já assumidas, mas há aqui espaço para alguém voltar atrás, para mudar de opinião?

Olha, Miguel, começando pelo lado do governo, acho que hoje o ministro, na qualidade de representante do PSD e não tanto como ministro Miguel Pinto Luz, começou o início do processo de dizer que para esta semana, o início desta estratégia é para dizer que o governo não quer eleições, que o primeiro-ministro não quer eleições e portanto, que a responsabilidade, se vierem insistir, é do PS não viabilizar a moção de confiança. Eu creio que mais do que propriamente ter uma grande vontade de evitar eleições ou querer um caminho alternativo, o que me parece que o governo está a tentar neste momento é tentar deixar na opinião pública e nos eleitores a ideia de que se o governo cair, a culpa é da oposição. Isto porque nas poucas vezes que isso aconteceu, ou pelo menos na única vez que isso aconteceu formalmente, de um governo ter sido derrubado na assembleia e ter ido imediatamente para votos, aqueles que o derrubaram foram fortemente castigados. E portanto, o governo quer provar neste momento que não está interessado em eleições e que não foi uma maquinação do próprio governo e colocar a culpa na oposição. Isto funcionou na altura com Cavaco Silva, funcionou não por via do Parlamento, mas por via de um chumbo do orçamento com António Costa, quando conseguiu colocar a culpa toda no Partido Comunista Português e no Bloco de Esquerda. E portanto, mais do que achar que estas reuniões são de alguma forma para tentar chegar a um consenso entre os dois, eu creio que o que os dois querem é preparar caminho para responsabilizar o outro. Tu perguntavas também da reunião que o Partido Socialista vai fazer, da Comissão Nacional. O que eu creio que o PS vai fazer é de alguma forma tentar que o líder tenha o apoio dos órgãos todos para poder tomar uma decisão e depois poder imputar ao partido e não apenas ele próprio. O que é que isto pode ser útil? Se as eleições correrem muito bem, ninguém dirá nada. Se correrem muito mal, Pedro Nunes Santos pode dizer que ele quis, mas que todo o partido quis e, portanto, tem direito a ir uma terceira vez a eleições legislativas. Agora, claro, perguntas-me: há margem? Isso há sempre margem. Como? Tinha que haver aqui alguém a dar uma cambalhota, mas também não seria a primeira vez. Pedro Nunes Santos disse que era praticamente impossível o PS ir aprovar o Orçamento de Estado e acabou a aprová-lo depois de um longo silêncio. A única hipótese que eu estava a ver era precisamente após receber as dezenas de respostas por parte do primeiro-ministro, o PS chegar à conclusão que afinal tinha os esclarecimentos, não precisar de uma comissão parlamentar de inquérito e de alguma forma viabilizar a moção de confiança.

Viabilizar a moção de confiança ou retirar a comissão parlamentar de inquérito, que de certa forma, e aqui a Rádio Observador, por exemplo, Castro Almeida disse também isso, mas que se o PS retirar a comissão parlamentar de inquérito, pode o governo também tirar a moção de confiança. Pode o PS ir por aí nesse sentido, ou seja, não chegar, se calhar, à votação da moção de confiança?

Na verdade, isso parece um caminho um bocadinho impossível. Para já, porque depois Leitão Amaro vem logo desmentir aquilo que tinha dito Castro Almeida, depois porque as declarações do Luís Montenegro neste fim de semana, mesmo no almoço do Dia da Mulher, foram em sentido contrário, foi de alguém que precisa de se legitimar nas eleições. E há aqui um ponto, eu acho que na entrevista também à Rádio Observador, Paulo Rangel tinha dado um caminho que era ficar a meio da ponte, que era o PS viabilizava a moção de confiança e mantinha a comissão de inquérito. Ora, assim o governo continuava em funções e o PS tinha aquilo que queria, que era a comissão de inquérito, porque o próprio governo também não pode colocar o PSD e o CDS, os deputados do PSD, agora a votarem contra a moção de confiança. Portanto, este caminho que Paulo Rangel deu era um meio caminho, que também era uma saída possível, mas não me parece, sinceramente, isto implicava naturalmente o PS viabilizar, não me parece que esteja na vontade de Pedro Nunes Santos. Deixe-me só dizer que isto não envolvia um voto a favor, apenas a abstenção do Partido Socialista, portanto, também não era um voto de confiança muito afirmativo por parte do PS ao governo.

Esse meio caminho de Paulo Rangel foi logo assumido no discurso de encerramento da moção de censura, depois também a entrevista à Rádio Observador, portanto, uma abstenção nessa votação da moção de censura. Alverboleza também disse o mesmo aqui na Rádio Observador, numa entrevista no final da semana passada. Isso já não seria uma cambalhota do PS? Pedro Nunes Santos pode, de repente, amanhã, depois da reunião da Comissão Nacional, anunciar uma abstenção na votação da moção de confiança e manter a comissão parlamentar de inquérito. E se isso acontecesse, quem é que ganhava mais com isso? Pedro Nunes Santos, Montenegro ou André Ventura?

Aí é que a política é maravilhosa, porque imagina que em vez de se querer legitimar para votar contra a moção de censura, que o Pedro Nuno Santos sabe que naquele órgão há muitos autarcas, há muita gente que até numa edição anterior, por exemplo, tem muitos apoiantes de António José Seguro do mal ou do partido que nem é dele, embora tenha maioritariamente pedronunistas, e que na verdade, o que Pedro Nuno Santos queria era que a comissão política tome uma posição diferente da dele, para depois dizer: "O partido é que não quis ir para votos, porque eu até queria. E portanto o partido manda e mandatou-me para abster na moção de confiança ao governo. E eu só estou a fazer o que o órgão do partido quer. E assim não havia eleições". Também há essa possibilidade. O que acontece na política é isto. Agora deixa-me dizer sobre quem ganha. Nós, na verdade, não sabemos propriamente. Eu creio que vão sair sondagens em breve. Eu só alerto para uma situação: as sondagens têm que ter em conta todo este período que se passou de Luís Montenegro, que de alguma forma passou uma borracha por muitos dos problemas que o Chega enfrentava, do caso das malas, até situações graves de crimes sexuais envolvendo militantes e dirigentes do Chega. E creio que, à partida, no meio de confusão, de dúvida, se há aqui falhas éticas legais, o Chega seria um grande favorecido. O Partido Socialista não teria, mesmo que vence as eleições, consegue afastar Luís Montenegro, mas depois não tem uma maioria para governar. E tudo isto cria uma grande incerteza sobre o que aí vem. Mas deixa-me alertar aqui para um caminho que eu não ouvi muita gente falar disso, Miguel, que é: se a AD, em conjunto com a Iniciativa Liberal, vier a ter uma maioria de mandatos, atenção, porque aí depois Pedro Nuno Santos aguenta quatro anos de um governo. Eu sei que este cenário não parece plausível neste momento, mas vamos imaginar que o Luís Montenegro consegue manter-se nos 27, 28, 29, chegar aos 30, 31, e que a Iniciativa Liberal tem sete ou oito. Isso pode ser suficiente para haver uma maioria de mandatos. E à partida, uma maioria de uma só força política está afastada, mas pode vir daqui uma situação de estabilidade política que seja muito má para o Partido Socialista, para o PSD também. É perder as eleições, ficarem em segundo, e Luís Montenegro, sendo coerente com a sua palavra, tem que sair e dar lugar a outro.

Sim. Rui Pedro, só falar aqui também daquilo que tem sido a atuação das outras figuras do Estado. Presidente da Assembleia da República, Aguiar Branco volta a fazer pressão. Ainda hoje falou, mostrou-se confiante na aprovação da moção de confiança. Como é que vês a atuação de José Pedro Aguiar Branco nesta semana de crise política?

José Pedro Aguiar Branco tem aqui um papel que ele nem sequer é a rainha da Inglaterra. Ele no máximo é o príncipe William, e essa não for a príncipe Harry neste momento, que ele não pode fazer muito. Só não é o príncipe Harry porque ele está lá dentro do sistema e está no Parlamento. Mas ele de fato não pode fazer muito, não é ele que vai liderar os esforços para juntar PS e PSD no Parlamento. Isso ultrapassa-o. Agora, o José Pedro Aguiar Branco, essa postura dele é um bocadinho lixo funfing. Eu não tenho dúvidas que sendo ele uma pessoa que tem uma visão sobre o regime, sobre a estabilidade, até sobre a maneira como ele olha para o regime político e para a atualidade política, que isso é o que ele quer. Agora, acho muito difícil, com os dados que temos hoje, lá está, amanhã pode haver esses jogos todos políticos, palacianos, das reuniões a mudar tudo, mas com os dados que temos hoje, acho que é muito pouco provável. Deixa-me só dizer que eu disse exatamente isto, só para fazer aqui um pequeno parêntesis. Acho que o José Pedro Aguiar Branco disse o mesmo na altura que o orçamento ia passar. E houve várias pessoas que comentam no espaço público, eu sou uma delas, creio que na altura também achei que era um bocadinho naïf da parte dele. E ele acabou por ter razão. Portanto, deixa-me também fazer esta ressalva que é: eu acho que não vai acontecer o que ele está a dizer, mas a política muitas vezes dá uma lição a quem tem certezas absolutas, e eu não tenho nenhuma. E aquilo que estou a dizer é só com base nos dados que temos hoje, neste momento.

Hoje, neste momento, precisamente. Só para fechar, Marcelo Rebelo de Sousa falou depois da moção de censura, depois voltou a fechar estas janelas de comentário. Como é que avalias a atuação do presidente da República até ao momento com os dados que temos hoje?

O presidente da República tinha sido colocado completamente fora da primeira vez. O que é certo é que da única vez que houve uma reunião entre ele e Luís Montenegro, no dia a seguir o primeiro-ministro apresentou uma moção de confiança. Para quem se quer afastar um bocadinho da imagem de ser o dissolvente, o homem das dissoluções, o que é certo é que depois de ir a Belém, Luís Montenegro achou que esse era o caminho possível. Parece-me que Marcelo Rebelo de Sousa ganhou aqui um papel que não estava à espera e ao contrário do que muita gente diz, e se calhar até eu já disse isso, de que ele queria um final de mandato descansado, ele adora isto. Ou seja, dependendo dele, a formação de governo, a tática política, o chamar os partidos no day after, poder lidar com uma situação complicada, Marcelo nasceu para isto. Ou seja, ele está exatamente no sítio onde quer. Eu recordo uma entrevista que acho que a Merkel deu à Der Spiegel, pela maneira como ela estava a ver no último ano de mandato, e ia o poder executivo, o Vladimir Putin a mexer-se e como ninguém a respeitava, porque faltava um ano para ela sair embora. Marcelo estava um bocadinho com essa fobia, que era: falta um ano para o fim do meu mandato, a partir de setembro não posso dissolver a assembleia. E então ele próprio estava com uma grande dificuldade em lidar com o fato de não poder exercer as funções que tanto gosta. Agora aqui está, é o tempo para ele, é o tempo para o presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, agir no sítio onde ele se sente melhor, nos chalões, na intriga política, na tentativa de juntar um e outro, de colocar uma semente de um lado para depois colher do outro. Eu acho que o presidente da República está onde ele exatamente queria estar e não descansadinho como as pessoas acham, com pantufas, ou em Monte Gordo, a voar para Monte Gordo para ir jantar descansado num sábado à noite. Acho que o presidente da República está muito contente com esta situação. Vamos ver como é que ele sai, porque a forma como ele deixar o país quando terminar o mandato também lhe será de alguma forma imputado e está a jogar também isso, está a jogar também uma parte do seu legado.

E vai ter também uma semana agitada, seja ou não aprovada essa moção de confiança. Se for chumbada, certamente vai ter uma semana muito agitada o presidente da República. Rui Pedro Antunes, muito obrigado. Vamos ver o que nos dá esta semana política.