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Junta-se a nós em direto o Jorge Fernandes, que acompanha de perto a vida política de Espanha e é um dos ases do Fora do Baralho. Bom dia, Jorge. E hoje não se esperam também surpresas para a sessão.
Bom dia, Carla. Não, hoje não há qualquer expectativa de surpresas. É evidente que Feijóo vai ser derrotado. E ontem à noite assistimos a uma surpresa, que foi uma coligação entre a Esquerda Republicana da Catalunha e Junts, que são inimigos históricos e que tinham esta na manga guardada para o momento em que Feijóo falhasse, porque Sánchez tem sempre dito ao longo das várias semanas e ao longo do tempo, que se recusa sequer a falar de negociações enquanto o processo de investidura de Feijóo estiver ainda em curso. E ontem à noite, quando se tornou absolutamente claro que Feijóo ia falhar e se tornou oficial, a ERC e o Junts lançaram um comunicado conjunto sobre uma proposta que vão hoje, de resto, votar no Parlamento catalão. A votação irá ocorrer hoje e não é por acaso que ocorre exatamente no mesmo dia em que formalmente Feijóo é derrotado, em que os dois partidos se aliam e exigem um referendo formal e um compromisso com o referendo por parte de Sánchez como moeda de troca para o seu apoio na investidura de Sánchez. Isto acho que muda um bocadinho as expectativas de Sánchez. É evidente que isto pode ser tudo interpretado sob um ponto de vista puramente negocial. Há duas visões possíveis aqui. Há uma visão em que eles estão simplesmente a fazer isso para tornar a possível anistia mais palatável, em que pedem o referendo, e na verdade querem apenas a anistia, porque sabem que é a única coisa possível. Depois, aparentemente cedendo no referendo, vão ter a anistia e toda a gente fica muito contente porque só lhes demos a anistia. Por outro lado, há outro cenário, que pessoalmente me parece mais provável, que é o facto de eles se terem entusiasmado com a reação de Sánchez e do PSOE, que há já várias semanas tinha dado a anistia praticamente como garantida, e eles decidiram dar um passo em frente e dizer: "Já que temos a anistia garantida, vamos agora pôr uma coisa ainda mais importante do ponto de vista catalão em cima da mesa e vamos pedir o referendo." Deixo aqui uma última nota, que eu acho que é bastante importante, que é: estes partidos, o Junts e o ERC, são inimigos históricos e são provavelmente os maiores inimigos políticos. A competição política dentro da Catalunha é feita entre eles. E portanto, o fato de eles se terem aliado formalmente para fazer esta declaração deve ser analisado com muito cuidado, porque não o fazem certamente de ânimo leve e isto manda um sinal para Sánchez com duas dimensões. Por um lado, que não é o Junts ou o ERC a pedir isto, mas são as forças, é a Catalunha. São as forças que de alguma maneira representam a causa catalã. E por outro lado também facilita, em caso de falhanço de negociações entre estes partidos e o PSOE, facilita de alguma maneira as culpas. Porque a partir daqui, se eventualmente a investidura de Sánchez falhar por causa das negociações com a Catalunha, já não será simplesmente só a culpa de um ou só a culpa do outro. E portanto, esta coligação é interessante e permite, de alguma maneira, perceber como apesar das diferenças históricas e da grande inimizade entre os dois partidos, as elites juntaram-se e perceberam que agora é o momento-chave para conseguirem extrair concessões que provavelmente nunca estiveram em tantas condições para o fazer.