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Está aqui connosco a jornalista da editoria de desporto do Observador, Mariana Fernandes. Mariana, boa tarde, bem-vinda. Ficaste esclarecida?
Eu não fiquei esclarecida com o que foi falado nesta conversa entre Jorge Jesus e Cristiano Ronaldo. Eu entendo, por muito que Jorge Jesus dê aqui a volta e diga: "Resolvemos o problema, que não havia, e não havia problema". Ou seja, consegue sempre depois dar uma adenda. A verdade é que havia um problema. Ele próprio assume que falou com o Cristiano Ronaldo, ele próprio diz que Pedro Proença apareceu, porque como presidente da federação, é isso que os presidentes fazem, aparecem quando há ruído.
Ele sugere que foi falar com o Cristiano Ronaldo por causa da pressão mediática em torno deste episódio, não é?
Quase sugere que foram os jornalistas que o obrigaram a ir falar, porque estava a falar-se muito em Portugal. Obviamente, que as coisas não são assim. Obviamente que o Jorge Jesus foi falar com o Cristiano Ronaldo porque de facto algo se passou. Estávamos todos na redação a assistir muito atentamente a esta conferência de imprensa. O paradigma mudou. Querendo ou não Jorge Jesus ter as coisas muito amenizadas, querendo ou não Jorge Jesus conversar com o Cristiano Ronaldo e manter Cristiano Ronaldo no grupo e contar, obviamente, com ele. As coisas mudaram. A forma como o Cristiano Ronaldo é visto pelo selecionador nacional mudou, e isso parece-me evidente. Eu não tenho qualquer dúvida, e acho que ninguém tem, de que com Roberto Martínez, Cristiano Ronaldo teria sido titular contra a Noruega e provavelmente teria jogado os 90 minutos contra a Noruega. Eu não tenho dúvidas que com Roberto Martínez esta situação não existia e mesmo se existisse algo parecido, Roberto Martínez teria garantido hoje que Ronaldo era titular amanhã.
E não vai ser, é com Salvador.
Não vai ser, exatamente. Ou seja, o paradigma mudou e a maneira como Jorge Jesus diz com muita serenidade e com muita certeza de que os presidentes mandam nos clubes, neste caso Pedro Proença manda na federação, existem estatutos, porque obviamente existem estatutos, como é o caso da carreira do Cristiano Ronaldo, mas na seleção manda ele, está a deixar um sinal muito claro de que não vai duvidar 1 cm das suas próprias opções. Eu ando a dizer há muito tempo, e repito sempre a mesma frase desde que Jorge Jesus foi escolhido como o novo selecionador nacional, que é: durante muito tempo e ao longo das últimas décadas, na seleção nacional, nós tivemos um ego, e era o ego gigantesco de Cristiano Ronaldo, e esse ego era colocado acima de todos os outros. Fossem os dos presidentes das federações, fossem os de Roberto Martínez e de Fernando Santos, fossem os dos outros capitães que foram aparecendo. Esse ego era sempre superior e maior do que os outros. Agora há outro ego, que eu não sei se é maior ou igual ao de Cristiano Ronaldo, mas que é igualmente gigantesco. E se Jorge Jesus achar que Cristiano Ronaldo num jogo, numa competição, numa opção, vai prejudicá-lo pessoalmente, vai fazer com que ele próprio não tenha sucesso, então Cristiano Ronaldo é afastado, e aí eu não tenho dúvidas e nunca tive. Portanto, na verdade, Jorge Jesus está a cumprir tudo aquilo a que sempre se propôs ao longo de toda a sua carreira, que é: no momento em que o jogador, seja ele qual for, Ronaldo ou qualquer outro, se colocar entre Jorge Jesus e o sucesso, esse jogador é afastado. Jorge Jesus quer muito ter sucesso como selecionador nacional, não só para provar que foi a escolha certa, mas obviamente para mérito próprio e para o seu próprio legado. Quer obviamente ganhar a Liga das Nações, quer obviamente ganhar o próximo Campeonato da Europa, isso parece-me claro. Se Jorge Jesus acha, neste momento, que Cristiano Ronaldo não é a opção certa para chegar a esses objetivos, então Cristiano Ronaldo não é opção para Jorge Jesus. E foi esse paradigma que mudou na seleção nacional. É que agora existe um selecionador que se coloca a si próprio, e por aí também ao sucesso coletivo da seleção, à frente de Cristiano Ronaldo.
Sendo que, julgo que pela primeira vez, há um selecionador nacional que vem pôr em evidência as limitações físicas que decorrem da idade de Cristiano Ronaldo.
Sim, porque é um selecionador nacional que, gostando-se ou não, e gostando-se da forma, não necessariamente o conteúdo, mas gostando-se ou não da forma com que Jorge Jesus aparece nestas conferências de imprensa e aparece perante a comunicação social, ele raramente mente ou raramente foge muito à verdade ou àquilo que pensa. Pode não ser a verdade, mas àquilo que pensa. Portanto, ele nunca vai fugir àquilo que lá está, que é uma evidência, que são as limitações físicas de Cristiano Ronaldo. E a tudo isto acresce algo, que é o facto de Jorge Jesus ter trabalhado com o Cristiano Ronaldo no último ano. Portanto, se há pessoa que está completamente a par das limitações físicas de Cristiano Ronaldo, que sabe perfeitamente o que ele aguenta, o que não aguenta, quantos jogos seguidos aguenta, é Jorge Jesus. E uma coisa é uma fase final de um Campeonato da Europa, uma fase final de um Campeonato do Mundo, em que existe pouco tempo de recuperação e os jogadores têm, de facto, de recuperar de uns dias para os outros. Aqui estamos a falar de quatro jogos, é certo, em períodos muito curtos, mas estamos a falar de quatro jogos com um plantel alargado, uma convocatória alargada, ou seja, onde é possível rodar e é possível usar vários jogadores nas várias posições. Jorge Jesus nunca na vida iria usar Cristiano Ronaldo nos quatro jogos, nunca na vida nos 90 minutos, tal como eu acho que Roberto Martínez provavelmente faria, quando acha e tem a certeza de que Cristiano Ronaldo fisicamente não está preparado para jogar esses quatro jogos. Portanto, o facto de Jorge Jesus ter treinado o Al-Nassr na última temporada, obviamente acresce aqui à noção que tem do estado atual de Cristiano Ronaldo, tal como está a ajudar noutro sentido, como é o caso de João Félix. O facto de Jorge Jesus ter sido treinador de João Félix no último ano, faz também com que nesta altura João Félix seja muito mais confortável e Jorge Jesus também saiba perfeitamente como e a partir de onde usar o jogador português, e isso está a dar frutos.
Mariana, ainda temos aqui 30 segundos. Deixa-me perguntar-te, face a essa bola de cristal que aí tens diante de ti, se antecipas que o assunto ficou aqui sanado ou se eventualmente ainda teremos outros capítulos.
Ainda teremos muito provavelmente outros capítulos, até porque, obviamente e bem, tudo isto está a ser reduzido a futebol. Tudo isto está a ser reduzido ao facto de Cristiano Ronaldo jogar ou não, ao facto de Jorge Jesus decidir que Cristiano Ronaldo joga ou não. E eu acho que essa parte está arrumada. Jorge Jesus não vai mudar de ideias, isso parece-me evidente depois desta conferência de imprensa. O problema é que depois há toda uma outra dimensão, que é o orçamento da Federação Portuguesa de Futebol. E todos sabemos que sem Cristiano Ronaldo nas convocatórias, sem Cristiano Ronaldo no 11 inicial, esse orçamento, essa almofada financeira que a federação tem e que tem há décadas, ou seja, contando sempre com esse ovo da galinha há mais de 20 anos, essa almofada cai ou diminui substancialmente. E daí também a presença tão rápida de Pedro Proença em Malme para resolver o assunto. Mas isso, acho eu, é um problema para daqui a umas semanas, se calhar daqui a uns meses, se calhar daqui a um ano. Agora, que esse problema vai existir, isso parece-me claro.
Voltaremos a falar sobre esse tema. Obrigado, Mariana Fernandes, é jornalista da editoria de desporto do Observador, aqui na análise a esta conferência de imprensa de Jorge Jesus, que falou sobre este caso que envolveu Cristiano Ronaldo. Fica esta afirmação: "Na equipa mando eu."