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Vamos à análise com Miguel Pinheiro e o Rui Pedro Antunes. Se calhar começava por ti, Miguel, porque no último discurso de Mariana Mortágua falaste de dois discursos dentro do próprio discurso. Achas que agora foi mais claro o caminho que Mariana Mortágua vai escolher?
Em primeiro lugar, acho que foi muito longo. Acho que alguém tem que ter a Mariana Mortágua menos é mais. Eu estava a ver que isto nunca mais acabava. Mariana Mortágua foi pra um lado, pra outro, pra esquerda, pra direita, pra cima, pra baixo, avançou. Enfim, chega-se ao fim deste discurso sem perceber exatamente por onde é que Mariana Mortágua quer ir, porque parece aquele título do filme do "Tudo em Todo Lado ao Mesmo Tempo". Pode resultar no cinema, mas na política não, porque tem que haver algum foco. E eu, no final deste discurso, fico sem saber muito bem pra onde é que Mariana Mortágua quer ir, quais são as três prioridades do Bloco. Realmente, este slogan da vida boa dá pra tudo, mas em política tem que haver uma visão clara daquilo que os partidos e os líderes defendem. Não é possível fazer tudo, e portanto, qual é a primeira prioridade do Bloco? E a segunda, a terceira, e quando isso estiver feito, qual é a quarta, qual é a quinta? A única coisa que sai daqui é uma vontade de oposição ao PS, mas mesmo isso, é oposição até quando? Até a altura em que o PS aceitar fazer um novo acordo? Eu estava à espera que Mariana Mortágua fosse uma líder um pouco mais secada e clara. Ela na altura do discurso diz: "Vou ser clara", mas depois não parece ser muito clara.
E cá estou com a mesma ideia, Rui Pedro Antunes.
Eu acho que ela quis aqui resolver primeiro os problemas, ou seja, a primeira fase de afirmação do novo trono onde está, se pudermos dizer assim.
Cadeira de sonho?
Cadeira de sonho. Estava escrito nas estrelas que um dia ia sentar-se ali. Por acaso acho que nem sempre foi assim, acho que Marisa Matias houve um determinado momento em que se pensou que fosse a sucessora natural de Catarina Martins, mas Mariana Mortágua acabou por passar à frente, até com prestações nas comissões de inquérito. Sabemos que chegou ao Parlamento também não da forma mais correta democraticamente, desistiram sete ou oito pessoas pra ela chegar à lista a primeira vez que chegou, e depois conseguiu de fato impor-se e justificar o trabalho. Mas indo ao discurso em si, eu acho que quis resolver aqui alguns assuntos, a questão da família, porque de fato um partido que tem cinco deputados e duas são irmãs, pode haver aqui uma questão sempre de se colocar em causa. Depois, a questão do pai, que ela diz também ser muito atacada pela forma como fez a resistência antifascista. E de fato, ela é alvo de alguns fóruns, não só de extrema-direita como ela diz, mas em geral, alguns fóruns de ódio e utilizam a questão do pai, quis resolver essa questão da família, até quase fazendo uma espécie de homenagem, quer à irmã, quer depois também ao pai e resolver esse assunto. É sempre uma forma muito simples, que é tentar polarizar para a afirmação. Assumir-se como uma espécie de alguém que é contra a extrema-direita, o ódio, etc. Isso é uma primeira dimensão do discurso. Na outra dimensão, tenta ao mesmo tempo ter esta dualidade que é atacar a maioria absoluta do PS, do gênero, nós avisamos que isto ia ser assim, na mesma linha de Catarina Martins, e depois, ao mesmo tempo, quase caricaturar a questão de João Galamba, o dramalhão do quarto andar. Também tínhamos tido Pedro Filipe Soares antes a dizer que a história do espelho de João Galamba se olhar ao espelho e dizer: "Espelho meu, espelho meu, há algum ministro tão incompetente como eu?" E, neste caso, há aqui uma dualidade, porque me parece, Diogo, as entrevistas que fomos tendo aqui ao longo dos tempos, hoje e ontem, levam-nos que talvez o Bloco até interessasse ir a eleições, porque tem cinco deputados, o PS agora está fraco, as jornadas escolhem dizer isso. Mas ao mesmo tempo, o Bloco também precisa de tempo. Tempo esse de desgaste do PS continuar e pra vir um outro PS que não este, que dê esta perspectiva aos eleitores, que é: tanto faz votar no Bloco de Esquerda, no PCP ou no PS, que vai haver sempre blocos, um bloco de esquerda e um bloco de direita. E a maioria que for é liderada pelo partido maior, que neste caso seria o PS. Isso é muito mais fácil com o PS dominado, por exemplo, por Pedro Nuno Santos do que o António Costa. Se António Costa for a eleições amanhã e ganhar, o Bloco continua a ser marginalizado, a menos que ele precise muito do Bloco pra governar. E, portanto, os tempos do Bloco, há aqui uma grande confusão. Por um lado, era bom ir já a votos, por outro, era bom que a legislatura chegasse ao fim. E por isso é que também acho que não há aqui uma grande definição nesse aspecto. Depois, assume-se como a esquerda frontal. Quem é que não é frontal na política? Quem é que anda com rodriguidos? Aqui em matéria de frontalidade é mais pra afirmar uma questão de estilo. Depois parece-me ser mais específica nas metas que define, podem lhe ser imputadas.
Essa é uma questão, metas eleitorais. Estão definidas?
Terceiro lugar nas europeias, recuperar o deputado que terá um bom resultado na Madeira, o deputado regional da Madeira. E depois, já não é pra esse ciclo as legislativas e, portanto, ainda terá que haver uma nova convenção do Bloco, se as legislativas forem só em 2026, mas parece-me que o pé fez aqui um bocadinho alto. Vai ser difícil o Bloco de Esquerda nas europeias ficarem em terceiro lugar.
Esta questão das metas eleitorais, Miguel Pinheiro, parecem-te também ousadas por parte de Mariana Mortágua ou a retirar consequências no caso delas não serem alcançadas?
Isso não me parece. Não estou a ver que caso as coisas corram mal daqui a um ano nas europeias, que Mariana Mortágua saia. Não é esse o estilo do Bloco de Esquerda. Agora, vamos ver. É ambicioso, sim, mas o Bloco de Esquerda sente que precisa rapidamente sair do canto pra onde foi atirado nas últimas legislativas. Desse ponto de vista, eu percebo que tenha que haver ambição. O que a Mariana Mortágua podia vir aqui dizer? Que queria ficar em quinto lugar nas europeias? Não pode ser, não pode dizer isso. E na realidade, essa motivação pro partido, não me parece que depois alguém lhe vá pedir contas por isso. Agora, ficamos aqui para saber, finalmente, e tem se falado muito neste fim de semana, quem é que vai ser a pessoa que vai estar nessa candidatura às europeias. A Madeira está resolvida, mas nas europeias vai mesmo ser Catarina Martins? Se for Catarina Martins, ela diz que agora quer descansar ao fim destes 11 anos, 12 anos de liderança. Bem, se for a candidata às europeias, não tem muito tempo para descansar. O Bloco vai pra onde? Vai simplesmente promover José Gusmão? Parece-me curto. Pode fazer, claro, mas parece-me curto. Catarina Martins, desse ponto de vista, podia ser uma boa solução ou então arranjar uma alternativa qualquer, tudo. O Bloco tem outras pessoas para onde olhar.
Diogo, só uma coisa sobre o discurso também, é que me pareceu que é um discurso de apresentação de uma pessoa que já toda mundo conhece há 10 anos. E isso é que torna a coisa um bocadinho estranha. A certa altura, diz: "Tenho 36 anos", quase pra dar uma imagem de renovação, "estou aqui cheia de força". Parecia quase o José Mário Branco no "MFMI" quando diz: "Tenho 37 anos, sou do Porto, estou mais vivo que morto. Podem contar comigo pra cantarem pro resto". Ela parecia um bocadinho isso, que é: "Sou a Mariana, tenho 36 anos, já me conhecem, sabem que lá fora os nossos adversários bem que podem esperar, ainda não viram nada". Mas ao mesmo tempo, parece que vive dentro de uma luta de heterónimos. É a Mariana que se quer impor e mostrar que tem quase uma posse de Estado e ao mesmo tempo apresentar-se como: "Tenham medo de mim, porque eu sou a Mariana Mortágua, sou eu que faço tremer as pernas dos banqueiros".
Uma megafonista. Foi assim que começou, aliás, o discurso. Elegeram uma megafonista.
E, de facto, megafone. Já disse coisas inacreditáveis como desejar a morte de Jair Bolsonaro, que é um adversário político. Enfim, há outras maneiras de fazer esse combate.
Uma manifestação.
Independentemente do grau de ódio que se tem a um determinado adversário político