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Vamos também fazer aqui um pouco da análise do que tem sido, para já, estas horas de congresso de CDS. Um congresso que começou de manhã e que teve logo um discurso de Nuno Melo, prolongou-se depois com todos estes discursos ao longo da tarde e também aqui na Rádio Observador, com várias entrevistas. Junta-se a nós Miguel Pinheiro, diretor executivo do Observador. Miguel, estamos a chegar aqui ao período da hora de jantar, já escutámos muitas vozes neste congresso do CDS. Parece que estamos aqui um pouco a discutir identidade deste partido neste momento de regresso à vida política ativa.
Sem dúvida, tivemos uma grande polêmica com o livro "Identidade e Família", este parece ser o congresso de identidade e partido. O CDS está à procura de uma identidade e de uma mensagem, e está também à procura de eleitores, esse também é o ponto. E aquilo que temos estado a ver neste congresso é que o caminho que parece ser mais consensual entre as pessoas que têm ido falar àquele palanque e entre os congressistas e a forma como eles apoiam ou não apoiam o que ouvem, é uma viragem para, de facto, um partido mais conservador. Parece-me claro aqui que o CDS por vezes foi, ao longo da sua história, o partido dos valores, outras vezes foi o partido dos contribuintes e dos pensionistas. No tempo de Paulo Portas, foi um partido que procurava nichos de interesses, o partido dos pensionistas, o partido dos contribuintes, o partido dos feirantes, o partido dos pescadores, dos agricultores. Mas aqui, de facto, está havendo uma viragem muito mais para esta visão de Manuel Monteiro, que ouvimos agora nesta entrevista e que ouvimos também no discurso que ele fez, muito mais uma viragem para os valores do que para os números. Eu diria que o CDS, de alguma forma, desistiu de recuperar os eleitores que fugiram para a Iniciativa Liberal, mas quer muito recuperar os eleitores que foram para o Chega. E é isso que entusiasma os congressistas e é isso que desconforta, por exemplo, Cecília Meireles. Ouvimos aqui Cecília Meireles a dar-nos a entrevista aqui, a ti e ao Miguel Santos Carrapatoso. Ela ficou muito desconfortável quando lhe perguntaram sobre a questão do aborto, sobre o facto de Manuel Monteiro ter dito: "Não temos que ter vergonha de ser contra o aborto". Claramente, Cecília Meireles só queria falar de IRS, só queria falar de temas económicos, de competitividade.
E este partido parece que quer falar menos disso e mais de costumes, de questões sociais.
Precisamente. Nós tivemos este embate sempre existiu no CDS. Nós sempre tivemos um CDS mais virado para a economia e para o lado prático e para a vida do dia a dia, e que foi um CDS que sempre esteve do lado de Paulo Portas. E depois tínhamos um CDS mais virado para os valores, mais conservador, que era o partido anti Paulo Portas. Era o partido sim, que se reconhecia em Manuel Monteiro, mas não só. E quando Paulo Portas saiu do CDS, esse embate foi muito claro. Tivemos a grande luta num congresso que durou até de madrugada entre João Almeida, que também regressou agora ao Parlamento, e Francisco Rodrigues dos Santos, e ganhou Francisco Rodrigues dos Santos. Ganhou a fação anti Paulo Portas. Nuno Melo também sempre foi próximo desta ala mais conservadora, mas aqui está a haver mesmo uma viragem maior.
Antes de passarmos para Alvalade para atualizar as notícias às 20:00 e para depois, mais à frente, daqui a pouco, escutarmos o discurso de Nuno Melo, só te perguntar se achas, nesta altura, a esta distância, se vamos sair deste congresso com uma identidade definida deste CDS ou se vamos continuar neste limbo, nesta incógnita.
Vai ter que haver uma definição por parte de Nuno Melo. Até agora, Nuno Melo tem estado em cima do muro também porque ele tem estado a tentar juntar todas as famílias do CDS. Ele tem que conseguir ter no partido Manuel Monteiro e Cecília Meireles. Se de repente agora o CDS começar a perder pessoas, aí é que é uma chatice. Agora, vejo com alguma dificuldade que ele não se defina. Ele vai ter mais dois discursos, o de hoje até já deveria ter sido, mas o congresso está atrasado, e outro amanhã à hora de encerramento. Ele no primeiro discurso falou das novas causas e prometeu elaborar um pouquinho mais sobre isso. Por isso, as novas causas vão mostrar-nos que CDS vai ser este, sendo que o CDS também está preocupado. Vamos ver, para o CDS ter peso no governo e para significar alguma coisa, tem que ser identificado com as tais causas, que podem ser mais ligadas aos valores ou mais ligadas a um maior pragmatismo. Mas o CDS tem que estar no governo a exigir coisas ao PSD ou a exigir maior baixa de impostos ou a exigir medidas mais próximas de uma visão conservadora. Tem que poder exigir alguma coisa, senão não está ali a fazer nada. Pode ser que hoje Nuno Melo já nos dê alguma pista. Claro, ele pode optar por escolher duas novas causas de um lado e duas novas causas do outro. Pode acontecer. Mas o congresso está muito virado para este lado conservador e não sei se ele vai querer contrariar isso. Daqui a nada vamos saber.