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Antes disso, vamos a outro comentário, André. Hoje foi dia de debate a sete com todos os candidatos à presidência. Muitos foram os temas, num debate que durou quase duas horas.
E são duas horas que vamos ouvir na íntegra já a seguir, como dizia João Paulo, mas antes vamos analisar este debate que passou na RTP. Ora, para isso junta-se a nós André Azevedo Alves, professor da Universidade Católica, politólogo, também colunista do Observador. Boa noite, André Azevedo Alves. Obrigado por se juntar a nós aqui na Rádio Observador. Um debate a sete, talvez o mais aguardado de todos, tendo em conta que tínhamos todos os candidatos a discutir na RTP. Pergunto se neste debate ficaram dissipadas as dúvidas para aqueles que possam estar potencialmente mais indecisos. Considera que foi um debate em que se discutiu verdadeiramente as diferenças entre os vários candidatos?
Eu acho que foi, mais do que um debate a sete, um debate a seis mais um, sendo que o mais um foi Marcelo Rebelo de Sousa, não só por ser o presidente em funções, mas pelas próprias circunstâncias que se foram desenvolvendo ao longo do dia, que levaram, por razões perfeitamente atendíveis, a que não estivesse em estúdio.
Acabou por estar em videochamada.
Exatamente. Isso levou também a que o que tem sido uma tendência da campanha de Marcelo Rebelo de Sousa, que é procurar distanciar-se do conflito com os outros candidatos, acabou por ainda prevalecer mais essa estratégia favorecida por essas condições, neste debate a sete ou o tal debate a seis mais um. Porque o que assistimos foi, no fundo, várias rondas dos outros seis candidatos irem tentando passar, uns melhor, outros pior, a sua mensagem, e também a mensagem que já foram tentando passar nos vários frente a frente. E depois Marcelo Rebelo de Sousa, quando tinha a sua intervenção, falar ou tentar falar, e em grande medida falar por cima dos outros ex-candidatos e mais enquanto presidente do que propriamente entrando em interação com os restantes candidatos. A certa altura, Marcelo parecia estar a comentar um debate entre os outros seis. E, portanto, nesse sentido, eu creio que a melhor forma de resumir será para os outros ex-candidatos, uma tentativa de sintetizar, fazer passar os principais pontos que têm marcado as respetivas plataformas e as respetivas campanhas. E para Marcelo Rebelo de Sousa foi uma espécie de expoente máximo, até pelas circunstâncias de não estar presente, expoente máximo da sua estratégia de procurar ir o menos possível ao confronto com os outros candidatos e creio que as circunstâncias acabaram por favorecer nesse sentido.
André Azevedo Alves, pergunto se, tendo em conta que Marcelo Rebelo de Sousa ontem testou positivo, acabou por cancelar os próximos dias de campanha. Ele que já tinha dito que não iria fazer uma campanha muito ativa, pelo menos não iria estar tanto na rua. Pergunto se considera que, tendo em conta que ontem soube desse teste positivo, se notou que os candidatos possam ter se inibido um pouco de algumas críticas, pelo menos à campanha de Marcelo, e se Marcelo Rebelo de Sousa pode ter tirado dividendos desse escudo.
Eu creio que não se notou grande inibição no discurso dos outros candidatos, mas parece-me que isso acaba por também condicionar as próprias circunstâncias do debate. E, de certa forma, o próprio teste positivo, ainda com os testes negativos subsequentes, acaba por reforçar aquilo que já vinha sendo a linha de Marcelo Rebelo de Sousa. Recordemos que ele também já tinha abdicado dos tempos de antena. O próprio orçamento de campanha também basicamente expressa uma não campanha, ou pelo menos uma não campanha nos moldes tradicionais. E, portanto, de alguma forma, este último desenvolvimento acaba por reforçar, ainda que por motivos externos, essa tendência que já vinha sendo a própria estratégia de Marcelo Rebelo de Sousa. E de alguma forma, isso também dificulta a vida aos candidatos que procuram centrar o seu discurso na crítica a Marcelo Rebelo de Sousa, porque de certa forma é um alvo que não está presente. Ao criticar Marcelo, é difícil criticar Marcelo como candidato, porque o próprio Marcelo não se apresenta ou não se expõe, ou expõe-se muito pouco enquanto candidato, que é uma estratégia racional, mas que de alguma forma também o protege. Acho que aqui o grande risco para Marcelo Rebelo de Sousa, e provavelmente aquilo que será a sua grande preocupação daqui até ao dia das eleições, é que, em especial num cenário de elevada abstenção, uma que se prevê, pode se confirmar ou não, mas enfim, todos os fatores, até a pandemia apontam para isso. Marcelo Rebelo de Sousa, como candidato que lidera claramente nas sondagens e como o candidato mais popular, pode também ser o candidato que pode vir a ser mais afetado por uma elevada abstenção. Portanto, creio que neste momento, o principal adversário de Marcelo Rebelo de Sousa não é tanto o candidato A ou o candidato B, à sua esquerda ou à sua direita, é mais o efeito difícil de prever e a incerteza associada ao que pode ser uma taxa de abstenção histórica e o que podem ser efeitos assimétricos dessa abstenção, que não se distribuirá igualmente por todas as áreas políticas e por todos os candidatos, e que poderá colocar mais em causa a votação do candidato que claramente lidera e que tem a maior fatia das preferências
E André Azevedo Alves, nesta altura, como dizia, tendo em conta que se prevê provavelmente uma grande abstenção, mais para uns candidatos do que para outros, provavelmente, mas no geral prevê-se que haja alguma abstenção, pergunto se este debate terá ajudado a retirar ou baixar essa porcentagem de abstenção, ou pelo menos se considera que os indecisos hoje podem ter tido alguma ajuda para se decidirem, ou acredita que o debate de hoje não vai ter tanto impacto quanto isso nessas contas?
Não creio que tenha introduzido elementos novos. Não me parece que tenha havido nada no debate que leve a que um grande número de indecisos, um número substancial de indecisos, em função do debate, possa ter chegado ao final e dizer: "Afinal vou votar". Creio que pode ter contribuído marginalmente para a mobilização do eleitorado de alguns dos candidatos. Creio que André Ventura se saiu razoavelmente bem, também os seus dotes retóricos ajudam neste contexto em que era preciso, num debate de sete, passar as mensagens num período curto de tempo e ele notoriamente tem alguma facilidade em fazer isso e creio que se saiu relativamente bem. Creio que Marcelo Rebelo de Sousa, pelas razões que estava a falar há pouco, também acaba por se sair bem neste contexto especial do debate, mas creio que não foi especialmente mobilizador. Não me parece que deste debate resulte, em termos de mobilização ou de levar à decisão de eleitores indecisos, uma grande mobilização. E essa, a meu ver, é neste momento a grande incógnita até às eleições, é de facto qual a abstenção que vamos ter e quais os efeitos que essa, previsivelmente muito elevada abstenção, pode vir a ter nos resultados das eleições.
André Azevedo Alves, neste último jornal, o jornal da meia-noite, ouvimos aqui alguns excertos daqueles que foram os temas principais deste debate. Falo das críticas ao comportamento que Marcelo Rebelo de Sousa teve com o governo durante este último mandato. Por exemplo, Tiago Maia Gonçalves diz mesmo que não se percebia quando é que acabava Marcelo e começava António Costa. Também tivemos um debate muito marcado pela questão da data das presidenciais, muito por culpa da pandemia. E tivemos também outro grande tema sobre o Serviço Nacional de Saúde. Pergunto se considera que estes três temas, pelo menos estes três, porque obviamente que houve mais, se considera que são temas que realmente eram importantes debater neste encontro entre os sete e se considera que ficou algum tema para trás e que devia ter sido mais escrutinado neste debate.
Em relação à data, eu creio que é natural que haja essa discussão neste momento, porque acaba por, de certa forma, coincidir do ponto de vista da pandemia no pior momento. E isso provavelmente, como aliás vários dos participantes, até de áreas políticas diversas, avançaram no debate, é algo que provavelmente podia e devia ter sido acautelado com mais tempo, até porque também importa reconhecer, não é totalmente imprevisível o que se está a passar em termos da evolução da pandemia. Ninguém sabia com certeza, mas não é surpreendente que estando nós em pleno inverno, no mês em que habitualmente, mesmo sem Covid, há-
Timo de Rans falou precisamente sobre a questão do inverno, a dizer que já estava à espera destes casos por causa do inverno.
Exatamente. E que não é novidade. Nesse sentido, não é imprevisível que perante uma doença que se transmite por via respiratória com especial gravidade, que cheguemos ao final de janeiro e que a situação seja complicada ou seja ainda mais complicada do que é habitualmente. Nesse sentido, é de facto algo que não fica bem e aqui creio que é razoável atribuir a Marcelo Rebelo de Sousa, que é o presidente em funções, maior responsabilidade do que aos restantes candidatos, ainda que não seja uma responsabilidade naturalmente exclusivamente sua em relação a este aspecto. Em relação aos restantes temas, eu creio que a discussão na área da saúde acabou por evidenciar novamente as divisões mais de natureza ideológica, diferentes perspectivas que os vários candidatos têm. Nesse aspecto, a inclusão de Tiago Maia Gonçalves também permite um contraste maior do que aconteceria em eleições anteriores, em que habitualmente haveria uma maior preponderância de candidatos dos vários partidos de esquerda e neste caso, com a presença de Tiago Maia Gonçalves e também de André Ventura, acaba por haver uma clivagem ideológica mais marcada, embora Marcelo Rebelo de Sousa procurando, como na generalidade dos temas, não entrar nesse tipo de clivagem e colocar-se de alguma forma acima dessas divisões. Parece-me que houve talvez pouco debate em termos de política econômica, portanto acho que as questões econômicas acabaram por surgir quase sempre subordinadas a outros aspectos. Em geral, o que o debate acabou por fazer, como falávamos há pouco, foi reproduzir um bocadinho o que para cada candidato têm sido os pontos principais da sua mensagem. Acho que nesse aspecto, quer Marisa Matias, quer João Ferreira conseguiram passar os seus pontos principais, talvez João Ferreira de uma forma mais articulada. Acho que provavelmente o desempenho mais fraco terá sido de Ana Gomes, que em vários momentos parecia, sempre que tinha a oportunidade de intervir De evitar uma série de palavras, expressões e temas que me parece que a candidata terá pensado previamente que deveria referir, mas creio que saiu um discurso muitas vezes pouco articulado. Mas em resumo, creio que cada candidato procurou passar e reforçar aquilo que pensa e os pontos principais da sua mensagem. Acho que o formato e as circunstâncias favoreceram, em primeiro lugar, Marcelo Rebelo de Sousa e dos restantes candidatos, creio que eventualmente quem conseguiu também aproveitar melhor o formato e talvez por o formato se ajustar melhor às suas características, terá sido André Ventura.
Era precisamente essa a pergunta final que iria colocar, André Azevedo Alves, a pergunta do jackpot, de certa forma, era quem foi o vencedor, na sua opinião, deste debate. Considera assim que, apesar de tudo, Marcelo Rebelo de Sousa acaba por ser vencedor, talvez por ter ficado mais resguardado, mas in loco terá sido André Ventura o melhor ou pelo menos o que dominou mais o debate?
Sim, eu diria, se calhar, não um vencedor, mas dois vencedores. Marcelo Rebelo de Sousa o vencedor fora do debate, portanto, terá sido vencedor ao não estar propriamente incluído no debate e creio que era essa também a sua vontade e sua postura e acabou por conseguir bem e em vários momentos, aliás, estabelecendo-se: "à minha esquerda criticam por isto, à minha direita por aquilo, mas eu sou um presidente que está acima dessas divisões", etc. Creio que essa mensagem passou. Dos restantes seis, parece-me que pelo formato e pelo desempenho hoje, provavelmente quem beneficiou mais terá sido o André Ventura.
Obrigado, André Azevedo Alves. O comentário a este debate, o debate a sete, o primeiro com todos os candidatos, aqui com o comentário e também com a avaliação daqueles que estiveram melhor e pior, também o comentário a estes temas deste debate que demorou quase duas horas e é um debate que vamos ouvir na íntegra já a seguir aqui na Rádio Observador.