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Gostava de começar por perguntar em relação ao Pecadores. Que filme é este? É um recorde de nomeações, 16.

16 nomeações, é o filme mais nomeado sempre até agora na história dos Oscars. Provavelmente muita gente parece surpreendida. Tenho visto algumas reações de espanto: como é que é possível? Não me parece assim tão extraordinário, tão surpreendente. É um filme que reúne alguns ingredientes que o tornam um sucesso óbvio, pelo menos neste tipo de prêmios. Um: tem um lado de terror ou de monstros, é uma alegoria em que é utilizada a figura do vampiro e esse é um universo que está muito na moda nos anos mais recentes. Tem se repetido. Aliás, Frankenstein é outro dos filmes mais nomeados, por exemplo. Depois, essa alegoria é feita em relação ao racismo e, particularmente, ao racismo na América, nos Estados Unidos. O filme é situado nos anos 30, 40.

30.

30. E o que o Ryan Coogler pretende demonstrar é como há uma linha até à atualidade que não foi apagada em relação a este tema e em relação aos problemas que ele assinala como sendo óbvios e permanentes em relação ao racismo nos Estados Unidos e, portanto, ele usa a alegoria dos vampiros e de um grupo de pessoas que está constantemente sob ataque desses mesmos vampiros. Mas depois ele faz isso de uma forma muito inteligente, eu acho, em relação àquilo que é o espectador e a ânsia de um certo tipo de público em 2025, neste caso, o filme saiu em 2025. É um filme que tem muito espetáculo, é um filme que tem muita ação, é um filme protagonizado pelo Michael B. Jordan, que curiosamente depois não aparece aqui como nomeado para melhor ator. Ele faz um papel duplo, porque ele faz uma dupla de irmãos, de gêmeos. Mas ele é um action hero neste filme. E também é uma coisa que não tem sido muito habitual, pelo menos não neste nível de cinema mainstream. De repente, um action hero como se calhar há algum tempo não víamos. Depois tem uma banda sonora muito especial, muito fundada nos blues. Aliás, estas 16 nomeações também se explicam porque há muita nomeação em categoria que tem a ver com a produção e com o lado técnico, houve muito investimento nesse lado. O filme está disponível na HBO. O filme estar nomeado não quer dizer que vá ganhar categorias como melhor filme, melhor realização. Eu continuo a achar que Batalha Atrás de Batalha, de Paul Thomas Anderson, talvez tenha aqui mais hipóteses, ainda que este lado de produto pop perfeitamente acabado que é o Pecadores, pode dar aqui ainda mais surpresas, além do lado político e social que a academia tem cultivado já desde há algum tempo.

Então é justificável quebrar recordes de filmes como Titanic e La La Land?

Sim. Para já, uma coisa: o recorde deveria ser sempre batido. Não há hipótese. Eventualmente iria acontecer. Não me surpreende que seja este filme que reúne tantos ingredientes que, por um lado, satisfazem as vontades da academia, por outro lado, fizeram tanto sucesso junto do público. E eu acho que há aqui um cruzamento destes dois universos em que essas nomeações fazem este reconhecimento e aposto que agora o filme, onde quer que esteja em streaming nas diferentes partes do mundo, vai ser outra vez um sucesso, naturalmente.

Falando então agora no Agente Secreto. É um filme brasileiro que consegue quatro nomeações, incluindo melhor filme e melhor ator.

Melhor filme, melhor ator e melhor filme internacional.

Também.

Não é novidade. O Ainda Estou Aqui, no ano passado, conseguiu a mesma coisa. E também conseguiu a nomeação para a melhor atriz, a Fernanda Torres. O cinema brasileiro não começou ontem, longe disso, e nem sequer a qualidade e o reconhecimento face ao cinema brasileiro começou ontem. Aqui é também mais um encontro de ingrediente explosivo, que são realizadores que têm uma perfeita noção de como cruzar uma arte muito cinéfila com os requisitos de um produto perfeitamente adaptado à cultura popular. Protagonistas de primeiríssima linha, tanto que não é a língua aqui que serve de obstáculo, o filme é em português e isso não impede que o reconhecimento seja global. E com o Wagner Moura volta a acontecer isso. Wagner Moura também não é desconhecido nenhum, português muito menos, mas americano também não. E depois tem aqui um lado que o Ainda Estou Aqui também tinha. É um filme que regressa ao passado do Brasil, e é um filme que confronta fantasmas do passado, fantasmas políticos e sociais E sobre isso não há dúvida que tudo aquilo que se passa na atualidade política e social no mundo inteiro não é alheio. Portanto, há uma consciência ultradesperta e ultraatenta para estes exercícios. Obviamente que muitos dirão que há um lado político e se não fosse esta questão, estes filmes não tinham este reconhecimento e não estaríamos aqui a falar dessas nomeações. Enfim, vale o que vale, mas a verdade é que estamos. Obviamente que os filmes e os reconhecimentos produzem o seu contexto e são fruto do seu contexto e, portanto, não podem ser entendidos à parte disso. Parece-me que é o que tem acontecido com o cinema brasileiro e acho que assim vai continuar. Eu espero que assim continue, porque a qualidade, obviamente, e a ligação que se estabelece com estes filmes é absolutamente extraordinária.

Portanto, no fundo, podemos dizer que o cinema brasileiro está na moda.

Está na moda, sim. Acho que não é de agora, obviamente, mas podemos dizer que está na moda a este nível de internacionalização. Quando entramos neste campeonato, porque uma coisa é estar na moda no consumo normal das salas de cinema ou no consumo normal das plataformas de streaming ou da conversa das pessoas em alguns meios. Aqui é um estar na moda de um nível superior ou do mais superior dos níveis, que é nomeações para os prêmios mais midiáticos da indústria do cinema. Sabe-se lá o que vai continuar a acontecer, mas esta sequência, de facto, mostra imparável. Wagner Moura ganhou o Globo de Ouro.

Sim.

Também tinha acontecido isso com Fernanda Torres, depois ela não ganhou o Oscar. Os Globos de Ouro são divididos em duas secções na interpretação, os Oscars não são, há menos nomeados. Enfim, não quer dizer que não ganhe. E eu acho que aí, se ganhar, de facto, ainda há um nível mais superior, se calhar estava enganado. Ainda há o outro nível, que é o nível da vitória. Portanto, estamos no nível da nomeação, só falta o nível da vitória, quem sabe.

Mas aí, por exemplo, nós também temos um grande favorito, que é o Timothée Chalamet, depois dos Critics' Choice Awards, a vitória que teve com A Marty Supreme.

Sim, e há sempre a questão do DiCaprio. A vida dele é complicada, porque o filme chama-se A Batalha atrás de Batalha, e às vezes também parece a vida de Leonardo DiCaprio nas nomeações para os Oscars.

Verdade.

Por acaso, eu disse um erro, porque eu disse que o Michael B. Jordan não estava nomeado, mas está nomeado para melhor ator. A questão é que eu não acredito que ele vá ganhar.

Por que não?

Não acredito. Porque tem esta concorrência de peso. Timothée Chalamet, DiCaprio, e são papéis. O Michael B. Jordan. Há um lado aqui que a academia gosta muito, que é o lado do espetáculo, o fato dele desempenhar duas personagens. Mas há o lado da profundidade. Eu não sei até que ponto o Wagner Moura, por exemplo, este ano não está mais capacitado. Não é mais capacitado, é não haverá uma probabilidade maior de Wagner Moura ser premiado do que Fernanda Torres o ano passado, face à concorrência, quero eu dizer. Vamos ver. Eu acho que isto aqui vai ser, se calhar, das categorias mais renhidas. Vai ser interessante seguir isto. Parece-me.

Também agora com as quatro nomeações de O Agente Secreto, o destaque, que valor sentimental também teve, mesmo as atenções do filme Foi Só um Acidente. É seguro dizer que cada vez mais o cinema internacional é valorizado nos Oscars?

Eu acho que o paradigma mudou quando o filme Parasitas ganhou o Oscar de melhor filme. Aí, obviamente, começou a grande atenção sobre o cinema internacional. Desde então, não parou. Eu acho que é o lado inevitável, que se nós pensávamos que já estávamos numa zona, num sítio de globalização, que tínhamos chegado ao fim da história da globalização e, portanto, não dava para ser mais global, eu acho que a forma como os conteúdos de entretenimento circulam com cada vez mais rapidez e cada vez mais longe, e em que as línguas estrangeiras são cada vez menos uma barreira, fazem com que, de facto, o mercado, entre aspas, seja cada vez mais abrangente e plano, e as barreiras deixam de existir, e negá-lo seria só fechar os olhos e demonstrar uma certa cegueira. E quando há cinema tão impactante, tão criativo e tão desafiante em todas as partes do mundo, obviamente, que não dá para negar. Ao mesmo tempo, até que ponto isto não pode demonstrar também que o cinema americano está em déficit quando chega a hora de: vamos lá escolher 10 filmes. O fato de haver 10 filmes também alargam o espectro. Antigamente eram cinco, portanto, são 10, é a única categoria que tem 10 nomeados. Porém, eu acho que isso também tem a ver com isso. Há um certo desafio, há um certo impulso criativo que se calhar no cinema americano, ou pelo menos neste cinema americano, que é reconhecido nas nomeações, não aparece. E, portanto, não esquecer, depois, que também tudo isto E tudo isto é decidido pela academia. A academia é feita de milhares de membros de várias partes do mundo. Há cada vez mais, há gerações mais novas a votar e portanto, tudo isso tem influência. A cultura vai se transformando, vai se renovando e as consequências são estas.

Falando nisso, de algumas surpresas que podem ter acontecido este ano, para algumas pessoas, o "Wicked" não ter sido nomeado é uma surpresa.

Eventualmente. É uma surpresa que eu não entendo, porque logo ao primeiro filme. Parece-me que é uma adaptação do musical em que eu acho que o que é protagonista é o lado mais técnico e de produção. Não acrescenta grande coisa ao primeiro filme, aliás, acho que fica a perder. Acho que nesse sentido há outras surpresas mais interessantes. Por exemplo, o fato do filme "F1: Fórmula 1" estar nomeado para melhor filme.

Não tem qualidade?

Não sei! Lá está, depende dos critérios. Este sim, não tem Brad Pitt nomeado para melhor ator, e ainda bem, porque se aí chegássemos, então tínhamos um problema. Mas eu acho que é uma nomeação que é um reconhecimento. Primeiro, o lado mainstream e comercial a apelar também ao público, a chamar a atenção. E por outro, é o reconhecimento de um lado, sobretudo relacionado com a produção e com a técnica. Obviamente que não vai ganhar. Por exemplo, o Pedro Mescal não foi nomeado para melhor ator. Eu disse Pedro Mescal.

É o Paul.

Lá está, Pedro Pascal.

É parecido.

Ele não foi nomeado para melhor ator pela participação no "Hamnet". Eu acho que talvez haja aí uma surpresa. Não sei se ficaria melhor no lugar do Michael B. Jordan, mas isto é a conversa infindável que nunca ceirá. "A Única Saída" não foi nomeado para melhor filme internacional. Esperava que talvez fosse. A Kate Hudson foi nomeada pela sua prestação no "Song Sung Blue", que é um filme que tem um lado muito clássico e que é uma espécie de retrato de um cantautor, mas muito tradicional, muito hollywoodesco, talvez antigo, e que se calhar não chama muita atenção, não faz muito barulho, por causa disso. E por isso é natural que, se calhar, esta nomeação seja uma surpresa. E depois o "Foi Só um Acidente" do Jafar Panahi, que está nomeado para melhor filme internacional, mas não está nomeado para melhor filme. Enquanto alguns outros estão, este não está. Digo isto só porque é um filme de um realizador iraniano que o fez às escondidas, contra as leis do seu país. Ele que está constantemente fugido, que já esteve preso. É um extraordinário filme que usa um lado meio cômico e insólito para apontar o dedo a uma realidade muito dura, cruel e trágica. Essa mistura é, de facto, extraordinária. E numa altura em que o Irão está numa situação de fragilidade absurda e que o mundo também está na incógnita sobre aquilo que se está a passar, eu pensei que talvez tudo isso conjugado lhe desse a nomeação. Não deu. Enfim, vale o que vale.

E por fim, o que é que podemos esperar da cerimônia deste ano com o Conan O'Brien a apresentar novamente, também tendo um pouco em conta todo o clima político.

Conan será certamente um bom apresentador, como já foi. Fará certamente o seu lado mais cômico, satírico e irônico à volta da política, e a relação com o showbiz, com o entretenimento, com a televisão também, e com tudo aquilo que tem acontecido, por exemplo, com os talk shows e com todo esse mercado que está, tanto a nível comercial como a nível político, na corda bamba. A política vai ser obviamente central. Vamos ver que tipo de discursos vão surgir, que tipo de temas vão ser os protagonistas dos discursos. Por exemplo, nos Lobos de Ouro, desse lado, houve alguma política, mas não foi um estrondo nesse sentido. Vamos ver. E depois há uma coisa também muito interessante, que é o primeiro ano em que há uma nova categoria, melhor casting, a melhor produção ao nível do elenco, o melhor ensemble. Eu acho que isso também vai ser interessante. Era uma reivindicação que vinha sendo feita já pelos responsáveis desta área e pelos profissionais do casting. E acho que também é sempre mais um ingrediente e mais um elemento para tornar a cerimônia um pouco mais longa.

Muito obrigada, Tiago.

Ora essa.