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Está conosco nesta edição da Uma, o Luís Rosa, redator principal do Observador. Luís, esta é mais uma ação no âmbito da operação Fora de Jogo, sobre a qual tens escrito. Qual é o centro da investigação das autoridades judiciais?

Este é mais um capítulo da operação Fora de Jogo. Já no passado houve várias buscas e outras operações de buscas, precisamente a estes clubes, ao Benfica, ao Porto, ao Sporting, mas também a outros, ao Braga, ao Guimarães e outros clubes da Liga Portuguesa. E no centro dessas investigações estão suspeitas da prática de alegados crimes de fraude fiscal qualificada e branqueamento de capitais e também de fraude contra a Segurança Social. No centro desta matéria e dessas investigações estão dezenas de inquéritos, dezenas de transferências de jogadores, que colocam, nomeadamente, em causa todo o modelo de negócios nas transferências e contratação de jogadores do mercado nacional. No centro dessas investigações está, essencialmente, um conceito que é a chamada dupla representação dos agentes de futebol nessas transferências. Ou seja, os agentes como Jorge Mendes costumam representar, ao mesmo tempo, não só o jogador, que é o seu representado, como também o próprio clube que vende o jogador, e portanto recebem de duas partes que têm conflito de interesses. É esse modelo de transferência de jogadores que está no centro desta investigação. O Observador já tinha publicado no passado vários trabalhos que foram sobre esta matéria e podemos afirmar que, no caso de Jorge Mendes, por exemplo, num processo que tem a ver com Jorge Mendes, estão em causa operações de € 420 milhões que estão sob suspeita, nomeadamente da prática desses crimes de fraude fiscal que eu há pouco referi, mas também no caso do Benfica, estão em causa operações que superam os € 23 milhões e na operação de hoje houve outros contratos de jogadores que estão a ser investigados, nomeadamente de Gonçalo Guedes, de Vlachodimos e de Rafa, como no passado já tinham sido detectados alegadas irregularidades nas transferências de Bernardo Silva, Gaitán e Jonas. No caso do Sporting, estavam em causa operações de alegada fraude fiscal superior a € 7,9 milhões, que envolviam jogadores como Bruno Fernandes e Rafinha e, no caso do Porto, cerca de € 20 milhões, que envolviam contratos de jogadores e transferências de jogadores como Casillas, Danilo e Mangala. Estamos a falar de valores que o Observador já tinha avançado e que com as operações de hoje, certamente valores de alegada fraude fiscal terão subido, terão sido incrementados com outras operações, com outros contratos que estamos a tentar apurar neste momento.

Luís, há arguidos constituídos entre os dirigentes dos três grandes?

Sim, há vários arguidos constituídos, neste momento não te consigo dizer quem são os arguidos. Por exemplo, as pessoas coletivas, o Benfica, o Porto e o Sporting, se não foram constituídos arguidos, deverão ser constituídos arguidos em breve, porque também estão em causa aqui alegadas irregularidades em sede de IRC, mas também os agentes, o Jorge Mendes e outros agentes conhecidos no mercado futebolístico nacional e também os jogadores, como alguns que acabei de referir agora e que também já foram alvo de buscas judiciárias, já foram alvo de buscas judiciais e que já terão sido também constituídos arguidos. Mas as questões essenciais que estão aqui em causa, além da dupla representação, como acabei de explicar há pouco, também estão em causa os próprios contratos de direito de imagem dos jogadores de futebol. Ou seja, são contratos que são feitos historicamente com o objetivo de fazer com que a remuneração do jogador, a remuneração que é tributada pelo Fisco enquanto trabalho, não seja remunerada como tal e seja remunerada com um imposto mais baixo a nível de contratos de publicidade. E esses contratos de direitos de imagem, que já em Espanha e em Itália foram colocados em causa, nomeadamente contratos de direitos de imagem de Cristiano Ronaldo, José Mourinho, até de jogadores nacionais e internacionais e que obrigaram ao pagamento de impostos. Agora em Portugal, essa questão dos contratos de direitos de imagem também está a ser posta em causa pelo Fisco. Portanto, são duas questões muito relevantes que estão sob a investigação do Ministério Público e da Autoridade Tributária.

Luís, relativamente ao timing para esta operação, ontem foi conhecida a operação das buscas à Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia, hoje as buscas aos clubes de futebol. Este timing diz-nos alguma coisa relativamente a uma eventual imagem que o Ministério Público quererá transmitir à opinião pública?

Não, ao contrário do que muitas vezes se ouve nas redes sociais e até nos bastidores da política e do futebol, não há aqui uma central de comunicação ou uma central de decisão do Ministério Público que determina que uma determinada operação é feita num dia e no outro dia faz-se outra. Não, isso não acontece. A realidade não é essa, independentemente das mentes conspirativas, muitas vezes nas redes sociais alimentarem essas ideias falsas. Mas o que acontece é que o processo de ontem, de Gaia, é um processo do DIAP regional do Porto e da Polícia Judiciária, Diretoria do Norte, e a operação de hoje é uma operação do Departamento Central de Investigação e Ação Penal, que tem uma equipa de procuradores especialmente constituída para investigar irregularidades no mundo do futebol. Portanto, são dois processos completamente diferentes. As equipes do Ministério Público, do DIAP regional do Porto e do Departamento Central de Investigação e Ação Penal, que tem sede aqui em Lisboa, não comunicam uns com os outros, não determinam que num dia vamos fazer uma busca e no outro dia vocês fazem outra busca. As coisas não são assim, e até pode acontecer que buscas sejam feitas no próprio dia, precisamente porque não há essa comunicação. E aliás, para terminar, esta Procuradora-Geral da República, Lucília Gago, é uma Procuradora-Geral da República que pouco exerce em termos de coordenação e de exercício de poder hierárquico, portanto, muito menos no contexto deste mandato da Procuradora-Geral Lucília Gago, isso aconteceria.