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Estávamos antes da hora do lunch, salvo erro foi de manhã, nos Estados Unidos. Não me recordo se ainda estávamos no quarto. Quando acordámos não sabíamos de nada e uma coisa caricata é que o relógio do pequeno estava partido em cima da mesa de cabeceira. Estilhaçou o vidro, sozinho. Nunca percebemos o porquê. Depois começámos a ouvir alvoroço, os telefones a tocarem e ligámos a televisão quando acordámos. Eu já não me recordo, mas será à hora do lunch, que íamos para baixo para comer qualquer coisa. Quando ligo a televisão, nós não nos demos conta. A minha esposa, na altura a Ligia, ia a chorar, a dizer que aquilo parecia o cair de Deus na América. Nós acordámos ainda um bocadinho assim, não sabíamos bem onde é que estávamos. E eu começo a fazer zapping na televisão e a imagem era sempre a mesma, parecia que o canal não mudava. E eu disse para ela: "Mas nós não estamos na América, estamos em Inglaterra, qual é o problema? O que é que se passa?". Foi na altura que nós nos demos conta disso, vimos rápido, havia um grande alvoroço no hotel. Depois, como é óbvio, com o passar dos minutos, começou-se a falar por aí que se havia jogo, se não havia jogo. Depois não havia tempo para adiar, jogava-se esse dia, no dia seguinte já não havia. Foi o alvoroço normal de uma coisa que estava a acontecer, mas que em termos de preparação para o jogo, em termos de concentração para o jogo, não nos desviou, porque aquilo era uma equipa especial e não nos desviou no que diz respeito à concentração de jogo, à preparação do jogo, ao plano de jogo que tínhamos para fazer. Mas sim, com tudo o que estava a envolver e estava a acontecer no mundo inteiro, como é óbvio que era impossível passar ao lado.

Era precisamente também sobre o jogo em si que queria perguntar. Já respondeu de certa forma, mas para um grupo de jogadores que já estará nervoso, certamente, ou pelo menos ansioso para entrar em campo em Anfield Road, notava-se alguma apreensão nos jogadores, não só do Boavista como do Liverpool, ou acha que a questão passou um bocadinho ao lado no momento do jogo em si?

Acho o ansioso ou nervoso para entrar em jogo é o normal de toda a gente, porque um atleta ao dar competição, se não estiver ansioso e nervoso para entrar em campo, não é atleta. As pessoas é que tendem a levar isso para o lado negativo. Falhou um penalty porque estava nervoso ou falhou isso. Não, isso é assim. Para nós, como nós dizemos, jogador profissional cresce e treina para isso, mesmo para aqueles momentos que estavam ali. Se é em Anfield Road ou se é no Estádio do Bessa, para nós é a mesmíssima coisa. Íamos enfrentar um público fantástico, um ambiente famoso, que é isso que todos nós queríamos. E de facto, quando chegámos ao estádio, tanto nós como os jogadores do Liverpool falámos sobre isso, abordámos uns com os outros aquilo que estava a acontecer, mas nunca desviando o foco daquilo que tínhamos a fazer, que era o jogo.

E sobre o ambiente nas bancadas, notaram alguma diferença ou pelo menos alguma indicação? Não me lembro se na altura chegou a ser feito algum minuto de silêncio.

Durante o jogo, não. Durante o jogo, nada. Não, nada. Não houve nada. Não me recordo disso. Desculpa, não me recordo, porque de facto o ambiente naquele jogo era um ambiente de jogo e pronto, e nada.

E no regresso? Vocês terminam o jogo, apesar de não terem ganho, com um resultado bastante positivo, portanto, acredito eu, satisfeitos com o resultado, mas depois era hora de regressar e regressar de avião.

Aí é que foi mais complicado. O mundo estava parado, os aviões não levantavam e a partir do jogo acabar, foi aí que se começou depois com a preocupação normal do que estava a acontecer. Nós tivemos que regressar, porque penso que tínhamos o jogo dois dias depois ao pé, dois fora. Sei que foi com uma ordem, cumprida especialmente das nossas autoridades, não sei se foi a PMR, se foi alguém que interferiu para que nós pudéssemos voltar para casa. Eu lembro-me perfeitamente, Porto-Brasil, o único avião que levantou foi o nosso, que era um Shark de Barcelona, e lembro-me de passarmos todos em coletes. Aquilo foi uma coisa surreal. Imaginem meia noite já no aeroporto, as cadeiras são bastante apertadas, imaginem-nos aí naquelas. Foi, de facto, muito difícil e como é óbvio, a partir daí, a preocupação, a dor de questões que nós sentíamos por aquilo tudo que se estava a passar à volta, porque todas as notícias eram encadeadas, as imagens também, isso foi preocupante. A viagem foi feita em silêncio, sempre com alguma tensão, como é óbvio. Tudo acalmou um pouco depois de aterrar no aeroporto, mas foi de facto momentos muito difíceis, nunca vividos, pelo menos eu