Foi um autêntico herói ao longo de pouco mais de 60 minutos: o AC Milan entrou bem diante da Atalanta, controlou por completo a partida, marcou, desperdiçou até um segundo penálti marcando o 3-0 na sequência do canto originado pelo castigo máximo defendido. Correu o risco de se tornar um vilão durante meia hora: os rossoneri tiveram um apagão total na partida, consentiram dois golos, foram-se até colocando a jeito para serem surpreendidos pelos visitantes. Entrou na história com o apito final: apenas três treinadores tiveram um arranque sem derrotas pelo clube nas sete primeiras jornadas da Serie A. Mais uma vez, Ruben Amorim entrava num carrossel de altos e baixos que chegou à última paragem com o melhor cenário possível.

A noite que era de sonho quase virou o pior dos pesadelos: AC Milan de Amorim vence Atalanta mas acaba a sofrer (sem necessidade)

Ainda houve assobios em San Siro dos adeptos mais impacientes que não gostaram da forma como o AC Milan perdeu o controlo da partida diante da Atalanta mas o trabalho do português, o primeiro desde essa longínqua temporada de 1964/65 a não perder nos primeiros sete encontros do Campeonato, começa aos poucos a ser valorizado pelo ponto de partida e até onde pode chegar entre a margem de crescimento que é grande. Existe também uma comunhão entre clubes e adeptos que nem sempre esteve presente, como se viu esta semana com o apoio da direção ao boicote rossoneri ao jogo fora com a Udinese pelo preço excessivo colocado para os visitantes. “Cobrar preços excessivos a adeptos nos jogos fora não é só injusto, prejudica a união da liga. Da nossa parte, vamos continuar a trabalhar para que não aconteça”, assinalou o clube.

Amorim pode não ser Mozart mas conseguiu afinar a orquestra: AC Milan goleia em Salzburgo com golo de Ramos (e hat-trick de Cissé)

Antes, havia outra deslocação neste caso a Inglaterra, com uma partida frente ao Bournemouth de António Silva, Evanilson e do diretor desportivo Tiago Pinto, clube que chegou a ser apontado a Amorim quando saiu do Manchester United. E, antes dessa terceira jornada da Liga Europa onde os transalpinos tentariam somar mais três pontos para “apagar” a única derrota oficial da época frente ao Benfica em San Siro, o treinador falou de passagem sobre o atual momento do antigo clube. “O que disse quando assinei pelo Manchester United é que adoro aquele clube e o sentimento de todos lá. O que aconteceu não muda isso. É a única coisa que quero dizer. Segui em frente, estou noutro grande clube. O AC Milan tem muitos problemas para resolver. Por isso, estou focado na minha vida e na nossa vida porque, como sabem, em qualquer grande clube, os problemas estão sempre ao virar da esquina…”, referiu o técnico português de forma mais evasiva.

Em paralelo, Ruben Amorim abordou também o pequeno problema físico que deixou Gonçalo Ramos de fora da partida, sem querer abrir muito o jogo sobre a possibilidade de voltar a promover uma “revolução” no onze como aconteceu, com sucesso, em Salzburgo. “O problema do Ramos não é nada grave, a situação do Chukwueze é diferente. Teremos uma visão mais clara nos próximos dias. Vamos rodar o plantel, como é de esperar nesta fase da época. O Cissé vai jogar, mas não vou dizer em que posição. Ainda tem muito a melhorar, temos de lhe dar tempo. Os jogadores jovens não devem ser pressionados. O Loftus-Cheek tem talento, ainda é jovem e precisa de dar um passo em frente a nível mental”, referiu a esse propósito.

“Cada jogo é importante. Este será o nosso terceiro jogo da fase de grupos e mais um teste para avaliarmos a nossa situação. Vamos lá para ganhar. Há sempre aspetos técnicos e táticos que precisamos de melhorar e ainda temos um longo caminho a percorrer. O Bournemouth tem qualidade e joga a um ritmo elevado. Tem alguns jogadores excelentes que são fortes em situações de 1×1. Fizeram algumas alterações desde que os defrontei como treinador do United mas não perderam a sua identidade. Regresso agora a Inglaterra como treinador do AC Milan. Adorei o United mas não penso no passado. Sinto que sou um treinador melhor agora mas acredito que continuo a ser a mesma pessoa que era antes”, acrescentou sobre esse regresso que motivava grande interesse também na imprensa britânica, que perante a atual situação dos red devils tem referido de forma frequente que Amorim foi mais vítima do que culpado por não vingar em Old Trafford.

Quando a bola começasse a rolar, tudo isso seria esquecido durante 90 minutos. Mesmo que não fosse, era o próprio Ruben Amorim que o queria esquecer, tendo em conta que o arranque da partida com uma chuvada forte e uma enxurrada de futebol ofensivo do Bournemouth, que inaugurou mesmo o marcador numa grande penalidade por mão de De Winter na área que Kluivert não perdoou (8′). A rotatividade que voltou a ser promovida, neste caso ficando apenas no onze Maignan, Pavlovic, De Winter, Musah e Diego Moreira em relação ao conjunto que defrontou a Atalanta, fazia com que a equipa estivesse desligada, presa, sem saída e “amarrada” pela pressão que os ingleses faziam a campo inteiro. E, como um mal não costuma vir só, Mike Maignan, capitão e o mais experiente, foi expulso num lance em que levou as mãos à cara de Tyler Adams antes de um canto (28′). Hutchinson saiu, Lorenzo Torriani foi lançado, Tavernier marcou de penálti (32′).

Ao intervalo, mesmo não havendo propriamente grandes esperanças em dar a volta a um filme que parecia ter o destino traçado, Amorim trocou Estúpiñan e Loftus-Cheek por Bartesaghi e Adrien Rabiot. O Bournemouth continuou a ter o domínio completo da partida, o AC Milan preocupou-se sobretudo em defender bem para tentar visar depois possíveis transições que surgissem, mas os minutos iam passando sem grandes motivos de interesse. Os rossoneri tiveram apenas um esboço de ameaça de bola parada, os ingleses foram continuando a pressão alta que colocava todo o encontro no meio-campo adversário mas também sem que Torriani tivesse muito trabalho apesar do domínio. E, quando a bola saiu enquadrada com a baliza contrária, deu mesmo golo: Adli, num livre direto de pé esquerdo descaído sobre a esquerda, fez o 3-0 final (84′). A derrota foi pesadíssima, a goleada podia ter sido ainda pior no dia em que tudo o que podia correr mal, correu ainda pior a Ruben Amorim no regresso a Inglaterra no comando da formação rossoneri.

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