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Eu era presidente do Conselho de Administração da Universidade Atlântica e estava precisamente num almoço com outras pessoas e vieram chamar-me a atenção de uma coisa estranha, violenta, que estava a acontecer nos Estados Unidos. De repente, eu e as pessoas que me acompanharam acabamos em frente à televisão. Acompanhamos já mesmo o segundo avião a destruir a segunda torre. Num primeiro momento, eram aquelas surpresas que constituem um choque monumental. Eu fiz duas coisas: por um lado, foi acompanhar durante aquela tarde a emissão televisiva, as notícias. Aconteceu comigo como aconteceu com qualquer cidadão. E depois fui também para a Assembleia da República. Não tinha funções dirigentes no grupo parlamentar, mas era deputado e como fazia parte da Comissão de Negócios Estrangeiros, estive na Assembleia da República, e a partir daí que acompanhei as coisas ao longo da tarde.
Que avaliação faz com esta distância de 20 anos relativamente àquilo que foi a resposta internacional a esses ataques, a invasão do Afeganistão, as detenções em Guantánamo? Acha que foram de alguma forma ultrapassadas algumas linhas vermelhas ou foi feito aquilo que tinha de ser feito?
Eu acho que a intervenção reativa dos Estados Unidos e da NATO pareceu-me uma resposta perfeitamente legítima e perfeitamente adequada. Chamo a atenção que foi a primeira vez, no quadro da NATO, que foi exercido o mecanismo que está previsto no artigo 5º do Tratado da NATO, que é um ataque a um membro da NATO, é um ataque a todos e, portanto, há uma resposta em conjunto. O ato de terrorismo foi de tal forma violento e inaceitável que é perfeitamente legítimo e compreensível, a meu ver, que os Estados Unidos tivessem reagido como reagiram. O que é reagir como reagiram? É pedir o apoio total, incondicional da NATO, o que foi dado. É cumprimento dos tratados que regem a NATO. Segundo lugar, uma intervenção no Afeganistão, porque evidentemente o Afeganistão era uma espécie de país, à época, que exportava terrorismo, que dava cobertura ao terrorismo. E, portanto, no momento em que o regime do Afeganistão se recusava a colaborar com os Estados Unidos e com a NATO, eu acho que era perfeitamente legítima a atuação, o comportamento que foi adotado, quer pelos Estados Unidos, quer pela NATO no seu conjunto, incluindo Portugal como membro da NATO. Segunda questão é uma questão de natureza diferente. Há 10 anos foi concluída uma fase importante com a morte de Bin Laden. E a grande questão que se colocava e que se colocou à altura, há cerca de 10 anos, foi a partir daí se faria ou não faria sentido acabar com essa operação. A opção dos americanos, a opção da NATO, foi noutro sentido, a de para além da resposta ao terrorismo, tentarem edificar um novo regime democrático, com regras completamente diferentes, preparando para o futuro. Isto foi a situação durante estes últimos 10 anos. Legítima, mas evidentemente que levanta alguns pontos de interrogação. E o terceiro grande momento é este que nós vivemos agora há poucas semanas, no mês de agosto, com a retirada das tropas americanas, por um lado, decisão que já vinha de trás, mas que foi reafirmada pelo presidente Biden, e das tropas também dos membros da NATO. Eu quanto a isso penso o seguinte: evidentemente que os Estados Unidos e a NATO não podiam estar indefinidamente no Afeganistão. Agora, a questão que para mim se coloca e para muito boa gente em Portugal e fora do nosso país, é esta: a forma como as coisas foram feitas dá uma sensação não de retirada, mas de abandono, e comprometendo quer os afegãos, aqueles que evidentemente não estão ao lado do regime talibã, e mesmo comprometendo a imagem da NATO e a imagem dos Estados Unidos como um parceiro credível.
Entrocaia na minha última pergunta, doutor. Partindo do pressuposto que estes ataques representam um marco na história recente da humanidade, que mudanças decorrem do 11 de setembro de 2001? O mundo é diferente?
Muito diferente. Mudou imensa coisa, desde logo nas nossas vidas. Quer dizer, a segurança foi reforçada. E evidentemente que não cabe ela sem senão, quer dizer, a nossa privacidade, a nossa liberdade de atuação, designadamente quando viajamos e em vários outros momentos, a nossa liberdade de atuação foi restringida, a nossa privacidade, evidentemente, também foi diminuída. Mas eu essa parte não critico. A segurança é um bem inestimável. Sem segurança não há verdadeira liberdade. Sem segurança não há verdadeira democracia. O terrorismo é uma ameaça, portanto, à liberdade e à democracia. E isso implica sacrifícios, implica restrições, implica alguma limitação dos nossos direitos, das nossas liberdades, das nossas garantias, alguma afetação da nossa privacidade, desde logo no plano das comunicações. E, portanto, nessa perspetiva, foi uma redução dos nossos direitos, mas compreensível e virtuosa. A segurança é um bem inestimável. E nós devemos ainda que com proporcionalidade, compreender e aceitar algumas limitações nos nossos direitos, nas nossas garantias, para preservar a segurança e combater o terrorismo, que é, de facto, uma calamidade.