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Muito boa tarde, Filomena. Tudo bem?

Olá, Rita. Tudo bem?

Mais uma edição de Quente e Frio. Hoje, finalmente, já não está tanto calor, portanto, nada de onda de calor, nada de estarmos a sufocar, não é?

Eu tinha-te dito para não te assustares.

Eu acreditei.

Também. Estamos com Portugal com quase dois verões diferentes, não é? Porque aqui não estamos a sufocar, mas se andares 150 km, no máximo, já sufocas.

Ali Évora, Beja, Castelo Branco.

Exatamente, porque há zonas com 24 °C aqui mais no litoral e há zonas com 37 °C ou mais ali mais no interior. Na costa ocidental, o ar atlântico do Marte voltou a impor-se, com Porto, Aveiro e Viana do Castelo, que estão nos tais 24 °C. Coimbra já passa para os 29 °C, 30 °C, Lisboa também nos 30 °C, mas basta avançares um bocadinho para o interior e o cenário muda completamente. Porque Bragança e Castelo Branco estão nos 37 °C, Beja perto dos 35 °C, Évora também muito quente e todo o interior norte e centro mantém estas temperaturas bem acima das que se sentem aqui na costa. Isto não acontece apenas porque junto ao mar é que é fresco, é aquilo que nós costumamos dizer. É verdade que a nortada e os ventos de oeste contam, mas o que eles fazem é empurrar pra terra uma camada de ar marítimo, que estava sobre o oceano muito mais frio do que o interior da península, e esse ar consegue avançar alguns quilómetros para dentro do território e depois é que perde influência à medida que encontra montanhas e serras e se afasta do mar.

E até prédios, imagino.

Exatamente, e até prédios. E é por isso que há esta diferença tão grande num espaço, na verdade, pequeno. A costa recebe o ar-condicionado do Atlântico, o interior está mergulhado numa massa de ar muito quente, é uma espécie de braseira africana e estamos como estamos. Dois países.

Mas os incêndios também estão a acontecer junto ao litoral, não é só o da Guarda.

Não. Os incêndios têm uma armadilha. Portugal arrefece aqui junto ao litoral, mas o risco de incêndio não arrefece à mesma velocidade, porque uma queda de oito a 10 °C na costa não devolve umidade à vegetação do interior de um momento pra outro. Depois de vários dias de calor, as ervas, as folhas, os ramos e outros combustíveis finos estão muito secos. E o perigo depende também da umidade do ar e do vento. Por isso, mesmo com temperaturas mais baixas em muitas cidades, o mapa do IPMA continua com perigo muito elevado ao máximo em grande parte do interior norte e centro, mas também no Alentejo e em algumas zonas algarvias, e mesmo aqui naquelas zonas mais propícias, o Minho, a zona de Aveiro, a zona mais interior de Viseu, está com risco muito elevado pra incêndio.

E Filomena, será que já podemos meter hoje a roupa a enxugar ou ainda há poeiras do Saara?

Deveria guardares pro fim de semana, porque a intrusão começou no sul, já se espalhou pelo território, aliás, está meio empoeirado, e deverá continuar a afetar Portugal esta quarta-feira, depois perder intensidade amanhã, mas ainda devem persistir partículas residuais, sobretudo no sul, até sexta-feira. Vais vendo pelo céu. Depois no fim de semana logo lavas a roupa.

Então e quinta-feira, amanhã?

Quinta-feira. Há uma nova descida das temperaturas, agora já mais no interior. Vai haver vento, nuvens e neblinas, nevoeiro também aqui junto à costa, e será assim até o fim de semana. Não há, pra já, qualquer sinal de mudança radical. O litoral norte e centro mantêm temperaturas moderadas. No interior, que continua quente, com máximas acima dos 30 °C, e haverá locais que ficam ali entre os 35 °C e os 37 °C. Lisboa está muito equilibrada e vai ficar sempre pelos 30 °C, 31 °C.

Está muito estável, Lisboa.

É, lá muito estavelzinha. Porto e Viana vão continuar nos 20 e muitos, Castelo Branco, Bragança, Évora, Beja, permanecem mais quentes, nos 30 e muitos. Mais nada do que isto.

E como dizia a música, depois entra agosto.

Pra já, agosto começa a ser uma nova onda de calor, não há preocupações sobre isso, mas não significa que o calor tenha acabado. As previsões mantêm um sinal de temperaturas acima do normal nos primeiros dias. Há um sinal de subida aqui também já nas primeiras semanas, mas ainda sem se prever qual é a intensidade, nem qual é a duração. Portanto, a pergunta para os próximos dias é que vai começar quente. Quanto dura esta pausa junto à costa, quando é que volta o próximo reforço do calor? Não se sabe.

Vamos ver. E agora, em relação aos incêndios, um incêndio pode fabricar uma trovoada e foi isso que aconteceu nos grandes fogos em França.

Aconteceu, há fotos, os cientistas confirmaram, mas não é novo. Eles dizem que em França é a primeira vez, chamaram de nuvens de fumo. Cuidado que também não são nuvens de fumo. O que as imagens mostram são enormes colunas a crescer por cima das chamas, só que aquilo nem tudo é fumo. Quando um incêndio liberta uma enorme quantidade de calor, como foram os de França, e estão a ser os de França e de Espanha, o ar sobe sobre as chamas, aquece violentamente, muito violentamente, torna-se menos denso e sobe a grande velocidade, arrastando fumo, sim, mas também as cinzas e vapor da água.

E de onde vem essa água, se está tudo a arder?

Uma parte já está na atmosfera onde existe. A outra vem da própria vegetação, porque as folhas, os ramos, os troncos contêm água e quando são aquecidos e queimados, libertam parte dessa umidade pra coluna de fumo. E a própria combustão também produz vapor de água. E quando esta coluna sobe, é preciso saber que encontra o ar cada vez mais frio e o vapor condensa-se e começa a formar uma nuvem. É assim que acontece. E é uma nuvem normal. E é aqui que depois tudo muda. Primeiro, pode surgir o que se chama um pirocúmulo É aquela enorme torre branca que tu vês a sair acinzentada ou esbranquiçada do incêndio por cima do fumo propriamente dito. Se o incêndio for tão intenso e a atmosfera estiver um pouco instável, não tiver só sol, a nuvem continua a desenvolver-se e pode transformar-se num pirocúmulo nimbus. E aqui está o perigo. Esta é verdadeiramente a nuvem perigosa, é o salto importante, porque esta é a forma mais perigosa destas nuvens de fogo, que são uma verdadeira nuvem de tempestade ou de trovoada, se lhe quiseres chamar, que é criada pelo próprio incêndio. E a partir daí, o fogo já não está apenas a responder ao tempo, está a começar a produzir o seu próprio tempo. Dentro desta nuvem, formam-se correntes ascendentes e descendentes muito fortes. O vento pode mudar bruscamente junto ao solo, alterar a direção das chamas e tornar o combate praticamente imprevisível. E pode haver, inclusive, relâmpagos, porque lá em cima, onde as temperaturas são negativas, formam-se gotas super arrefecidas e cristais de gelo e as colisões entre partículas vão separar as cargas elétricas, isto é da química e da física, como numa trovoada normal. Quando a diferença de carga se torna suficientemente grande, temos uma descarga, temos os relâmpagos, e esses raios podem cair longe da frente principal e provocar novos incêndios. E até há outro perigo tão grande como este, que é esta coluna que tu vês subir, pode enfraquecer e colapsar, provocar correntes descendentes tão violentas que o ar chega ao solo e espalha-se, produzindo rajadas que podem mudar o comportamento do fogo, transportar partículas incandescentes vários quilómetros. E é este tipo de fenômeno que chamou a atenção dos incêndios franceses. Não apenas a coluna de fumo, mas também uma tempestade que nasceu dentro do próprio incêndio.

Isso é absolutamente assustador. E é a primeira vez que acontece na Europa?

Longe disso. Portugal já observou esta piroconvecção, que é assim que se chama, extrema em grandes incêndios, nomeadamente em 2017 no de Pedrógão. E na Europa já foram vistos várias vezes, tal e qual como nos Estados Unidos e na Austrália. O extraordinário é que um incêndio pode tornar-se tão intenso que deixa de ser consequência das condições meteorológicas e passa a interferir diretamente com a atmosfera.

Bom, e vamos agora passar para algo mais sorridente. Para algo sorridente. E terminamos a olhar para o céu.

É isso, porque esta quarta-feira há a lua cheia, é a chamada lua de cervo. O instante exato da lua cheia acontece às 15h35, portanto, já passou. E ao fim do dia, quando pudermos ver a lua, já terão passado algumas horas, mas ela vai aparecer praticamente completa e não vale a pena procurar por um cervo desenhado na lua, não está lá. A lua não muda de forma, nem de cor e não lhe vão crescer astros. O nome é tradicional e foi popularizado por designações de povos indígenas da América do Norte. Está associada que nesta altura do ano, quando os veados machos estão a desenvolver novos astros e a perder os antigos, é assim que acontece. E julho também tem dado à lua outros nomes ao longo da história, a lua do trovão, por causa das tempestades de verão, ou lua de feno, porque nesta época há colheitas. São os nomes desta lua, desta altura do ano.

E como acontece tantas vezes quando olhamos para o céu, também há mitologia pelo meio.

Claro.

Claro que sim.

Artemis, para os gregos, ou Diana para os romanos, são deuses associados à lua e também à natureza selvagem e à caça. E portanto, o cervo está aqui ligado às duas. Na mitologia grega, por exemplo, o caçador Actéon teve um encontro particularmente infeliz com Artemis, a deusa da lua, porque a surpreendeu a banhar-se e foi transformado num veado e perseguido pelos próprios cães. Um castigo. Se esta noite alguém vos disser que a lua de cervo tem poderes especiais, como o da sorte ou de um recomeço, a perda de umas astros e o nascimento de outra, acreditem só se quiserem. A mitologia recomenda, pelo menos, que é preciso prudência com deuses e veados. Astronomicamente, é simplesmente a lua cheia de julho e há uma pequena curiosidade, aquilo a que chamamos lua cheia corresponde a um instante preciso, que é quando a lua está do lado oposto do sol no céu, sendo obviamente observada da Terra. Aos nossos olhos é a mesma lua de sempre, só é mais bonita, mais luminosa e tem um nome divertido e uma história mitológica má para o cervo, coitadinho.

E foi mais uma edição de Quente e Frio com Filomena Martins. Filomena, obrigada e até amanhã.

Até amanhã.