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O pior momento da minha carreira foi quando fui convidada a sair da escola que criei.

Este é o "Querido Líder", podcast da Rádio Observador dedicado à liderança. Eu sou o Ricardo Conceição e comigo estão os especialistas em liderança, o Milton Sousa e o Jorge Medeiros. A nossa convidada é a Sofia Borges, fundadora da Aldeia Nova Terra, educadora e diretora pedagógica ligada a projetos que experimentam novas formas de escola. Trabalhava há 18 anos em Recursos Humanos, quando a procura de uma escola que encaixasse na ideia de educação que queria para o filho, a levou a criar uma escola. Criou os Aprendizes em 2007 para implementar um modelo específico de educação, a primeira escola. Depois sentiu a necessidade de beber de vários métodos de ensino para encontrar alternativas ao ensino tradicional, que entende estar obsoleto. Vai buscar inspiração a métodos como High Scope, Montessori, Waldorf, Pestalozzi e Movimento da Escola Moderna. Bem-vinda, Sofia Borges.

Obrigada.

Ao "Querido Líder". Sofia, queria começar pela experiência de 18 anos em Recursos Humanos, cá e na América Latina. O que fazia? Qual era a sua função antes de se entregar em pleno à educação?

Eu sou do tempo em que as pessoas novas eram contratadas para as empresas para fazer aquelas coisas que os mais seniores não queriam fazer. Comecei numa empresa sueca de consultoria, que dava formação ao nível de liderança, comunicação, atendimento ao cliente, esse tipo de coisas. Tive 18 anos nessa empresa. Comecei a montar as pastas dos cursos, a tirar fotocópias e acabei como key account manager, a gerir contas internacionais. Quando o escritório abriu no Brasil, eu quis ir abrir. Tinha para aí 23, 24 anos. E foi uma experiência incrível gerir essas grandes contas, as Mercedes da vida, com responsabilidade para toda a América Latina e, portanto, dei formação no México, na Colômbia, na Argentina, etc. Uma experiência incrível.

Então tinha uma vida boa.

Tinha uma vida muito boa. Gostei muito.

E de repente?

Não foi tão de repente. Fui mãe aos 28 anos e entendi que o Brasil não era o país onde eu queria criar o meu filho. Toda a experiência que eu tinha tido crescendo em Portugal não era possível para o Tomás. Eu sou aluna da escola pública e do conservatório e do ir para a escola sozinha e vir sozinha, e isso é impossível no Brasil. E eu entendi que o contributo que isso tinha tido para a pessoa que eu era, eu não lhe queria tirar a ele. Eu não queria que ele fosse um menino dos colégios e toda aquela segurança em que tem que se viver para se viver em segurança no Brasil. Toda aquela clausura para mim ia impedir que ele se desenvolvesse como ser humano. Para mim era impensável.

Mas quando foi à procura de uma escola, encontrou uma escola obsoleta?

Foi uma grande surpresa. Eu voltei para Portugal, tinha o meu filho Tomás, dois anos, e quando fui procurar escolas, foi bom, porque eu não sabia nada nem de rankings, nem o que está in, o que está out, nada. Fui ver as do bairro. E fiquei perplexa, porque não só não era a experiência que eu tinha tido de escola, como aquilo que eu observava dele enquanto criança. Chegava à escola e a escola tinha uma visão do ser criança completamente diferente da que eu observava. Não fazia ideia, era mãe verdinha, então não sabia nada daquilo. Mas eu observava-o. E ele queria brincar e perguntar e andar, e a escola dizia-me que não, uma criança de dois anos não faz nada. Estão só ali sentados. E eu: "Ai, não é nada isso. A impressão que tenho dele, ele quer saber tantas coisas e pergunta-me tantas coisas. Por que vocês dizem que eles não querem saber nada?" Então a ideia que a escola me passava do ser criança era diferente da que eu observava daquele ser criança que estava à minha frente.

Então decide criar uma escola?

É assim uma coisa.

E que não era só com o seu filho, era com as outras crianças também, não é?

Sim, mas de facto foi muito este meu filho. E eu já lidava com muitas crianças. Obrigada por essa pergunta, porque ajuda-me a ver. Eu ao longo dos anos tenho olhado muito para trás para isto, que é: mas por que foi diferente para mim? Por que eu desenvolvi este olhar? Não acho que seja diferente das outras pessoas. Certamente tive experiências que me proporcionaram desenvolvimento de competências diferentes das outras pessoas. Tal como isto, do vi diferente, fui fazer uma escola. Não sei por que as pessoas não fazem isso. Para mim é simples. Achei que podia fazer diferente, fui fazer diferente. E eu olhava para as crianças e eu achava-as diferentes daquela ideia que a escola me passava da criança. A escola passava a ideia de que a criança é um ser passivo, que está lá, que não tem grandes interesses. Eu não observava nada disso, eu achava-os completamente diferentes disso. E depois, vir da área da formação fez-me olhar e perceber o que nós, como adultos, estamos à procura de desenvolver enquanto competências e o que as empresas procuram desenvolver nos seus funcionários para atingirem os seus objetivos. E depois vou à escolaE por que a escola não está a fazer nada disso? Estamos uma data de anos na escola a fazer sabe Deus o quê, para depois, desculpem a expressão, burros velhos é que vamos estar a mudar competências. Porque ao trabalhar com a formação de adultos, trabalho com o enorme desafio que é mudar comportamentos, mudar maneiras de estar. Mas por que temos que mudar? Por que ao estarmos a desenvolver as nossas competências, já não estamos a desenvolver as competências que já todos sabemos que são as necessárias pra vida. Estamos sempre a falar: pensamento crítico, resiliência, empreendedorismo. Ok, então por que a escola não desenvolve isso?

A escola tradicional promove exatamente o contrário, é isso?

Eu acho que a escola, bem-

Mas é rígida.

Eu tenho uma ideia da escola e não é nem pública, nem privada. Sou uma grande defensora da escola pública. Eu acho que o modelo tradicional de escola tem uma razão de existir. Ele surge com a revolução industrial e, portanto-

Ele, no fundo, democratiza o acesso à educação, não é?

Tem esse gigante benefício. Ele democratiza o acesso à educação, mas para uma época em que ele está desenvolvido, que é a revolução industrial, que não era pra desenvolver pensamento crítico. Era pra nós estarmos em filinha, todos nas fábricas, a obedecer e a fazer aquilo que nos mandavam fazer. Então, esse modelo que não evoluiu, embora haja muitos outros modelos, todos estes que falamos. Quando falaram da Marva Collins, repare nada do que está dito sobre educação, que se considera alternativa, visionária, etc, é novo. Então todos os sistemas que se propõem alternativa ao tradicional, nenhum deles é novo. Nós é que não saímos daí. E o tradicional eu acho que não só não promove o desenvolvimento, como dramaticamente castra o desenvolvimento destas competências pra termos seres pensantes.

Só uma questão. Sabendo nós os modelos que à partida seriam mais eficazes, dada a nossa realidade e este nosso novo mundo, de onde é que vem a dificuldade em implementar? É da própria incompetência dos professores ou falta de vontade, ou é do sistema em si, ou é do modelo de financiamento? Onde é que identifica as causas principais pra isso?

Olha, essa é assim aquela do the million dollar question. E qualquer coisa que eu possa dizer, vai ser sempre só a reflexão que eu tenho feito sobre isso.

Claro.

Porque a partir do momento em que eu descobri que existiam tantas formas diferentes, de fato, comecei a pensar: "Mas por que as pessoas não fazem isto? É que ainda por cima é fácil de fazer e provam resultados e, portanto, caramba, já estamos fartos de saber que eles dão certo". Eu acho que não tem nada a ver com os professores, embora, claro, com os professores haverá provavelmente a resistência à mudança, porque sempre fizeram de uma forma diferente, que já toda mundo comprova que não dá resultados. Os alunos estão desmotivados, chegam às empresas incompetentes. Eu acho que é capaz de ser uma questão mais política, mais societária, em termos do: não é muito interessante termos seres muito pensantes, muito críticos, porque enquanto formos seres não pensantes e pouco críticos, we play along. Vamos andando aqui nesta sociedade capitalista rápida. Quantidade de vezes que neste breve momento em que usamos a palavra: "Ah, vou ser rápido". Ok, mas depressa e bem não há quem. Então eu acho que não é muito interessante nós sermos críticos e contestatários do sistema.

A minha experiência também com professores é que a vontade está lá muitas vezes, e a competência também seguramente. Muitas vezes eles próprios sentem-se limitados naquilo que é os graus de liberdade que têm pra poderem implementar essas soluções. Portanto, eu acho que passa, se calhar, muito por aí.

Eu, se pudesse dar um exemplo muito rápido de uma-- olha eu usar a palavra rápido, já me contaminaram aqui.

Não é preciso.

Eu tive uma educadora com quem trabalhei até há pouco tempo e ela já tinha perto de 50 anos, era uma mulher com muita experiência, uma mulher do ponto de vista interno, muito rica, muito interessante. Depois do ponto de vista prático da implementação da sua prática, ela era criativa, aquilo não vinham ideias, não vinham sugestões. E eu, quando comecei a trabalhar com ela, comecei à procura do: "Ok, como é que vou ajudar esta mulher a ocupar este seu lugar de uma forma mais rica pro projeto?" E foi interessantíssimo, porque nas primeiras conversas com ela, o que ela me disse foi que quando tinha acabado o curso, vinha cheia de ideias e cheia de coisas que queria fazer. E depois esteve sempre em sistemas, em escolas onde lhe davam quase que uma cartilha daquilo que ela tinha que fazer. E que passados tantos anos, a simplesmente implementar cartilhas, ela sentia que já não tinha nela a capacidade de inovar, de criar, de fazer diferente.

Ficou anestesiada, é isso?

Eu fiquei. Aquilo foi uma das conversas mais ricas que eu tive, que me entristeceu imenso. Nem foi anestesiada, foi incapaz. Ou seja, esta competência, e o Sir Ken Robinson dizia isto, school kills creativity, no sentido em que se ela não é estimulada como toda e qualquer outra competência. Uma pessoa se não for estimulada a falar, não fala. Se ela não é estimulada, esta criatividade desaparece. Então pensem, pra mim, o mais criminoso do sistema tradicional de ensino é: estamos a impedir o desenvolvimento de competências e de potencial, que se calhar podia trazer grandes revoluções, grandes ideias inovadoras ao mundo.

Ó Sofia, e voltando atrás, e obrigado pela sua honestidade intelectual, porque de fato o tema da educação é um dos grandes temas muito complexos, mas depois quando decideCriar a sua própria escola, os aprendizes, faz uma série de escolhas com base no diagnóstico que fez. Que escolhas fez que foram ao encontro do que pretendia para os seus alunos?

Olhe, eu primeiro comecei sem formação anterior. A minha formação é na área das relações internacionais, portanto, I played by the book. Peguei num sistema com o qual me identifiquei mais primeiro, que era o High Scope, fui buscar formação nesse modelo e durante um ano estive a aprender sobre isso para depois o implementar. Depois vieram as crianças e vieram todos à descoberta de uma série de outros modelos. E eu digo sempre que as crianças foram os meus maiores professores. Eu sabia o que eu queria fazer. Eu queria esta coisa do estimular o pensamento crítico, estimular a individualidade, que cada um se descobrisse, quem são estas mil vozes, em vez de ter mil vozes a papaguear uma coisa que eu achasse que era a certa. Eu sou só uma no meio deles todos. E permitir que eles descobrissem coisas. Fala-se muito em inteligência artificial e outro dia li uma frase que era: "Inteligência artificial não cria nada de novo." Imaginem um mundo onde não se cria nada de novo, onde nós estamos só a reorganizar as mesmas ideias.

E é ainda mais interessante, estamos a tentar humanizar a inteligência artificial, o que já de si é interessante também.

Porque também não estamos a trabalhar a nossa própria humanidade. Esta coisa da Aldeia Nova Terra tem a ver com isto, que é a nossa humanidade. Então em vez de estarmos com receio da inteligência artificial, ok, em que ela pode facilitar a nossa vida, se calhar podemos ir todos um bocadinho mais devagar, porque ela faz uma data de tarefas por nós. E onde é que nós, humanos, mas eu acho que muitos de nós também já perdemos o contato com isso, o que é que nós humanos podemos fazer?

Eu aí não sou tão otimista, porque quando apareceu o computador também se dizia: "Não, vamos ter uma qualidade de vida como nunca tivemos, porque a máquina vai dar-nos uma tal produtividade que vamos conseguir ser igualmente produtivos, mas com muito menos horas." Claro que a natureza detesta um vazio. E portanto, com a inteligência artificial, provavelmente, digo eu, mas isto vai ficar gravado, provavelmente o que vai acontecer é que vamos conseguir fazer cada vez mais coisas e portanto o ciclo perpetua-se.

Fica aqui o teste, daqui a um ano voltamos e dizemos se estamos a trabalhar mais ou menos.

Temos de ver.

Atenção que eu não arredondei a frase à economista.

Exato. Não vamos conseguir entrar em cada um destes métodos de aprendizagem, mas ajude-nos lá. Vou fazer aqui uma pergunta provocatória para tentar perceber qual é a diferença da sua escola. Os miúdos aprendem a tabuada enquanto brincam na lama ou enquanto sobem às árvores, é mais ou menos isto?

Que horror! Eu uma vez vi um ministro da Educação, senti muita vergonha de ele ser ministro da Educação do meu país, porque a forma que ele usava para descrever os modelos alternativos era essa. O objetivo dele não era ser provocatório, era ridicularizar. A grande questão é: a escola, como está construída, e fala-se muito de conhecimento, e eu acho que há uma grande diferença entre conhecimento e sabedoria, acima de tudo, em usar o conhecimento que tenho. Mas a escola, hoje em dia, é um lugar onde se debita informação e onde se pede que as pessoas decorem a informação e a despejem face a um teste. Pronto. Não serve para mais nada. E não está a desenvolver conhecimento. Isto não é conhecimento. Estes modelos todos alternativos, e eu não gosto da palavra modelo, porque os modelos pressupõem receitas e eu não acredito em receitas. Eu acho que as escolas têm que ser lugares orgânicos que vão evoluindo em função dos seres que a habitam.

Quando esses vários modelos podem coabitar e devem coabitar.

Perfeitamente. E eles coabitam todos perfeitamente. E todos eles têm a premissa e um bocadinho do que falavam em relação à Marva Collins, que é: o centro está no desenvolvimento de competências e na relação que se estabelece professor-aluno. Falou de compaixão, falou do not yet. Eu sou fã dessas.

O not yet é maravilhoso, não é?

Aliás, agora vou eu lançar uma provocação, que é: quando se dá uma nota negativa ao conhecimento, é uma coisa que eu não compreendo. Como assim, uma negativa? Sei menos que? O que é negativo? Eu tenho um dois a português, então eu sei menos que zero? O que é isto? Eu não sei o que é isto.

Eu não resisto a regressar à Marva Collins, porque a Marva Collins não rasurava os testes, não usava caneta encarnada, não usava nada disto. Mas depois, com cada um dos alunos, identificava os erros, não os riscava, punha um círculo, está aqui, e a forma correta por cima. "Então, mas eu não posso apagar, professora." Não, não podes.

Faz parte do processo.

Faz parte do processo para tu te lembrares e para te lembrares que cresceste com isto e como fazias antes e como fazes agora.

E como o tema também está ligado à liderança, eu acho que isto depois tem condicionamentos na forma como nós ocupamos o nosso lugar na sociedade, seja como cidadãos, seja como líderes, que é achar que o erro não faz parte do processo, só que o erro faz parte do processo. Portanto, eu aprendo com ele e eu devo sinalizá-lo e identificá-lo pra eu perceber: ok, o que é que aqui não está, como é que aqui não é, e então como é que deveria ser?

Ó Sofia, agora vou eu lançar aqui uma provocação, sempre construtiva, obviamente, porque no panorama nacional também já temos realidades diferentes. Nós utilizamos, obviamente, a escola como uma forma de facilitar a conversa, mas na verdade, já há várias escolas no país. Mas a pergunta é esta: tem de haver competências transversais. E quando subimos aqui à altitude e nos pomos numa pessoa que tem de ter uma perspectiva de garantir que como nação temos um conjunto de competências elementares, agora estamos a falar das mais estruturais, como o português ou matemática, porque estamos de fato num mundo que compete com outros mundosNão há um risco muito grande de fazer uma espécie de experiência à escala nacional em que vai haver, com certeza, resultados muito bons, mas não conseguimos garantir a transversalidade, porque com toda a experimentação, se deixarmos cada professor fazer o que entender, há risco.

Eu nem consigo entender a palavra experimentação, porque já está tão testado e tão demonstrado que aprender a tabuada, brincar com a terra ou com a lama, a única coisa que traz é significado e relevância àquilo que se está a fazer. Eu não preciso ser para brincar na lama, mas pode ser para medir a área, para decidir a relva que vamos querer pôr no recreio. O que os miúdos dizem da escola? "Eu não percebo porque é que estou a aprender estas coisas." Mas a maioria daquelas coisas têm um sentido, mas nós retiramo-lo, porque perdeu-se. Repare, o perfil do aluno à saída da escolaridade obrigatória não tem assim tantos anos. Portanto, na realidade, nós estávamos era a desenvolver currículo, estávamos a dar currículo. O professor diz isto: "Eu tenho que dar a matéria, eu tenho que dar o livro." Isto não é o papel do professor. E se for perguntar ao professor o que ele gostava de ser o seu papel, eu tenho a certeza que ele não lhe vai responder que é dar o livro. Ele é um bocadinho encurralado nessa direção. O que ele gostava era de poder estar a dar aplicabilidade àquilo que os miúdos estão a aprender. E a tabuada serve, e a literacia, lá está outra vez a ideia. Não é matemática, é o raciocínio lógico-matemático. Não é o português, é a literacia.

Com certeza.

É o que está por trás, voltamos sempre às competências, não é aquilo em si mesmo. E se eu posso fazer isso através dos interesses de um aluno, e eu posso fazer isso, um aluno pode ter interesse no Futebol Clube do Porto, é um bom exemplo que eu vou dar.

Excelente escolha.

Não é?

É uma excelente escolha.

E já vais ver por quê. Tive um aluno que queria fazer um projeto sobre o Futebol Clube do Porto, porque o pai é do Porto e é uma maneira dele se ligar ao pai. E nós conseguimos trabalhar o Futebol Clube do Porto e incluir neste projeto tão significativo para ele, uma data de coisas que são de uma matéria e estamos a dar baixa no currículo. Vamos trabalhar sobre distrito, vamos trabalhar sobre população, vamos trabalhar sobre o número de adeptos, vamos trabalhar sobre uma quantidade de coisas que quisermos e o nível de motivação que o aluno tem para trabalhar este projeto é muito superior do que se eu disser: "Ok, então olhem, hoje na página 44 diz que vamos falar dos distritos. Então bora lá." Não há relação, não há ligação a isto.

Sofia, mas é possível aplicar este modelo a todos os alunos em todo o país ou isto é algo mais de nicho, com pais com capacidade para ter os filhos nestas escolas? Acha que é possível democratizar?

Perfeitamente. Não há questão nenhuma. O que eu acho extraordinário é estarmos a implementar um modelo igual para todos, quando não corresponde ao pressuposto. O pressuposto é que nós somos diferentes e nós aprendemos de forma diferente. E o que está a acontecer atualmente, particularmente com a escola pública, que é criminoso aquilo que estamos a deixar acontecer com a escola pública, é que ela está a ficar cada vez mais segmentada, porque como o modelo que eu quero implementar é um modelo igual para todos, eu tenho que os aproximar uns dos outros para eu conseguir implementar. Então eu ponho os bons alunos ali, eu ponho os maus alunos ali, eu ponho os que têm dinheiro ali. Eu tenho que os segmentar para eu conseguir aplicar uma receita igual para toda a gente. Mas se a minha receita não for igual para toda a gente, assentando no pressuposto que as pessoas são diferentes e aprendem de forma diferente, então é muito mais fácil de implementar.

Mas aí tem que fazer uma segmentação ao indivíduo e, portanto, tem um grau de personalização bom, passo a redundância, à pessoa, ao aluno. E isso também implica recursos, pessoas, horas, porque este quer fazer o trabalho do Futebol Clube do Porto, o outro quer fazer o trabalho da organização A, B ou C, portanto, é tudo diferente. Então tem que ser também um debriefing personalizado, não é?

Sim e não.

Tem de haver uma capacidade instalada para isso.

É o modelo que está desenhado, é o sistema, porque isso já se faz. Isto não é uma coisa que eu estou aqui a especular sobre a possibilidade dela acontecer. Eu trabalho há 20 anos desta forma, há quem trabalhe há 40 ou 50 desta forma, a mostrar a sua possibilidade, a sua viabilidade. Porque vão haver mais dois ou três que também querem fazer sobre o Futebol Clube do Porto e vão haver aqueles quatro ou cinco que querem fazer sobre o outro.

Eu percebo, mas a minha pergunta é esta: mesmo que haja mais dois ou três que querem fazer sobre o Futebol Clube do Porto, a alternativa é, se fizéssemos o trabalho é igual para todos, cada um faz do ponto de vista de, a palavra é feia, ainda para mais no contexto de educação, mas eu vou utilizá-la só por simplicidade, do ponto de vista de eficiência, é mais fácilAnalisar e é mais democrático, já que temos de dar notas, que é outro tema, que o trabalho seja igual para todos, a eu estar depois a fazer uma personalização e a comparar coisas incomparáveis.

Mas o objetivo é ela ser eficaz ou eficiente?

Por isso é que eu usei a palavra eficiente com estas reservas todas.

Se o objetivo é ela ser eficaz e ela efetivamente produzir aprendizagem, voltamos sempre à questão dos pressupostos, que é: o objetivo é servir uma logística? É a mesma questão de por que é que há escolas onde os miúdos aos três anos já não dormem. Ok, isto não serve a necessidade de desenvolvimento, serve uma questão logística. Mas qual é que é o objetivo da escola? E se o objetivo é, de facto, produzir resultados, que no caso da escola estamos a falar de desenvolvimento de competências, estamos a falar de conhecimento, etc. Então o modelo tem que ser desenhado para isso e não para o contrário, que é ser eficiente.

Sofia, temos de ir às nossas perguntas fixas que fazemos a todos os convidados do "Querido Líder".

Eu só quero deixar uma ressalva, que é: isto é possível, isto já se faz. Então não ponham isto sempre, porque há uma tendência para fazer isto.

Olhar para isso com alguma excentricidade. Só fazer esta ressalva, cinco segundos, que é: temos de ver as escalas também. No limite, se tivéssemos todo este grau de personalização e os alunos todos a ter este grau de personalização, o que aconteceria quando entrassem para o mercado de trabalho, em que tem de haver alguma comparabilidade entre eles? Era por aqui que eu queria ir.

E é perfeitamente possível e há sistemas de avaliação justos, não é esses das escalinhas do um, dois, três, quatro, cinco, mas existem sistemas de avaliação em que o próprio aluno se propõe para a avaliação, onde dá feedback do ainda não alcançaste e em que eles perseguem esse alcançar o máximo possível daquilo que conseguem aprender e não apenas: "Ah, já tive três e pronto, quero lá saber."

Isto estava para ter mangas, Ricardo.

Estava, com certeza.

Vamos às nossas perguntas fixas e Sofia, pergunto-lhe qual foi o pior momento da carreira?

O pior momento da minha carreira foi quando fui convidada a sair da escola que criei. Foi um momento muito difícil.

Foi convidada a sair da escola que criou?

Fui convidada a sair da escola que criei.

Dos Aprendizes?

Uhum.

Quer elaborar?

Fruto de várias coisas, não sei se a palavra necessidade de crescimento é real, porque havia essa pressão por parte dos pais da escola ter secundário, etc. Com isso vieram outras pessoas, veio investimento, veio uma série de coisas, veio um novo projeto, um novo rumo para a escola, do qual eu deixei de fazer parte.

Com o qual não se identificava.

Do qual eu deixei de fazer parte por diversos motivos. Então, foi duro.

E qual foi o melhor momento?

O melhor momento foi quando abri os Aprendizes. Da ideia de: "Ah, não há muitas escolas assim. Ah, se calhar vou abrir uma escola. Ah, vou abrir uma escola." Entre estas ideias e de facto abrir, aquela ideia foi uma sensação extraordinária.

Sofia, uma questão, ainda que junta as duas, na verdade, porque o melhor momento foi a criação daquilo que depois a convidaram a sair. Como é que lidou com essa fase? Como é que se reinventou depois disso?

Esta forma de estar em educação acabou por ser a forma que eu fui escolhendo para estar na minha vida. E, portanto, eu vejo tudo como oportunidades, como possibilidades para aprender alguma coisa com aquele momento e integrar o que tivesse para integrar, transformar o que tivesse para transformar e poder, aquele momento difícil, ser algo que me pudesse, no momento seguinte, fazer ser uma pessoa melhor, um líder melhor, o que quer que fosse, mas aquilo não ser algo que me destruísse e seguramente acho que não é palavra que faça parte do meu vocabulário, mas ok, espera lá, isto está a acontecer e eu hei de ter a minha dose de responsabilidade nisto, portanto, não é entrar num processo de vitimização, em que há uns maus e uns bons. Então, o que é que eu fiz bem que me conduziu aqui e o que é que eu posso ter feito com o qual tenho que aprender que me conduziu aqui?

E quando é que percebeu: "Eu é que sou a líder"?

Eu acho que teve muito a ver com os miúdos. Porque os adultos não usam muito essa palavra, do chefe e da chefe. Mas os miúdos é que usavam. Então eles é que diziam: "Porque tu é que és a chefe. Tu é que és a chefe." E eu: "Epá, esta palavra é assim um bocado..."

E foi nesse instante?

Foi.

E quais são os líderes ou líder que te inspiram?

Eu acho que há duas pessoas que me inspiraram muito. Um foi o meu primeiro chefe, um senhor sueco chamar de Kurt Abrahamson, que era um homem dono de uma grande multinacional, uma empresa que estava em 42 países, tinha 1000 e tal funcionários. Ele sabia o nome das pessoas e preocupava-se verdadeiramente com as pessoas, teve muito impacto na minha vida. E em termos mais globais, acho que é um bocado óbvio. O Nelson Mandela, não sei se pelos motivos mais óbvios, mas pela capacidade que ele teve de integrar num novo modelo de sociedade as pessoas que o tinham prendido. Eu acho que isto requer uma compaixão muito grande, então é um homem que admiro.

E qual é o sonho ou quais são os sonhos por realizar?

Tenho dois. Um é dar a volta ao mundo. Hei de dar.

Em 80 dias? Em 800 dias, imagino. Ou oito anos. Sempre pode ser oito anos.

Em 80 dias não será, com certeza, para poder usufruir como deve de ser.

É para saborear a viagem, não é?

Para saborear a viagem. E o outro é, atualmente, eu acho que a escola exclui muitas pessoas do seu processo e estou muito direcionada neste momento para trabalhar com esses que a escola exclui.

Sofia Borges, muito obrigado por ter vindo ao "Querido Líder".

Eu é que agradeço.

Obrigado. E aos nossos queridos líderes, Jorge e Milton, um abraço. Até para a semana. Ricardo.

Um abraço.