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Chegou a final do mundial, opôs a Espanha à Argentina. Acompanhámos tudo aqui na Rádio Observador com o relato do Diogo Varela. Vitória por um bola a zero de Espanha, mas um bola a zero é um enorme favor, minha Gabriela Alves, Augusto Inácio, à exibição argentina, que sai em resultado melhor do que apareceu em campo. Foi domínio total da Espanha, que depois de ter vergado uma França com olés, conseguiu também uma vitória sem espinhas frente à atual campeã do mundo, que deixou o título hoje à Argentina.

Uma vitória completamente merecida da Espanha, na sequência daquilo que foi todo o seu campeonato, toda a sua participação neste campeonato, toda a sua competitividade neste torneio nas Américas, dando alarde a um trabalho de base, de estrutura, com um excelente treinador, belíssimos jogadores, que para lá da seleção, acima de tudo, uma equipa. Uma seleção com rótulo, mas não é só rótulo. Rótulo, recheio, conteúdo, equipa. E essa equipa mostrou ao mundo como é que uma seleção de um país, obviamente, pode e deve competir rumo àquilo que é a conquista de um título para a qual é candidata, mas não é campeã antes de lá chegar. É campeã depois de todos os jogos que fez, de todo o trabalho que efetuou, desenvolveu pela competitividade, pela atitude, pelo coletivo e pelo saber dos seus jogadores ao serviço da equipa e não ao seu serviço pessoal.

Numa altura em que as imagens que nos chegam do estádio vão dando também a enorme alegria de figuras não ligadas diretamente ao futebol, mas que foram aparecendo ao longo deste mundial. Quem me dera estar a dançar neste momento como dança Javier Bardem, o que é certo, Augusto Inácio, é que a Espanha acaba por vencer sem espinhas. Chegou ao gol 20 remates depois e só depois disso é que a Argentina foi visar com perigo a baliza do Unai Simón, que chega ao final deste mundial apenas com um gol sofrido no jogo dos quartos de final frente à Bélgica. Um registo que tem também a ver com aquilo que falava o Gabriel Alves, o trabalho que vai já sendo feito desde cedo por De La Fuente dentro desta Federação Espanhola, culminando agora enquanto técnico principal da equipa que ganha o segundo mundial da história do país.

Olha, uma das coisas que eu quero referir aqui é que antes de começar o mundial, tu podes dizer: "Eu quero ser campeão do mundo, nós vamos lá pra ganhar, nós vamos mostrar o nosso futebol". Tudo isso é tudo muito bonito, mas depois no campo é que se vê a ambição, o querer, a determinação, a organização e tudo isso que faz com que sejam campeões. A Espanha, realmente, foi crescendo, como eu já disse, ao longo do tempo da competição, com exibições nos primeiros dois, três jogos, que não foram aquilo que se esperava de uma Espanha. Mas à medida que os jogos foram avançando e foram aparecendo adversários muito mais cotados, eu diria que a Espanha ficou, como se costuma dizer, como peixe na água. Ou seja, sentiu-se sempre bem com equipas que podiam dar luta em relação àquilo que era o resultado final. E foi assim que a Espanha vulgarizou uma França, que era considerada a favorita, até por mim. Eu disse que a França era favorita pra ganhar este mundial devido aos jogos que tinha feito, mas depois a Espanha reduziu a França a insignificante, no sentido de que: "Realmente nós estamos aqui e nós somos superiores." É realmente uma competição.

Isso foi o que mais me surpreendeu, foi uma imagem que fica deste jogo. Na verdade, é uma imagem maioritariamente sonora, ou pelo menos partilha o som com o caráter da imagem, porque não só a Espanha circulou a bola com tudo à vontade a vencer por dois zero a França numa meia final, como os adeptos espanhóis aproveitaram aquilo que é seu apanágio, o amor pelas touradas, pra gritar olés. Não será fácil uma seleção ter o gabarito, fazer isso a uma França com jogadores que eu diria de contornos pornográficos, com a pérola dos tempos atuais para cada uma das posições.

Pois, as touradas têm muito a ver com Portugal, Espanha, México. Eu não gosto nada dessa expressão no jogo de futebol. Sinceramente, não gosto.

Do olé?

Do olé não gosto. Não gosto dessa palavra porque é um desrespeito para com o adversário.

Mas às vezes cumpre uma função de o desestabilizar, quando também pode ser necessário. Também tem que ajudar a bancada, não?

Desculpa, mas isso o adepto, quando é ao contrário, também não gosta. Por isso eu não gosto dessa expressão, que tem outra conotação, na minha opinião, do que em relação àquilo que é: "Eu estou a dar baile no adversário, eu vou marcar mais dois ou três gols, o adversário é menor." Esse olé, pra mim, não encaixa. Mas isso é a minha opinião. Se calhar, há muita gente que gosta, eu não gosto. Mas diria que a Espanha, através do seu jogo coletivo, com a integração da individualidade ser muita e boa, de grandes jogadores, faz realmente uma equipa. E às vezes a seleção que tem mais nomes não quer dizer que seja a melhor equipa, porque não é. E a Espanha provou isso. Eu olho pra essa Espanha e digo cá pra comigo: eu gostava realmente de ver a minha equipa, o meu país, Portugal. Não estou a dizer que jogue como a Espanha joga, mas que jogue com uma organização em que dê possibilidades de as pessoas que estão de fora a acompanhar a equipa, dizer assim: "Nós Vamos ganhar. A ver o que estamos a ver, vamos ganhar. E não é o vamos ganhar antes do jogo começar e depois as coisas não são assim dentro do campo. Não bate aquilo que se diz antes do jogo, com aquilo que depois é praticado na hora do jogo. Não bate. E nós nunca conseguimos encaixar essas duas coisas. A ambição, sim, é bonita, é boa? É. Portugal tem os melhores jogadores do mundo, ok. Tem os melhores treinadores do mundo, ok. Mas depois é ali dentro, naquele retângulo.

Como é que se conjuga tudo isso.

Como é que se conjuga tudo isso para que realmente as pessoas que são infiltradas dentro do seu ouvido e que veem e ouvem, e que vão atrás muitas vezes aquilo que se diz, mas os seus olhos olham e não veem dentro do campo aquilo que é dito fora. E isso nós não temos, infelizmente. Mas a Espanha provou. Não estou a dizer com isso que a Espanha ganhe sempre os campeonatos todos e que vai ser sempre assim. Cada campeonato e cada mundial tem a sua história.

E os jogadores e os seus momentos também.

A Espanha provou, até porque, para mim, tem um significado muito grande tu nestes jogos todos só sofreres um gol. E isto de sofreres um golo, por isso é que eu disse, e o Gabriel ficou aqui e perguntou-me: eu prefiro ganhar um a zero do que cinco a um, porque para o treinador e mesmo para a equipe, tu sofrendo um gol, sabes o que é sentires-te vulnerável. És vulnerável, sofres gols, és vulnerável.

Sim, a expressão intransponível é aquela que todas as equipes querem usar sobre a sua baliza.

Se calhar, aquela confiança, se calhar, a forma como tu lidas com os teus colegas nos exercícios.

E com a ansiedade no final do jogo, como falámos, essa certeza lá atrás vai dando também estofo para que a equipa não tenha medo de ir carregando.

Exato, mas o que os jogadores espanhóis estavam a sentir, eu sentiria se estivesse no lugar deles, é que eu sei que a minha equipa não vai sofrer gols. Eu sei que estamos confiantes, não vamos sofrer gols, mas nós não estamos a marcar. E se fôssemos aos penais, eu acho que a Argentina iria muito mais confiante para os penais, porque já sabia que nos 80 minutos ou nos 120 estava a ser menos capaz de controlar o jogo. Estava menos capaz de marcar gol do que a Espanha. Repare, os adeptos argentinos só começaram a se manifestar praticamente quando aquilo começou a ir para prolongamento. Por quê? Eles começaram a sentir assim: nós não temos capacidade para ganhar.

A não ser em penais.

Mas temos capacidade de nos penais ganharmos. E daí talvez houvesse aquele pequeno entusiasmo. Mas diria, sinceramente, resultado muito curto para a Espanha. A Espanha merecia ganhar por dois ou por três, esta é que é a verdade. A Espanha foi muito melhor que a Argentina e sinceramente, não é para a Argentina ter jogado com 10, porque com 11 a Espanha já estava muito melhor que a Argentina.

O melhor período da Argentina ofensivo foi depois de sofrer o gol, ainda com 10, portanto.

Sim, mas a mim encantou-me a Espanha nestes últimos dois jogos. Com a França demonstrou realmente uma capacidade enorme e hoje também jogou muito bem. Eu não vejo uma equipa melhor do que a Espanha, sinceramente. Podia ter ganho o mundial e eu não ter gostado por isto ou por aquilo. Mas qual é o ponto fraco da Espanha neste momento no jogo com a França e no jogo com a Argentina? Expliquem-me a mim qual é que foi o ponto fraco da Espanha. Sabes qual é que foi o ponto fraco da Espanha hoje? Foi não marcar gols.

Exatamente. Foi sair para fora da área. E do lado da Argentina, tivemos algo surpreendente para a seleção que fomos descrevendo e que fomos vendo como aquela, provavelmente, de maior alma e de maior capacidade para as adversidades, desapareceu completamente. Cerca de 80 minutos de jogo ainda não tinha realizado nenhum remate à baliza do Nay Simon. Como é que De La Fuente conseguiu esta calibragem defensiva para fazer face até a nomes como Messi, que levaram esta equipe da Argentina para frente?

Olha, de uma forma extremamente simples, é que a Espanha não venceu só uma final. A Espanha não conquistou só o Campeonato do Mundo Américas 2026. A Espanha preservou e deixou na história do futebol um estilo de jogo. E isso é tão mais importante do que o título que conquista em função disso.

Até o De La Fuente disse que os jogadores acreditaram na ideia de jogo.

Exatamente. Portanto, deixou um estilo de jogo para a história. E esse é o fator determinante, porque deixou aquilo que eu sempre disse: uma equipa, um coletivo, com futebol.

Deixou um legado.

Não com bola, com futebol.

Sim.

E o que é fato é que valeu vitória neste campeonato. Portugal acaba por ser eliminado frente à campeã do mundo e se torna desculpável, de alguma forma, aquilo que foi a prestação portuguesa. Eu lembro-me que até, pelo menos até esta final, e acho que esta final não deverá ter mudado grande isso, que Portugal foi a equipa de todas as que defrontou a Espanha neste mundial, a que teve, pelo menos, mais gols esperados. Eu diria que isso também aconteceu num período do jogo em que Nuno Mendes esteve em campo.

O Inácio já entra. Só quero dizer aqui, porque eu acho que temos que dizer. É que Portugal anda sempre no universo da utopia, mesmo campeã antes de jogar, antes de cumprir já é campeã.

É mais campeã, às vezes, antes de cumprir do que propriamente quando cumpre.

Mas para ser campeão. Portanto, a utopia não vem mal ao mundo, a utopia é bonito, é fantástico. Precisa é que haja chão para a manter viva, em festa, mas com regras. E apetece-me dizer: "Ai, Jesus, esperamos por ti". Apetece-me dizer isso, porque dizer verdades não incomoda. Nós temos que ter cuidado com aquilo que se diz, porque nós falamos em tanta coisa, mas falamos muito de bola. Também nada tenho contra se falar de bola, mas quando se chega à verdade falar de futebol, é preciso também ter conteúdo para que isso aconteça.

É outra forma de falar.

E é verdade. É utopia, mas a verdadeira, digamos, razão para se ter utopia. Olha, ai, Jesus, algo que seja mais poético

Para fecharmos este relatório de jogo a duas vozes, o último deste mundial, que não terminou com a chegada da Seleção Nacional à final. Ainda assim, acompanhamos aqui os nossos vizinhos da Espanha, campeões do mundo. Fizeram um percurso inabalável, sobretudo desde a fase de grupos, e vamos por isso saber o que foi o melhor e o pior nesta final em que saiu coroada a melhor equipa. Talvez não tenha saído coroado um dos melhores jogadores da história do futebol, Lionel Messi.

Ainda há pouco estavas a perguntar de Portugal e que a Espanha criou dificuldades à Espanha. O problema de Portugal não é ter perdido com a Espanha, o problema de Portugal não foi termos sido eliminados pela Espanha. O problema de Portugal foram os jogos que realizou, que foram realmente paupérrimos em relação àquilo que eram as expectativas e em relação ao que era o valor dos nossos jogadores, que não houve equipa.

Parecia que estava o ambiente de cortar a faca.

Não houve equipa. Isso é que foi lamentável. Agora, em relação ao positivo.

Fomos buscar o espanhol careca errado. Se calhar, se tivéssemos ido buscar o De la Fuente, estávamos aqui noutra.

Deixa eu falar do positivo. O positivo, claramente, há aqui duas notas que é bastante importante. É a Espanha que ganha, e que ganha não é porque teve o Olmo ou porque teve o Laporte, ou porque teve o Lamine Yamal, ou porque teve qualquer jogador daqueles que marcam a diferença. A Espanha é campeã do mundo porque tem uma equipa, e uma grande equipa, diria eu, na verdadeira acepção da palavra. Uma equipa daquilo que é o rigor, uma equipa daquilo também que é a criatividade, uma equipa que é harmoniosa, uma equipa que luta quando não tem bola e uma equipa que não tem medo de atacar. Chama-se a isso uma equipa e aí estão os frutos, são campeões do mundo, por isso uma nota bastante positiva. A outra. Provavelmente hoje assistimos à despedida de um dos maiores talentos do mundo que eu já vi enquanto pessoa viva, embora no passado houvesse outros grandes jogadores que eu não vi, infelizmente. Eu também não posso durar 200 anos para me lembrar disso tudo. Não posso. Mas daquele que é da minha geração ou daquilo que eu vi, é realmente o Lionel Messi. É aquele que deixa pena de ver este jogador não dentro do palco, aquilo que ele de bom faz, que é jogar futebol. Estou a falar a nível da sua seleção, e não é da minha, é da seleção da Argentina, que é dele. Mas não deixa de tirar o chapéu àquilo que o Lionel Messi tanto deu ao futebol. Por isso, isto é o positivo. Se quiseres o negativo, depois eu dou-te.

Vamos ao negativo.

O negativo. Quando se te diz que o melhor jogador da Argentina é o Martínez, sabes quem é o Martínez? É o guarda-redes. Quando se diz que foi o melhor jogador do jogo.

Foi o que nós falámos aqui do Diogo Costa em vários jogos da seleção.

A Argentina foi realmente uma grande deceção nesta final. Diria que os argentinos também esperavam muito mais. Eu, que não sou argentino, esperava muito mais, mas entre este futebol e o futebol da Espanha, ainda bem, Espanha, que tu ganhaste.

Gabriel Alves, para fechar este relatório de jogo, não sei se queres começar pelo pior, pelo melhor. Deixo liberdade poética também aqui na escolha.

Eu estou de acordo com tudo o que o Augusto Inácio, subscrevo tudo, acabou de dizer. Eu acho que esta Espanha, é o que eu disse há pouco, ganha o Campeonato do Mundo e deixa um vínculo de futebol, um coletivo, uma capacidade de jogo, de gestão do seu treinador em relação aos futebolistas, grandes estrelas, em que nenhuma delas quis ser maior que a outra. Portanto, esse trabalho é um trabalho fantástico e que naturalmente diz como é que se ganham campeonatos, porque é assim: havia uma seleção, havia uma equipa, ganhou a equipa. Eu queria deixar aqui uma palavra antes de partir, porque neste relatório de jogo não fui campeão de nada, mas fui campeão, pelo menos da simpatia, da resiliência, da atitude. Vou falar de Cabo Verde. Acho que devemos falar, porque este Campeonato do Mundo teve língua portuguesa, portanto Portugal, teve o Brasil e teve Cabo Verde. Se Portugal e o Brasil foram duas decepções, e são duas decepções, Cabo Verde foi aquilo que pôde ser. Cabo Verde jogou com as duas nações que disputaram a final e não perdeu com nenhuma delas.

Pelo menos nos 90 minutos, acabou por perder com a Argentina, mas já em sete prolongamentos.

Exatamente. Cabo Verde, o sonho com a resiliência do humano, a divulgação de uma causa pátria com paixão. Um arquipélago que tem no futebol o seu El Dourado publicitário. Beleza oceânica, beleza humana de um país cuja diáspora é exemplar, respeitada, mais respeitada neste pós World Cup 26, este Campeonato do Mundo 26. O futebol selou a atitude e transpirou para o mundo o que é a sociedade cívica no futebol.

Eu subscrevo o que estás a dizer, Gabriel. Parabéns.

Para terminar.

Para terminar, alguma nota negativa, Gabriel? Ou não se justifica no final do mundial?

Uma nota só. Parabéns, Espanha.

En hora buena, crase para dizer. E eu muito obrigado e parabéns também ao Augusto Inácio e ao Gabriel Alves, que acabaram de completar conosco mais uma sessão de análise ao mundial. Relatório de jogo entre Espanha e Argentina. Venceram os espanhóis por uma bola a zero, num jogo que deu muito mais Espanha do que o resultado anuncia. A justiça também feita. Uma excelente prestação de Lionel Messi em mais um mundial, naquele que pode ter sido o último tango do astro argentino, que deu o banho a Lamine Yamal, há 19 anos, um banho, provavelmente, em que agora Messi vai refletir um pouco como um batismo que não devia ter acontecido. Augusto Inácio, Gabriel Alves, um grande abraço.

Um abraço.

E até à próxima.