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Espera aí, 46 L. Como estás? Tudo bem?

Tudo bem. Eu tinha de ir aos correios agora. Estava a enviar uns discos.

Estamos aqui à porta do teu estúdio, vamos entrar.

É isso mesmo.

Como é que é este espaço? Como é que criaste este espaço e por que está aqui?

Isto, na verdade, são várias paredes, não são só quatro, porque tem várias salas. E todas as paredes estão basicamente cheias de várias coisas, desde cartazes, vários instrumentos ou recordações de coisas que as pessoas me deram nalguns concertos. Tudo o que está relacionado com a música de Noiserv, eu vou acumulando aqui.

David, eu estou aqui a ver muitos teclados. Sabes quantos é que tens?

Não. Não sei, porque nunca contei, mas eu acho que são mesmo muitos. Eu normalmente costumo dizer 100 instrumentos, mas podem ser 70 ou podem ser 150.

E escolheu um para o aquecimento.

Este é muito pequenino, portanto não tem muita margem. Há umas notas que falham, porque este é muito de plástico.

Por esta hora, para David, como prefere ser chamado, o dia já vai longo, mas nem por isso diferente dos outros.

Acordei às 7h15/8h00. Eu acordo sempre cedo. De manhã ainda respondi uns e-mails, depois fui embalar uns discos, depois fui enviar os discos pelos correios. Mas o dia hoje foi assim. Normalmente, num dia de concerto normal, em que as coisas não estão montadas, de manhã é carregar o carro e ir para o sítio onde é o concerto, e depois é o dia todo na parte da montagem, do sound check, depois come-se às vezes com tempo, outras vezes sem tempo.

São quase 17h, David fecha o estúdio e vamos a pé até ao Teatro da Garagem.

Agora ainda é um bocadinho a pé.

E sempre que podes andas a pé ou de bicicleta?

Gosto sempre de andar em Lisboa ou a pé ou de bicicleta, sim.

De São Vicente ao Castelo, vai falando durante o caminho de rituais.

Gosto sempre de beber chá ou de cortar um bocado de gengibre, depois de comer um bocado. Há assim uma série de coisas que a pessoa vai fazendo. É aqui para baixo. Que a pessoa vai fazendo para achar que a voz fica mais limpa ou menos limpa, mas depois não sei se isso muda assim tanto, mas a pessoa acredita que sim, e isso já não é mau.

Também de superstições.

Tenho um bocadinho a cena de tocar sempre às riscas.

Por quê?

Não sei. Nos primeiros concertos, há muito tempo, não era assim, mas depois houve uma altura que a t-shirt mais nova que eu tinha era às riscas e nos três concertos a seguir usei sempre a mesma t-shirt. E depois fiquei um bocado com essa coisa, que aquilo dava sorte. E daí passaram 15 anos e tenho tocado sempre às riscas. E às vezes parece que se não tirar as riscas vai dar azar. Ontem como estava muito frio no teatro, tinha que estar com três camisolas e a de cima, que era uma de capuz, não tinha riscas. E eu pensei: "Se eu não tirar isto depressa, vai correr mal".

E correu mal ou não?

Não, porque tirei a camisola depressa.

E da playlist que ouviu esta manhã.

Hoje de manhã, quando tomei banho, estava a ouvir Sam The Kid. Depois o Valete disse-me umas coisas novas e parece que é só hip-hop, mas não é, mas foi porque calhou hoje.

Mas costumas ouvir música quando estás a tomar banho?

Isso costumo ouvir sempre.

E cantas no banho?

Não. Nunca tive a cena de cantar no banho. Já estão cansadas?

Não.

Já falta menos de metade.

Enquanto a subida não dá tréguas, David vai apontando para sítios que já conhece bem.

Este é o sítio da Feira da Ladra. Havia alturas que vinha sempre à Feira da Ladra. Tenho alguns instrumentos que comprei aqui. Às vezes, se a pessoa viesse às 6h, 7h da manhã, encontrava assim instrumentos engraçados.

Quinze minutos e dois quilómetros depois, David dá-nos, podemos dizer, uma boa notícia.

Olha, já chegamos. Olá. Somos aqui do concerto. Já estão. Boas. Como é que é? Boas.

Podemos entrar?

Pronto.

Depois de chegar, o plano é definir o alinhamento, verificar som e luzes, mas primeiro, o gengibre.

Já comeste gengibre assim? É bom. É muito forte.

É picante?

É bué. Mas desincha-me a garganta. Desculpa.

E o chá de Perpétuas Roxas.

Consegues me segurar aqui? Dá-me só a coisinha.

E agora, espera um bocadinho.

Sim, agora supostamente diz aí que tem que ficar, quer dizer, é o que diz ali no papel, cinco a 10 minutos assim.

Enquanto o Noiserv, ou David, bebe o chá, lá em cima no palco, Berto, técnico de iluminação, já testa o cenário e as luzes.

A primeira coisa que fazemos é sempre montar o cubo, que é a parte mais delicada do processo, e depois afinar as luzes e perceber se a programação feita em casa está condizente com o que está pensado.

Já no palco, os dois discutem o alinhamento da noite.

Esta tem aquele final acaba assim meio em explosão, estás a ver? Sim, podia ser para acabar. Sim, mas uma outra podia dar.

Mas preferia pôr aqui a Sad Story aqui e a outra aqui em baixo.

E a Time Dois tu punhas onde? Não sei se punha a Time Dois logo a seguir a esta ou se ponho depois da Sad Story.

Não, eu punha a 47, Sad Story, Time Dois.

Mas é a cena de acabar com a conhecida que é sempre mais chato.

São 16 instrumentos e dezenas de pedais. Primeiro testam-se as teclas. Depois a voz. A guitarra. O piano. E já no fim, o bombo.

Está bom. Então é só-- está tudo. Nós vamos jantar agora às 19h, não é? São 19h?

Estás pronto, David?

Estão nove graus lá fora. Depois do sound check e a uma hora do concerto, os três vestem os casacos e saem para jantar num tasco em frente, a Ritinha do Castelo.

Mas a senhora que fez a comida chama-se Rita. Não é Ritinha. Então é aqui.

Força.

Vocês entram também agora? Entram ou não?

Entramos. Já é a segunda vez que jantam aqui. No espaço, onde cabem apenas duas mesas, sentam-se naquela que fica junto à porta.

Não queria o peito de frango. Aquele de ontem era assim grelhado?

Sim.

E queria bifes de frango com dois ovos estrelados. Só bife de frango e os dois ovos. Pode ser?

Nem batatinha frita, nem nada? De graça. Está bem. Ok. Vou fazer.

Eu vou comer bacalhau.

O tempo é curto, mas há espaço para histórias inusitadas.

Fui tocar à Embaixada do Reino Unido, numa cena em representação da presença deles no Web Summit. Não era no Web Summit, mas era uma cena do dia da tecnologia. E na primeira música fiquei sem pilhas no teclado. Foi o máximo sem tecnologia, tendo em conta a situação em que eu estava a tocar. Isto não tem tanta piada, mas aconteceu. A vida das pilhas é como a vida de outra pessoa qualquer. Só tem que respeitar o final e até homenagear com uns minutos de silêncio. Isto aconteceu.

Faltam 10 minutos para subir ao palco. David desce ao camarim e faz os últimos preparativos para aquecer a voz. Primeiro, com uma sonda.

É só isto.

Depois.

É um bocado assim. Ni-na-no-nu. É basicamente só isto. E se eu vejo que está a sair direitinho, não preciso fazer mais.

E está pronto. Na sala oval, com dois varandins com grades brancas, David sobe a escada de madeira estreita por trás das cortinas pretas, pisa as tábuas no meio do breu para entrar em palco. Mas antes, queremos saber quais são os primeiros acordes.

O que eu tinha definido era começar com uma que se chama Palco do Tempo. É o palco do tempo, sem tempo a mais. São voltas às voltas, por querer sempre mais. É um verso atrás, um decorado que não deu. São curvas às retas, num final não desejo.

Nem só da música se faz um concerto de Noiser. O músico é adepto de momentos de descontração com o público. Quem diz descontração, diz umas boas gargalhadas.

Com esta camisola mal, mas normalmente estas que são assim. Esta não. Como foi a minha mãe que me deu, é dela. Deixo-a sempre de fora. Peço uma para o outro dia para a mãe não ver, mas ainda vou assim usar aqui. Fico cheio de comichões e com calor, mas não é calor. Eu posso estar com frio, mas agora estou de 20° a 12°.

E lá está ele, de calças de ganga, com uma camisola azul de malha, mas por dentro traz a t-shirt às riscas para dar sorte.

Eu acho que o poder dele de pegar em sons únicos e criar coisas ainda mais únicas é simplesmente incrível. E ele leva-nos a viajar completamente e é de outro mundo.

Eu nunca tinha ouvido muito dele e fiquei muito impressionado com todos os instrumentos que ele usa e os loops que ele faz em palco e as coisas que surgem organicamente. Gostei muito do concerto.

O espetáculo de cerca de uma hora faz uma retrospetiva de mais de 15 anos de carreira que estão representados em vários objetos à venda depois do concerto.

Tem 16 sons de bocadinhos de músicas minhas. A irmã a dizer Noiser quando tinha três anos.

Hã? Noiser.

Depois de uma ida aos correios, uma caminhada de 2 km e uma hora de concerto.

Eu acho que correu bem. Acho que sim.

Cansado?

Ligeiramente, sim, mas nada de especial, mas um bocadinho. Agora, felizmente, como toco também amanhã, não tenho que arrumar nada, portanto, é ir para casa.

Então até amanhã.

Até amanhã, sim. Goodbye.