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Qual é a relevância dos números deste ano, tendo em conta dados que a pandemia possa ter influenciado? Até porque a violência do namoro, pelo que é entendido, não abrange apenas a faixa etária mais jovem, acaba por ser transversal a todos os grupos.
Sim, fazendo uma nota prévia, namorar é uma atividade que é aconselhável, que é boa e que é obviamente transversal a todos os grupos etários. Obviamente, quando falamos de violência no namoro, falamos muito exclusivamente da faixa mais jovem, portanto, estamos a falar de rapazes e raparigas até aos 18 anos. Aquilo que os dados da PSP que saíram esta semana nos fazem pensar, apesar de até representarem ter havido um decréscimo, isto não quer dizer que a violência no namoro diminuiu. Não são dados que nos espantem. De facto, há aquilo que foi o ano de 2020, um ano muito marcado pelas questões do Covid-19, pela dificuldade das pessoas poderem pedir ajuda, portanto uma série de questões associadas a isso. Agora, aquilo que nos preocupa bastante é a cifra negra, ou seja, aqueles números, ou as pessoas, os casos, as situações que não chegam nem às polícias, nem às organizações de ajuda. Ou seja, é fundamental perceber bem, e isso é um trabalho que deve e irá ser feito, obviamente, perceber de que forma é que as instituições de apoio, as organizações de segurança, se devem adaptar para situações como aquelas que vivemos em 2020 e que ainda estamos a viver em 2021, porque não nos podemos esquecer que ainda estamos a viver um período de estado de emergência e de confinamento total da população.
Claro. Não digo que seja um problema, mas uma condição constante nestas questões, não só na violência no namoro, como também na violência generalizada, que a APAV trata. Ou seja, violência nos casamentos continua a ser um grande entrave, a dita, não é vergonha, mas o desconforto de abordar o problema, como referiu, e de o admitir, certo?
Sim, eu costumo lhe chamar a santíssima trindade da violência. Por um lado, a esperança, que é o acreditar que talvez amanhã mude. Portanto, a vítima dar mais uma oportunidade à pessoa agressora, sempre na esperança de que ela possa alterar, mudar a sua atitude. Depois, por outro lado, o medo. O medo de sair, o medo de confrontar, o medo das represálias, o medo do que pode acontecer, o medo de não ser capaz de prever o que vai acontecer. E depois, por outro lado, a culpa. Ou seja, a vítima, para tentar explicar e perceber o que lhe acontece na situação de vitimação, aquilo que vai fazendo, na maior parte das vezes, é que vai culpando-se a si mesma daquilo que acontece. Ou seja, vai arranjando em si desculpas para, se me permites expressar o pleonasmo, para desculpar as ações da pessoa agressora. Portanto, estes são muitas vezes os três obstáculos juntos, o chamado ciclo da violência, que se vai repetindo e que muitas vezes impedem as vítimas de denunciar e de quererem sair, tomarem a decisão de sair da relação violenta.