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Portugal está a partir de hoje em estado de emergência durante pelo menos duas semanas. Os portugueses devem obedecer ao recolher obrigatório durante a noite e também aos fins de semana, Aníbal.

Isto nos 121 concelhos com maior incidência da Covid-19. Durante a semana é proibida a circulação na via pública a partir das 11:00 da noite até às 05:00 da manhã. O mesmo acontece aos fins de semana, o recolher é obrigatório a partir da 13:00. Haverá exceções para estas medidas: deslocações a mercearias, supermercados ou farmácias, por exemplo, são permitidos. O mesmo não acontece com idas a espetáculos ou eventos culturais. Para analisar estas novas medidas de restrição, junta-se a nós Álvaro Covões, dono da produtora Everything Is New e um dos mais importantes empresários de cultura em Portugal. Antes de mais, bom dia Álvaro, obrigado por estar aqui conosco. Vamos analisar estas medidas. São medidas justas ou deviam de existir exceções também para o setor da cultura?

Oi, bom dia. Essa é uma pergunta muito difícil. A injustiça das medidas é que nos impede de trabalhar. E o setor da cultura não vive de subsídios, mas vive do seu trabalho. E, portanto, precisamos trabalhar, ter público ou ter visitantes, no caso de serem museus ou exposições. Agora, a outra questão é a questão sanitária. Nós, de facto, estamos a assistir a um quase colapso dos hospitais em termos de capacidade, e de facto isto é assustador. Portanto, aquilo que nós esperamos é que, em primeiro lugar, os portugueses de uma vez por todas assumam uma postura inteiramente responsável, porque isso depende tudo de nós. Isto basicamente depende de nós. Se nós tivermos comportamento e cumprimos as regras, muito mais facilmente vamos expulsar este vírus da nossa sociedade. Agora, isto é um antagonismo. É sempre difícil, para nós vai ser uma tragédia.

E essa tragédia, vocês tiveram tempo de se preparar? Ou seja, depois deste anúncio, destas medidas, houve tempo de preparação? Foram acompanhando também as notícias e houve alguma forma de se adaptarem nesses últimos dias?

Não, vamos ver uma coisa. O decreto de lei só foi publicado ontem ao final do dia. Nós só tomamos conhecimento ontem ao final do dia do rigor das medidas anunciadas e agora estamos nos a tentar adaptar. Há quem esteja a antecipar os espetáculos para as manhãs de sábado e domingo, outros espetáculos estão a ser adiados para quartas e quintas-feiras, quando é possível. E obviamente que as exposições e os museus não têm solução. É menos dois dias, praticamente. Portanto, para o setor vai ser uma catástrofe. Não é só restauração, não é só hotelaria, mas é também a cultura, aliás, o setor cultural. Acho que não podemos deixar de referir que o setor cultural é o setor que mais percas tem tido no mundo inteiro. Na semana passada, a Folha de São Paulo publicou um estudo sobre os setores da economia mais afetados e as atividades culturais em primeiro lugar, à frente da aviação, à frente da restauração e à frente da hotelaria. Ou seja, o nosso setor é o que mais tem sofrido com esta pandemia. E de facto, aquela pequena retoma que conseguimos a partir do dia 1 de junho, era um balão de oxigênio para alguns poderem trabalhar, infelizmente não chegava a todos. E agora essas últimas restrições, começámos com ter que terminar os espetáculos às 22:30 e agora, durante dois fins de semana, não podermos ter espetáculos durante a tarde e a noite de sábado e a tarde e a noite de domingo, isso de facto vai nos trazer ainda mais dificuldade.

Bom, perdemos a ligação com Álvaro Covões, o dono da Everything Is New, uma das principais promotoras de concertos em Portugal. Vamos tentar restabelecer a comunicação com o Álvaro Covões para retomar também esta conversa sobre o setor da cultura, que como o Álvaro Covões dizia, tem sido um dos mais afetados pela pandemia de Covid-19, um dos setores econômicos que mais perdas tem sofrido. De resto, o Álvaro Covões citava mesmo um artigo publicado há dias na Folha de São Paulo, um jornal de referência da imprensa brasileira, também mundial, que fazia as contas sobre os impactos da pandemia na economia. Everything Is New, que é uma das maiores promotoras de espetáculos em Portugal e que tem obviamente imensos concertos agendados para as próximas semanas e também para os próximos meses. Há já concertos, de resto, agendados também para o verão de 2021. Creio que a esta hora já é possível restabelecer o contacto telefónico com o Álvaro Covões. Álvaro.

Olá.

Perdemos a ligação. Estas coisas acontecem ao risco de fazer rádio em direto.

Pensei que já tínhamos atingido o horário de confinamento.

Ainda não, isso para já ainda não existe na rádio. Álvaro, estava a dar-nos conta dos impactos que estas medidas podem ter no setor da cultura, com o confinamento a partir da 13:00 nos próximos dois fins de semana. Eu tenho uma pergunta para lhe fazer. O Álvaro trabalha com muitos artistas estrangeiros. Há já concertos, eu dizia isso há pouco, há já muitos concertos agendados para o próximo ano. Tem recebido contacto de artistas estrangeiros a cancelar concertos?

Não, o que existe é por precaução, porque uma tour, obviamente os artistas estrangeiros que vêm a Portugal vêm integrados numa turnê e, portanto, há uma logística que tem que ser preparada com dois, três meses de antecedência. E portanto, aqueles que vão começar ou no final deste ano, ou início do ano, estão a estudar Empurrar, adiar mais para frente para terem a certeza que as coisas podem acontecer. Claro, isto é uma dificuldade imensa. De facto, os estrangeiros praticamente não têm trabalhado. Aliás, curiosamente os portugueses, mesmo assim, por exemplo, os fadistas, os artistas de fado, que são os artistas que trabalham mais no estrangeiro, mesmo assim ainda têm conseguido ir a alguns territórios e têm feito alguns trabalhos. Agora, o contrário não se tem verificado. Portanto, nós, ao contrário do cinema, em que o cinema oferece filmes portugueses e filmes internacionais, nós na cultura estamos limitados aos artistas portugueses para já e vamos ver durante quanto tempo. Temos que aguardar.

E essa retoma não se sabe ainda a data. De qualquer maneira, há uma ideia de que a cultura acabará sempre por ser a última a ter essa retoma. Essa é a ideia que vocês têm?

A cultura tem sido muito afetada. Infelizmente, a retoma a 1 de junho não foi acompanhada. Houve muitas autarquias que tiveram receio e não cumpriram o seu papel de apoiar o setor cultural. E, portanto, não apresentaram espetáculos, porque, na realidade, nós temos comprovado que ir a um espetáculo é seguro, porque as regras que foram estabelecidas pela Direção Geral de Saúde para a realização de espetáculos têm demonstrado que, de facto, é seguro ir a um espetáculo e as diversas organizações e salas de espetáculos e os museus têm comprovado também que não se pode facilitar no cumprimento e na aplicação dessas regras. E isso tem dado uma sensação de conforto ao público que vai a espetáculos, porque se sente efetivamente seguro e que sente que vale a pena ainda continuar a ir ao museu ou ir a uma exposição, ou ir a um teatro. Agora, é difícil quando todos os dias assistimos na televisão e nos restantes meios de comunicação social, um apelo a que as pessoas fiquem em casa e que não saiam de casa, mas que se forem a locais onde a segurança está garantida, que podem ir. Mas nós estamos a dizer às pessoas para ficar em casa, o que é que vai acontecer? Isto é bom é para os Netflix. Eu fiz uma análise muito interessante, porque a sociedade portuguesa andou ao menos nos últimos 15 dias a debater muito as eleições americanas. E de facto, até parece que alguma coisa ia mudar, ganhando um candidato ou outro no mundo, porque na realidade, as empresas americanas são as empresas que estão a ganhar mais com esta pandemia. Se nós formos a ver, nós temos que ficar em casa. E depois é os Netflix da vida, é as Apples, é as Googles, é os Facebooks, é os Instagrams, é a Uber. São empresas americanas, é uma coisa extraordinária.

Então se calhar está na altura dos empresários portugueses se unirem e criarem também uma versão portuguesa, não, Álvaro?

Sim, mas isso não é fácil. Nós sabemos que esse tipo de investimentos nessas infraestruturas são investimentos muito pesados e precisam de massa crítica. Nós somos um país muito pequeno, só temos 10 milhões de habitantes, ainda por cima com pouco poder de compra. Nosso poder de compra é dos mais baixos da Europa. Claro que nós somos resilientes e a nossa resiliência foi essa. Dia 1 de junho era possível abrir as salas de espetáculos e nós no dia 1 de junho estávamos já com espetáculos. Portanto, nós temos essa resiliência, mas de facto é muito difícil quando vemos que esta pandemia acaba por transferir os lucros, e é muito interessante ver quais são as empresas ou os setores de atividade que têm mais ganho com esta pandemia, e vemos que são exatamente as tecnológicas, onde os americanos são muito fortes.

Álvaro, cá em Portugal, vamos perder muito, teremos empresas a desaparecerem com a situação em que nós estamos nesta altura?

Sim, infelizmente, a nossa maior preocupação no setor é conseguir manter vivo o ecossistema até à retoma. Os apoios não têm sido muitos. Aliás, têm sido anunciados muitos apoios que acabam por não passar disso mesmo, de uma notícia. Para além dos apoios que foram oferecidos a todos os setores de atividade, como o layoff e o financiamento bancário, nada mais tem acontecido. E de facto, para uma atividade que tem uma carga de mão de obra intensiva, porque a cultura ao vivo, vive de pessoas. Nós nunca poderemos substituir os atores, os músicos, os técnicos, as empregas de casa, os seguranças por robôs. Nós vivemos de pessoas, nós somos uma indústria de trabalho humano intensivo e de facto estamos a ser muito castigados por esta crise e preocupa-nos. Há muitas empresas que este ano não faturaram nada e portanto estão muito condenadas a desaparecer. E isso vai ser muito mau para o país, porque eu lembro-me bem da crise de 2011, quando a troika chegou a Portugal. Nós estávamos com default, o Estado não tinha dinheiro e além do mais tínhamos um problema gravíssimo na balança de pagamentos, na balança de transações. É que importávamos muito mais do que exportávamos. Então o desafio e aquilo que foi necessário fazer foi, até na altura falava-se que não tínhamos um instrumento de desvalorização da moeda, então em alternativa a isso aumentou-se os impostos junto das empresas e dos trabalhadores. Para quê? Para lhes tirar poder de compra, para deixarem de poder comprar bens importados. Mas o grande desafio na altura foi: temos que desenvolver a nossa indústria e o nosso comércio e temos que exportar mais. Qual foi a primeira indústria E a única praticamente que respondeu positivamente foi o turismo, onde a cultura está muito interligada. E foi o turismo que permitiu que nós saíssemos da Troika mais cedo do que se esperava, porque de fato nós tínhamos as infraestruturas, tínhamos os conteúdos, que é aí que a cultura entra, e tínhamos, obviamente, este país fantástico e maravilhoso que, de repente, triplicou o número de visitantes e ajudou-nos a sair desta crise. Qual é o grande medo na atual pandemia? É que na altura nós tínhamos as infraestruturas, as empresas e as pessoas para darem resposta às necessidades e poder, de repente, passar de 10 milhões de visitantes para 27 milhões de visitantes. Só que se nós desaparecermos, o que vai ser? Porque nós somos o ecossistema que garante não só os espetáculos, mas garante também os grandes congressos, os grandes eventos corporativos. E se nós desaparecermos, se as nossas empresas desaparecerem, se a nossa mão de obra mudar de profissão, o que vai acontecer? Portugal não vai ter essa capacidade de resposta. E isso sim, devia ser uma grande preocupação, porque nós não somos só de entretenimento. Nós não existimos só para fazer sorrir. Nós somos fundamentais até mesmo para a saúde mental dos portugueses.

Álvaro Covões.

Os portugueses têm necessidade de ir a espetáculos para fazerem terapia de grupo.

E para se sentirem também realizados. Álvaro, só para termos uma ideia, nestes meses de pandemia, quantos espetáculos é que a Everything Is New cancelou?

Nós cancelamos muito poucos. Aliás, quem cancela, normalmente, são os artistas. Nós não gostamos de cancelar, mas adiamos muitos espetáculos, já é sem conta. Mas mesmo assim, independentemente disso, o que importa é a resiliência. Nós deixamos de ter artistas estrangeiros para vir a Portugal e tentamos fazer programações fortes com os artistas nacionais. E agora estamos a decorrer, juntamente com outra empresa, com a PEV Entertainment, em Lisboa e no Porto, estamos com o programa "Santa Casa Portugal ao Vivo", que este final de semana teve seis espetáculos e que para o próximo final de semana só vai poder acontecer na sexta-feira e estamos neste momento com as equipes a trabalharem para ver o que vamos fazer aos espetáculos anunciados para sábado e domingo. Vamos desviá-los para quintas-feiras, para quartas-feiras, mas não vamos desistir, porque é muito importante, porque cada vez que abrimos portas, estamos a alimentar esse ecossistema. As salas que vão trabalhar, as empresas de audiovisuais, a empresa de segurança, as empresas relacionadas com o apoio, por exemplo, o apoio médico, que está sempre presente também nos espetáculos de maior dimensão, os artistas, os técnicos. Nós não podemos parar e, portanto, não vamos parar. Só esperemos é que, e isso para nós é muito importante, e é bom deixar esse apelo. Vamos todos cumprir as regras para que daqui a 15 dias possamos finalmente ouvir boas notícias e possamos desconfinar mais e dar a possibilidade a quem precisa de trabalhar.

Muito bem, Álvaro Covões, muito obrigado por se ter juntado a esta emissão da Rádio Observador. Obrigado.

Muito obrigado também e bom trabalho para vocês.