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Deixem-me então perguntar sobre esta iniciativa Estrela Marroquina. O que eu vi na vossa página de Facebook é que não poderiam estar indiferentes a esta catástrofe e querem levar o valor arrecadado e distribuir pelas famílias de, vou tentar dizer o nome, Moulay Ibrahim, em Marraquexe, que ficaram sem casa e sem familiares. Expliquem-me como é que vai ser esta iniciativa. Vocês vão lá distribuir os bens que conseguirem arrecadar cá em Portugal?

Sim, nós fizemos esta iniciativa de pedir as doações, o máximo que pudermos, para o meu marido ir pessoalmente a Marraquexe, realmente a esse bairro que foi um dos mais afetados, transformar o dinheiro em bens essenciais e distribuir para quem de direito, para quem mais necessite.

E quanto dinheiro, se puder perguntar, conseguiram angariar até agora?

Confesso que menos do que estávamos à espera, mas ainda pensamos que pode ser que ainda consigamos mais. Até este momento, 470 €.

Ainda assim, é um valor que pode fazer a diferença para ajudar quem lá está. Qual é a sua relação com Marraquexe e como é que está a acompanhar as notícias de cá, de Portugal, do que está a acontecer no seu país natal?

Eu tenho um tio que mora em Marraquexe e eu estou com receio de como eles estão a passar aqueles momentos difíceis. Eu estou também a acompanhar um amigo meu que tem uma associação, que está a se deslocar há três dias para Moulay Ibrahim. Eu estou sempre a procurar as informações, para planear quando eu vou chegar a Marrocos, onde eu vou dar as doações que a gente vai receber aqui em Portugal.

E já têm isso planeado, quando é que vai para Marrocos?

Infelizmente, acabei agora de chegar, mas eu vou no dia 18, no máximo. Eu vou fazer um trabalho lá, depois acho que eu vou me deslocar a Moulay Ibrahim no dia 24. Se não for mais cedo, não vai ser mais tarde, é mesmo no dia 24 que eu vou lá.

E a ideia no dia 24 é trocar o dinheiro angariado cá em Portugal por bens alimentares e bens de necessidade para dar às pessoas.

Sim, infelizmente naquela zona onde passou o epicentro do sismo, é uma zona muito fria, há pessoas que já estiveram lá, é no meio do Atlas. A nossa ideia é trocar por bens, comida, vestidos, cobertores e tudo daquilo que pudermos, claro, do valor angariado. Claro que eu também, a Manuela e os integrantes da associação, nós vamos dar também do nosso dinheiro para ajudar as pessoas.

Presumo que seja difícil acompanhar as notícias que têm chegado daqui à distância. As notícias que têm chegado a Portugal do que se passa lá.

É aquele empoder de eu quero estar lá, a impotência, tanto eu, tanto a Manuela, queremos estar lá, mas infelizmente, devido ao nosso trabalho também daqui e o trabalho da Manuela, não podemos largar tudo e ir agora.

Mas essa é a vontade.

Se o sismo nos apanhou quando a gente estava lá, com certeza que a gente não ia voltar até dar o nosso máximo para ajudar pessoas.

Deixa-me fazer aqui uma pergunta, perguntar a sua opinião sobre isto dos dois, porque nós temos visto, Marrocos já aceitou a ajuda internacional de quatro países, o Reino Unido, o Qatar, Espanha e os Emirados Árabes Unidos, mas há países como Portugal, França, que já disponibilizaram, que dizem que têm tudo pronto, equipas de resgate para enviar para o país, que não é não ter sido aceito, mas que Marrocos disse que ainda não precisa neste momento. Vocês veem aqui alguma hesitação por parte de Marrocos de aceitar toda a ajuda possível para tentar remediar os danos que foram causados ao país na sequência deste sismo?

Eu, sinceramente, agradeço a todos os países que mostraram a iniciativa de ajudar o meu país, mas eu acompanho todos os dias e eu vejo que a autoridade marroquina está a fazer o melhor dela. Estas são decisões políticas que eu não posso responder devido a que eu não sei muito, mas eu vejo que a autoridade marroquina está fazendo o seu melhor para resgatar as pessoas.

E eu acho também que no fundo, sob o meu ponto de vista, é o fato de eles também não quererem expor estrangeiros a alguns perigos, porque ninguém conhece melhor aquela zona do Atlas como os próprios locais. Há ali zonas montanhosas, estamos a falar de uma região de montanhas enormes, com brutas fendas e aquilo está muito destruído e eles também têm medo, de certa forma, de pôr outras equipas de resgate estrangeiras em perigo. Então acho que é por aí que eles estão a ser cautelosos na aceitação das ajudas exteriores.

E deixa-me perguntar onde é que vocês estavam, se se lembram, os dois, onde estavam, quando souberam do sismo sexta-feira à noite, como é que receberam essa notícia em primeira mão, se vos chegaram informações diretamente de Marrocos, se viram no telejornal, onde estavam e como é que reagiram?

O sismo foi às 23h11min, eu às 23h14min senti alguma coisa que não estava bem. Eu liguei à minha mãe e como você sabe que o epicentro é Moulay Ibrahim, mas até Espanha sentiram, até Lisboa sentiram o sismo. Eu falei com a minha mãe, ela está a dizer: "Olha, está aqui alguma coisa que não está bem, um sismo agora foi." Eu não pensei a gravidade. Porque às vezes vai aquele sismo, mas 4.2 no Richter. Mas depois de falar com ela, entrei no Google e vi que foi muito grave.

Mas pronto, as pessoas estavam mesmo em pânico, a minha sogra estava na rua, acho que ela só pegou o saco da medicação e foi pra rua, aliás, como todos os vizinhos ali do bairro, porque toda a gente começou a ficar muito ansiosa e começaram a ver que não era um simples tremor de terra como às vezes se faz sentir lá.

Em Marraquexe, a minha família também passou as três noites fora da casa. Ainda ontem estavam fora da casa, porque ontem houve uma réplica às 9h da manhã.