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Temos conosco agora, também ao telefone, a escritora Alice Vieira. Bom dia e obrigado por se juntar a esta emissão especial da Rádio Observador. Alice Vieira, a obra de António Lobo Antunes era também, ou é também um espelho daquilo que foi o nosso país.
Sim, eu era muito amiga do Lobo Antunes. Ele, que tinha um feitio um pouco complicado, também gostava muito de mim e sempre que era a Feira do Livro vinha se meter comigo, fazia muita publicidade. Eu quase nem acreditei quando ele ficou com a doença de Alzheimer, que é uma coisa horrorosa, ele já estava há vários tempos. Dantes dizia-se que só quem não dava muito trabalho ao cérebro é que ficava com Alzheimer, o que era mentira. É um grande escritor. E eu dizia-lhe muitas vezes, e era verdade, de todos os romances, uma das coisas que eu gostava muito também era das crônicas que ele escrevia. E ele dizia: "Isso é uma palernice que eu escrevo só pra ganhar dinheiro." E eu dizia assim: "Então continua escrevendo essas palernices", porque ele era um grande escritor. Os temas todos que ele escolhia, ele abordava sempre muito bem e eu acho que foi uma grande perda, mas estamos todos sendo esquivos. Mas realmente espero que lhe façam agora homenagens e coisas assim, porque ele merece tudo isso.
E de resto merece também por todo o impacto que tem a nível internacional. Eu estou aqui procurando algumas páginas de imprensa internacional, para além do "El País", também a "Folha de São Paulo", por exemplo, já a fazer referência à morte, isso também é um legado importante que ele deixa.
Claro, ele deixou um legado importante e um grande autor. Às vezes nós lemos romances... Não há nada que ele escrevesse que eu não gostasse e que eu não goste. Ele escrevia tudo diferente, mas tudo realmente muito bem. Mas para se ter conta que ele às vezes tinha o feitio complicado. E eu lembro uma vez, uma colega minha jornalista foi lhe fazer uma entrevista e ela fazia as perguntas e ele só: "Que pergunta tão parva." "O que você quer dizer com isso?" "Nada, só que a essas perguntas eu não respondo." Mas comigo não, ele sempre gostou muito de mim. As demais línguas diziam que ele gostava de mim porque eu não lhe fazia sombra. O que é certo realmente é que sempre, até o fim, e quando eu digo até o fim é ele estar lúcido, fomos sempre grandes amigos. Em todas as Feiras do Livro a gente encontrava-se, ele vinha para o pé de mim. E é uma grande perda, isso é verdade.