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Vários países estão a desaconselhar a toma da vacina da AstraZeneca e da Universidade de Oxford para pessoas com mais de 65 anos. Em Portugal, essa avaliação ainda está a ser feita pelo Infarmed, a Autoridade Nacional do Medicamento.

E junta-se agora a nós o professor João Manuel Brás Gonçalves, da Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa. Antes de mais, bom dia, obrigado por esta disponibilidade. Começava por lhe perguntar o que é que pode estar a motivar esta tomada de posição de vários países. É apenas falta de dados sobre eficácia em pessoas mais velhas ou já notam a informação de que existam mesmo riscos associados na toma da vacina por pessoas com mais de 65 anos?

Eu acho que o que estamos a ter são algumas cautelas do ponto de vista só da eficácia por parte de alguns países. Ou seja, para explicar um pouco mais, os estudos que foram feitos com esta vacina foram em torno de 11 mil, 12 mil doentes e poucas pessoas, cerca de 300, tinham mais de 65 anos. Esse número, alguns países consideram que é pequeno para se tirar algumas conclusões do ponto de vista da eficácia. Do ponto de vista da segurança, o que sabemos é que não existe qualquer tipo de problema com a administração desta vacina a pessoas com mais de 65 anos. Aliás, os efeitos secundários que se têm notado com esta vacina para pessoas com mais de 65 anos é menor do que as pessoas mais novas. Portanto, não é um problema de segurança, é apenas alguma ausência de dados que possam indicar a mesma eficácia que as pessoas mais novas. É só isso, é só uma questão de ausência de dados.

O regulador britânico considera que os novos dados da AstraZeneca mostram que existe essa eficácia da vacina em idosos. É uma informação que foi esta manhã avançada. Isto poderá fazer com que os países, que já vieram dizer que as pessoas com mais de 65 anos não iriam ser vacinadas com esta vacina, possam voltar atrás?

Eu acho que houve aqui algum fundamentalismo, na minha opinião, para não recomendar esta vacina a mais de 65 pessoas. Ou seja, nós já temos alguma informação, e esta informação que foi libertada hoje, já é uma informação muito boa, dizendo que as pessoas com mais de 65 anos, o nível de anticorpos que elas geram depois desta vacina é o mesmo nível de anticorpos das pessoas mais novas. E, portanto, as razões que levam a que se tenha, no fundo, não dado esta validação para pessoas mais de 65 anos, foi apenas baseados em dados de há um mês atrás, possivelmente. E, portanto, eu acho que é muito importante, e neste contexto agora de alguma falta de vacinas, eu acho que é muito importante que esses países possam reavaliar estes dados importantes que saíram e, na minha opinião, são dados muito válidos e dados que realmente mostram que esta vacina vai ter uma boa eficácia comparativa às pessoas mais novas. Portanto, eu acho que é apenas uma reavaliação de dados que é preciso. Eu acho que as pessoas devem ficar bastante seguras com esta vacina da AstraZeneca. É uma vacina que nós temos outro tipo de empresas que utilizam o mesmo tipo de estratégia, com bons resultados em pessoas com mais de 65 anos e não há razão científica para que nós não possamos realmente dizer que ela não vai ser eficaz.

João Manuel Brás Gonçalves, Portugal ainda está a avaliar esta vacina, ou seja, deveremos recebê-la no nosso país a partir da próxima terça-feira, pelo menos é essa a indicação que existe no plano de vacinação do COVID-19. Portugal, que quis, nesta primeira fase, aguardar pelo parecer da Agência Europeia de Medicamento, e agora tem esta comissão técnica que está a avaliar a questão para emitir esse parecer. Fica esta dúvida também: Portugal, na sua opinião e olhando e fazendo já esta antevisão, poderá dar um parecer positivo para a vacinação geral da população portuguesa com esta vacina, ou esta orientação devia ser uma orientação geral europeia?

A Comissão Europeia, quando aprovou esta vacina, no fundo, ela não restringiu os 65 anos. Disse que ela seria fundamental, poderia estar aprovada e não restringiu a utilização, e não deu claramente indicações para que os mais de 65 anos não fossem vacinados. Eu acho que há aqui claramente alguns países que estão a ter alguma rapidez de decisão. Neste momento, acho que não seria a melhor forma, realmente, de tomar essa decisão. Eu acho que, neste momento, Portugal está a avaliar a mesma informação. Tem mais informação neste momento do que os outros países que tiveram essa decisão. Eu acho que a decisão do Infarmed deve-se avaliar todos os dados possíveis. Dentro deste contexto, eu acho que isto é muito importante. E aliás, estas 300 mil Vacinas que vão chegar na semana que vem, há volta de 300 mil vacinas da AstraZeneca que vão chegar. Mesmo que não sejam utilizadas nas pessoas com mais de 65 anos, certamente que haverá muitas pessoas abaixo dos 65 anos que poderão utilizá-las. Portanto, eu não vejo claramente que haja aqui uma necessidade de nós empolarmos demasiado estes dados, porque eu tenho a certeza que daqui a um mês vamos todos olhar para trás e vamos ver que não houve problema nenhum.

E professor João Manuel Brás Gonçalves, consegue ajudar-nos a perceber se haverá diferenças reais entre esta solução da AstraZeneca em relação às que já estão a ser aplicadas, da Pfizer e da Moderna?

Nós sabemos e há aqui várias empresas que estão a utilizar o mesmo tipo de mecanismo de vacinas ou vetor de vacinas, como nós chamamos, e todos os dados das outras empresas que utilizam o mesmo tipo de estratégia, estão a ter resultados muito bons. Vemos, por exemplo, a vacina da Johnson & Johnson, a da Janssen. Vemos, por exemplo, a vacina do Sputnik, da Rússia, e todos os dados que utilizam a mesma estratégia da AstraZeneca têm bons resultados, excelentes resultados de proteção. Relativamente à questão da Pfizer, na minha opinião, são duas grandes vantagens. A primeira é o custo em si, ou seja, o custo da vacina da Pfizer é muito mais alto que o custo da vacina da AstraZeneca e, portanto, isso é uma vantagem. A segunda vantagem é a questão da logística. A logística de transporte de uma vacina da AstraZeneca não se compara, em termos de facilidade, com aquela da Pfizer, que necessita de congelação. E todos os dados de segurança de utilização em termos de efeitos secundários, parecem serem muito melhores para a AstraZeneca do que é para a Pfizer. Portanto, só há vantagens, penso eu, na utilização desta estratégia de adenovírus para as vacinas. E as pessoas devem claramente confiar que realmente temos aqui uma excelente estratégia de vacinação com estas técnicas de adenovírus.

O professor falou agora há pouco também da vacina russa, a Sputnik V, que foi desenvolvida pela Rússia, que foi recentemente divulgado também que tem uma eficácia superior a 91%. Ora, a Agência Europeia do Medicamento deve olhar agora também para esta solução com outros olhos, ou seja, haver uma rapidez também de aprovar esta vacina ou pode haver aqui algum atraso, até por questões políticas, digo eu.

Eu fico bastante triste quando me diz que pode haver algum atraso por questões políticas. Eu acho que neste momento nós temos que realmente equacionar esta vacina da Rússia, a Sputnik V. Os dados que estão a sair são dados que são muito confiáveis do ponto de vista científico. Os estudos clínicos são comparáveis em termos de qualidade, rigor científico e validade com aquilo que nós temos com a AstraZeneca e com a Janssen, Johnson & Johnson. E eu acho que claramente deveria haver uma submissão o mais rapidamente possível às autoridades europeias por parte do Instituto Gamaleya da Rússia, de modo que nós tivéssemos no segundo trimestre já esta vacina disponível. Eu acho que os dados são muito credíveis, são muito comparáveis e não há razão nenhuma para que politicamente nós não olhemos para ela e não a utilizemos.

Professor João Manuel Brás Gonçalves, queria também perceber aqui, já se tem falado um bocadinho, por assim dizer, entre portas e travessas, e também já há uma série de ensaios clínicos para verificar se é viável administrar vacinas diferentes, uma na primeira e outra na segunda toma. É possível que este método possa gerar níveis diferentes de imunidade?

Sim, teoricamente é verdade. Neste momento, há vários estudos, nomeadamente na Inglaterra, que está a utilizar a vacina da AstraZeneca juntamente com a vacina da Sputnik V, ou seja, primeiro a AstraZeneca e depois a vacina da Sputnik V de seguida. Isto é uma excelente estratégia. Nós temos várias ao longo dos anos, nós temos várias estratégias desse tipo, não é uma coisa totalmente inovadora. E sabemos que muitas vezes estas diferentes administrações vão dar uma rapidez e um aumento da imunidade muito superior. Por que nós precisamos desses estudos clínicos? Porque precisamos perceber se do ponto de vista da segurança, fundamentalmente, elas poderão ser utilizadas. E eu acho que esses dados, daqui a seis meses, poderão dar-nos já uma indicação. Por isso é que eu acho que é muito importante, e voltando àquilo que eu disse anteriormente do Sputnik V, era muito importante que daqui a seis meses nós tivéssemos tanto a vacina da AstraZeneca, como a Sputnik V, como a da Janssen, ao mesmo tempo já no mercado, para que pudéssemos ter aqui umas estratégias alternativas de vacinar mais pessoas. E daqui a seis meses já estamos em junho, julho, e portanto, é o momento exato para fazermos isso. Eu acho que teoricamente e na prática, a minha opinião é que isso vai resultar e será uma mais-valia para este processo de vacinação.

E continua-se a trabalhar bastante no desenvolvimento de novas soluções. Portugal também já está a trabalhar nesse desenvolvimento, nomeadamente uma empresa de biotecnologia da zona de Cantanhede. O professor tem alguns dados sobre esta vacina que está a ser desenvolvida em Portugal?

Eu acho que esta estratégia era muito importante e agora, se calhar, fazendo aqui um pequeno parêntesis, eu acho que esta é uma excelente oportunidade para que a indústria biofarmacêutica portuguesa se possa mostrar. E esta estratégia desta potencial vacina portuguesa tem uma grande mais-valia, que é a seguinte: isto é um vírus que entra pelo nosso epitélio respiratório, tanto superior como a nível dos pulmões, e nós precisamos de um anticorpo que lá existe especificamente nesses tecidos, que se chama IgA. Então só essas vacinas dadas por via nasal, como vai ser esta, é que têm um potencial enorme para proteger o nosso epitélio. Portanto, esta é uma estratégia de grande mais-valia, bastante diferenciadora de todas aquelas que nós temos hoje no mercado. E eu acho que se o governo realmente quiser ter aqui uma palavra a dizer, até no futuro, para proteção contra este e outros coronavírus, acho que devia olhar claramente para o que se está a fazer em Portugal neste aspecto. Aliás, na Faculdade de Farmácia a mesma coisa se está a desenvolver. Eu acho que há aqui uma oportunidade para nós valorizarmos muito aquilo que fazemos do ponto de vista de vacinas e que não está a ser, neste momento, bem valorizado.

João Manuel Brás Gonçalves é professor da Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa. Muito obrigado por ter aceitado o nosso convite para estarmos aqui à conversa acerca das vacinas que estão a ser utilizadas, nomeadamente também o desaconselhar da toma da vacina da AstraZeneca e da Universidade de Oxford por pessoas com mais de 65 anos. Neste momento, essa avaliação ainda está a ser feita pelo Infarmed em Portugal, esta autoridade nacional do medicamento. Mais uma vez, muito obrigado, João Manuel Brás Gonçalves.

Muito obrigado. Até já.