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Chefe Leonel Pereira, muito obrigado antes de mais pela sua disponibilidade em falar com a Rádio Observador. Perguntava-lhe o que é que o motivou a fazer este alerta no Instagram sobre os bancos de berbigão na Ria Formosa.

Eu sou um defensor da Ria Formosa há bastantes anos e o que eu tenho vindo a presenciar nos últimos dois anos, algo que jamais imaginei alguma vez na vida presenciar, que é a extinção total do berbigão. Que desde miúdo, bastava escavar um pouquinho na areia com pouca profundidade, um palmo, e tínhamos quase uma calçada de berbigão por baixo. Poderia imaginar outras espécies que desaparecessem, jamais o berbigão. E a falta de controle que tenho notado nos últimos dois, três anos, é absurda. A falta de fiscalização, mariscadores sem documentos, camiões de berbigão a partirem do Algarve para Espanha aos olhos de toda a gente e ninguém faz nada. Aquilo foi uma espécie de gritar: "Por favor, alguém me ajude nesta corrente a parar o que está a acontecer". Hoje em dia, calculo que se pensarmos num defeso a cinco anos, não seja suficiente para repor todo aquilo que o mal causado a esta espécie. E, por exemplo, o mexilhão que havia imenso na Ria Formosa, bastava descer a ponte velha antiga da praia de Faro e nos próprios pilares da ponte em 10 minutos enchíamos um balde de mexilhão. Hoje não existe um único mexilhão na Ria Formosa. Não é só o berbigão, há muito mais outras espécies que já foram e outras estão a vir também. Eu sou apaixonadíssimo pelo berbigão e foi o que me levou a pôr aquele post com um título bastante forte, mas é realmente aquilo que eu senti naquele momento, e foi isso que eu escrevi.

E que medidas é que, na sua opinião, devem ser tomadas com urgência?

Atualmente, a nível do berbigão, a única medida que pode ser tomada urgentemente é criar um período de defeso, mas como eu digo, terá que ser uma medida no mínimo a cinco anos, para ver depois os resultados e ir analisando época a época, estação a estação, ano a ano, ver a evolução positiva da espécie. Aquilo que foi um pouco feito, ou um controle muito mais cerrado, como foi feito com os cavalos-marinhos, com os pepinos-do-mar, com estas espécies que chegaram a estar praticamente extintas e graças aos investigadores e a equipas fortíssimas que têm estado a trabalhar nesta área, conseguiram repovoar essa população de cavalos-marinhos, ou uma parte, pelo menos, e dos pepinos-do-mar. Se não for feito algo desta natureza, alguém que tenha o poder de cima para baixo tomar alguma medida, eu não vejo outra que possa ser tomada.

Diga-me uma coisa, chef. Falou na necessidade de um defeso a cinco anos. Perguntava-lhe em relação, por exemplo, a outras medidas, pensando, uma vez que é chef, no seu setor da restauração, como é que se poderia contribuir ou sensibilizar para o que se está a passar e combater o que se está a passar na Ria Formosa?

Foi também o que eu pedi a todos os companheiros desta área. O que eu faço, e faço isso por vezes, a tentar ser exemplo para outros, sempre que eu me apercebo que uma espécie possa estar ameaçada, automaticamente publico e não compro essa espécie. Eu fiz uma campanha no ano passado muito forte sobre o carabineiro, com o título "Salvem o carabineiro", porque o carabineiro está em todos os restaurantes. Há pessoas que o respeitam, outras que não respeitam. E temos o pregado, outro exemplo. É óbvio que hoje existe pregado, mas 90% do pregado que se vende em Portugal é da aquacultura, porque o pregado selvagem existe em muito poucas quantidades. O que eu tenho feito e vou fazer com o berbigão: vou retirá-lo dos meus menus, não vou comprar mais berbigão durante este período. Se forem cinco anos que eu tenha que estar sem comprar berbigão, são cinco anos ou 10 anos, seja aquilo que for, eu vou respeitar e vou fazer a minha parte. O apelo que eu faço a todas as outras pessoas desta área que sejam ligadas à restauração, empresários, cozinheiros, todas as pessoas que façam compras, que tenham um bocadinho de cuidado ao momento a não comprar aquilo que lhes vendem à porta, além de correrem riscos, porque é produtos que não passa por faturação. Além disso, ainda estão a pactuar com toda esta situação que está a acontecer, com este crime a céu aberto. Esse seria o que eu deixava, em forma de alerta, para que todos os empresários desta área e cozinheiros façam boicote a essas pessoas que aparecem a vender conquilhas, amêijoas, mexilhão e berbigão à porta das casas e nas ruas.