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Hoje assinala-se o Dia Nacional do Psicólogo e para marcar este dia, a Ordem dos Psicólogos Portugueses vai organizar uma conferência sobre o tema "O Fator Humano na Transição Digital". O que é que podemos esperar desta conferência?
O que podemos esperar é um contributo para a discussão da importância da inteligência artificial e da transição digital que está em curso e que é, antes de mais, uma transição que as pessoas têm que fazer e, por isso, deve estar centrada precisamente na adaptação que as pessoas vão ter que fazer a isso. A psicologia estuda a inteligência, aliás, o conceito de inteligência nasce na própria psicologia e, portanto, desde há décadas que estuda este conceito. Há muita investigação aplicada e preparada para ser aplicada a esta área e o que pretendemos é, seja do ponto de vista dos impactos, seja do ponto de vista daquilo que é o desenvolvimento da própria tecnologia, dar a conhecer aquilo que são os contributos que a psicologia e os psicólogos podem e devem dar. Portanto, tanto preparar a profissão para isso, como também sensibilizar a sociedade, nomeadamente as empresas e o governo, para a necessidade de algumas ações que derivam daquilo que é a produção científica da nossa ciência, da psicologia.
E quando falamos dessa preparação, está também em cima da mesa falar da regulamentação das aplicações móveis. Pergunto-lhe que aplicações são estas e quais é que são realmente os seus perigos?
Estamos a falar de aplicações, por exemplo, na área da saúde mental, que cada vez mais pululam e são fáceis de podermos descarregar. E se é verdade que algumas poderão não fazer bem nem mal, outras poderão, ao dizer que fazem coisas, que ajudam as pessoas em coisas que, na verdade, não há evidência científica que essas mesmas aplicações possam ajudar, podem estar a fazer com que as pessoas não só agravem a sua situação, perdendo tempo importante para que procurem o apoio que de facto necessitam, como inclusivamente podem levar, uma vez que não estão estudadas de modo a podermos ter garantias disso, nem existem nenhumas garantias dadas por quaisquer entidades que levem a que nós tenhamos a certeza que essas aplicações tenham, por exemplo, cuidado com os dados que colocamos nelas. Dados que tenham que ver com aquilo que nós estamos a sentir ou com aquilo que estamos a pensar, por exemplo, e que não sabemos, muitas vezes não há a transparência necessária, não há as garantias de segurança dos dados que são colocados nessas aplicações, o que lhes pode acontecer com os riscos que naturalmente daí decorrem para a segurança e para a saúde das pessoas. E esse é só um exemplo da saúde mental, mas poderíamos falar de outras, como, por exemplo, aquelas que têm a ver com os hábitos de saúde. E também aí muita informação é recolhida pelas aplicações. É dada muitas vezes a ideia que com isso se vai conseguir alterar este ou aquele hábito. Há aplicações e aplicações e é preciso que se crie condições para que as pessoas possam escolher essas aplicações em maior segurança do que aquilo que é hoje possível.
E nos dias de hoje, como é que um utilizador pode então perceber se essa aplicação está, de facto, a ser algo proveitoso ou não? Acha que é uma distinção clara que é feita?
Não, não é. Hoje é muitíssimo difícil para a esmagadora maioria dos cidadãos conseguir fazê-lo. A Ordem dos Psicólogos lançou um documento há pouco tempo, mas é um documento que foi feito exatamente mais como proposta para que as entidades públicas na área da saúde possam desenvolver mecanismos que levem a algum tipo de reconhecimento, certificação, o que lhe queiramos vir a chamar e desenvolver, que possa ajudar na identificação daquilo que são características que esta ou aquela aplicação possa ter e que permita dar algumas garantias ao utilizador de que o poderá fazer em segurança. Mas ao dia de hoje, é muito difícil que um cidadão possa, de uma forma fácil, perceber se uma aplicação dá essas garantias ou não. Porque logo para começar, vou dar um exemplo: se nós sabemos que as matérias que têm que ver com a proteção dos dados do utilizador são muito relevantes, a verdade é que um utilizador terá dificuldade em distinguir facilmente se uma aplicação cumpre ou não cumpre com essas determinações em matéria de segurança dos dados. E, portanto, neste momento ainda é muito difícil para o utilizador normal de aplicações o poder fazer e é por isso mesmo que é importante que se tomem algumas medidas que ajudem na proteção do consumidor.
E existe já algumas linhas no sentido do que poderia ser então uma regulamentação vantajosa nestes casos? Ou ainda é abstrato do que deveria ser feito?
É como eu disse. É uma matéria que tem vindo a ser estudada e existem já características que são apontadas como algumas das características importantes para que essas aplicações deem algumas garantias. E isso necessita é que alguém faça uma verificação de se, por exemplo, a aplicação de fato é válida, no sentido que o objetivo que diz que tem, é depois aquilo que se obtém com a utilização da aplicação. Quando a aplicação diz que permite que a pessoa se sinta melhor em termos do seu estado de humor e, portanto, deixe de se sentir tão embaixo, tão triste, tão melancólica. Quando promete isto, que exista, de facto, uma evidência científica comprovada com aquela aplicação de que ela permite isso e em que condições é que permite isso. Outra questão é, como eu disse, a da transparência e da segurança relativamente à proteção dos dados. Quais são as garantias? Como é que esses dados estão protegidos? Como é que a pessoa tem a certeza que esses dados não vão ser transmitidos a terceiros? E, portanto, há um conjunto de características que já há investigação que permita utilizar como referência para a criação de uma categorização das aplicações como mais ou menos seguras para o utilizador nessa perspectiva. E, portanto, eu julgo que já existem condições desse ponto de vista, para que se trabalhe em alguma forma de esclarecimento da opinião pública para esse efeito. Nós, da nossa parte, a Ordem dos Psicólogos, apresentamos já um contributo às entidades públicas na área da saúde sobre esta matéria e estamos disponíveis para trabalhar em conjunto com outras entidades, de modo a garantir que isto possa acontecer dentro de algum tempo.
E falava-me há pouco também sobre o papel dos psicólogos, que de alguma forma também fica em risco. De que tipo de riscos é que estamos aqui a falar para a própria profissão dos psicólogos?
Eu não referi exatamente riscos da profissão que decorram destas aplicações.
E vantagens, por assim dizer.
Sim, riscos existem, mais no sentido da própria transição digital, como para muitas outras profissões. Os psicólogos e as psicólogas também têm que se adaptar, desenvolvendo as suas competências digitais, de modo a poderem fazer da inteligência artificial algo que seja uma oportunidade e uma possibilidade de melhorarem os serviços que prestam, por via, por exemplo, da eliminação de algumas tarefas rotineiras que tenham que desempenhar nas suas funções. Por via, por exemplo, da utilização da realidade virtual para alguns tipos de intervenção que podem disso beneficiar. E, portanto, o que os psicólogos têm que fazer é desenvolver as suas competências digitais de uma forma geral e as suas competências mais específicas na utilização de ferramentas, no conhecimento sobre como a inteligência artificial pode os ajudar no seu trabalho, fazendo da inteligência artificial uma vantagem e um benefício para a atividade e para os serviços que prestam junto das pessoas, e não como algo que possa passar a ser utilizado em substituição de algum tipo de atividade que os psicólogos desenvolvem. É preciso ver que os psicólogos, muito do trabalho que fazem deriva também, e tem como aspecto central, a relação com os outros, a relação com as pessoas, e um conjunto de competências que nós designamos de competências socioemocionais ou facilitadoras, que deriva também de uma utilização permanente daquilo que é esse relacionamento e essa dinâmica com os outros para a própria intervenção e, portanto, não é de fácil substituição pela inteligência artificial, uma vez que a inteligência artificial é hoje algo que nos pode ajudar muito no domínio das tarefas cognitivas, mas no domínio das emoções é algo que sabemos, e no domínio do intuitivo, que faz de nós o que somos enquanto humanos também, é algo que dificilmente está neste momento no horizonte que possa vir a ter qualquer tipo de desempenho e que possa substituir as pessoas nessa atividade. Mas há determinadas tarefas em que isso poderá vir a substituir ou a parecer ser uma substituição. E portanto, se as pessoas começarem a achar que vão a um ChatGPT, perguntam coisas sobre a sua A forma como se sentem e que esse diálogo com os chatbots poderá ser uma substituição àquilo que seria uma intervenção no que diz respeito à área de atividade dos psicólogos, mais no domínio clínico, isso pode constituir um risco, mas é um risco maior para as pessoas, na medida em que é certamente algo que não lhes dará a resposta que a maior parte das pessoas necessitará, embora possa ser útil, por exemplo, caso se melhorem as fontes de informação onde estes modelos de linguagem da inteligência artificial vão buscar a fonte para as suas respostas, pode ser útil para o esclarecimento de dúvidas e para a melhoria da literacia da população. Portanto, os riscos existem, mas depende muito daquilo que os profissionais e as próprias pessoas fazem com a utilização da inteligência artificial e não a inteligência artificial só por si. Essa não tem que ser um bicho-papão. Nós precisamos é de agir e fazer da inteligência artificial algo em nosso benefício. Isso é válido não só para os psicólogos, mas para as pessoas no geral. Para isso temos que ajudar a que todos possam ter a oportunidade de desenvolvimento de competências para que isso aconteça. Se isso não acontecer, estaremos a contribuir passiva ou ativamente para o aumento das desigualdades por via da diferenciação entre aqueles que serão capazes de rapidamente agarrar oportunidades que estas novas tecnologias permitem e aqueles que, não tendo competências para isso, possam ficar para trás. E é isso também que queremos alertar, por exemplo, hoje com os documentos que lançámos para os decisores políticos e para toda a população que esteja interessada em saber mais informação sobre aquilo que é hoje o ponto de situação em matéria de inteligência artificial, a partir daquilo que são os contributos que a psicologia e os psicólogos e psicólogas podem dar.
E os psicólogos de hoje em dia estão a receber formação suficiente dentro dessa matéria para saberem utilizar a inteligência artificial de forma proveitosa?
Estamos a começar a providenciar formação em parcerias, inclusivamente com as entidades que gerem os programas que estão a colocar no terreno essas ofertas através do financiamento do plano de recuperação e resiliência. Portanto, isso já começou a ser divulgado junto dos psicólogos e das psicólogas e esperamos que ao longo dos próximos meses e do próximo ano, possamos chegar a um maior número possível de profissionais, de modo a contribuir para que isso aconteça. E nesse aspeto, há uma coisa que posso assegurar: nós, em Portugal, estamos a trabalhar de forma pioneira relativamente a esta formação. Tanto é assim que hoje assinaremos também um protocolo com os nossos colegas psicólogos dos Estados Unidos, precisamente para uma cooperação no domínio do desenvolvimento da atividade dos psicólogos utilizando a inteligência artificial. E isso porque conseguimos, neste momento, estar a par e passe com aquilo que são os maiores desenvolvimentos das aplicações para o desenvolvimento da profissão, naquilo que nos compete, enquanto atribuições da nossa organização, da Ordem dos Psicólogos. Portanto, sim, essa formação está a começar a acontecer, mas precisamos de acelerar, porque a velocidade com que esta tecnologia se está a desenvolver e com que as tecnologias, muitas delas se desenvolvem, é pouco compatível com os tempos que por vezes possamos demorar para o desenvolvimento de alguns projetos.
E neste Dia do Psicólogo, torna-se também incontornável falar do atual estado do setor. Não posso deixar de lhe perguntar para quando uma diminuição no tempo de espera dos psicólogos.
Pois, eu também gostaria de deixar essa pergunta no ar, nomeadamente junto da tutela, do Ministério da Saúde. Nós temos vindo, como é sabido, a alertar há demasiado tempo, e há demasiado tempo que muito pouco se faz para que esse tempo reduza. Para esse tempo reduzir, é imprescindível que se aumente o número de recursos existentes, o número de psicólogos, nomeadamente nos centros de saúde, e isso teima em não acontecer. Tenho a expectativa, e espero que haja rapidamente um compromisso e comece a acontecer, que com o novo modelo de organização do Serviço Nacional de Saúde, e nomeadamente com o novo modelo de funcionamento que vai entrando agora em vigor das ULS, em conjunto com outras medidas que já foram anunciadas, nomeadamente alterações relativamente ao financiamento das unidades de saúde e as próprias prioridades do ponto de vista político, relativamente à forma como se encara a saúde do cidadão e, portanto, apostando mais na prevenção e na promoção da saúde, que efetivamente algumas promessas do passado que têm a ver com o crescimento do número de psicólogos no Serviço Nacional de Saúde possam finalmente começar a acontecer. Mas essa é uma pergunta que eu gostava que fosse muito em breve respondida pelo governo, e respondida com a colocação efetiva de um número de psicólogos bastante maior no sistema, coisa que até agora não tem acontecido.