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O discurso de João Lourenço na celebração dos 50 anos da independência de Angola fez apenas uma referência a Portugal para denunciar o colonialismo que oprimiu e escravizou os angolanos durante décadas. André Ventura considerou inaceitáveis estas declarações do presidente de Angola e anunciou que vai propor um voto de condenação no Parlamento. Pergunto-lhe, Diogo Pacheco de Amorim, se João Lourenço não tem o direito a ter uma opinião negativa sobre o processo de colonialização português.
João Lourenço tem o direito de dizer o que quiser e ter as opiniões que entender. Agora, as opiniões podem ser, na nossa opinião, certas ou erradas e principalmente, considero que é de uma deselegância a toda a prova fazê-lo diante do presidente da República Portuguesa, que tinham convidado para a celebração dos 50 anos. Portanto, ter o direito, tem. Ter o direito de ter as opiniões erradas, tem. Poderá ter o direito de ofender quem quiser, agora também entendemos que o presidente da República Portuguesa deveria ter manifestado claramente o seu desacordo, deveria ter pegado nele próprio e regressar a Portugal e não o fez. Houve, portanto, aqui dois comportamentos inaceitáveis: um, o do senhor presidente da República Popular de Angola, em dizer o que disse. Em segundo lugar, o do senhor presidente da República Portuguesa, em ter ouvido, calado e continuado como se nada fosse.
Pegando nessa sua afirmação, pergunto-lhe então se, neste caso, se André Ventura for eleito presidente da República no próximo ano, se só vai dialogar e estar presente nestas cerimônias institucionais com países que estejam alinhados com a posição portuguesa sobre o determinado tema, neste caso, dos 50 anos da independência de Angola.
Na minha opinião, se for eleito presidente da República, o senhor presidente da República poderá ir a todo lado. Ele, como presidente da República, irá. Agora, seguramente que se estivesse no lugar do senhor presidente da República, do Marcelo Rebelo de Sousa, eu tenho a certeza que ele diria na altura o que pensaria sobre essas afirmações e teria regressado a Portugal calmamente.
E isso teria repercussões em cerimônias futuras ou nas relações que os dois países têm, que como sabe, Portugal e Angola, apesar de todo o processo de colonização e também da guerra colonial, têm ainda hoje relações institucionais muito fortes na ligação dos dois países.
Eu suponho que essas relações institucionais são mais no sentido de mandarmos dinheiro pra Angola, perdoar dívidas à Angola, do que no sentido contrário. Ou seja, são relações que não favorecem, de forma nenhuma, o Estado português. Eu acho que quando há relações bilaterais, essas relações se devem basear no respeito mútuo. Se uma das partes não tem respeito pela outra, então não fazem qualquer sentido.
Ou seja, André Ventura, neste caso, faria um corte de relações com Angola se fosse presidente da República no momento em que João Lourenço tinha essas declarações?
Dependeria. Agora, eu acho que o doutor André Ventura teria manifestado o seu desacordo, teria regressado e depois logo se veria o que acontecia.
O Chega também estava representado nesta delegação portuguesa com Pedro Pinto, que estava em Angola. Não deveria ter sido ele também a manifestar o desagrado pelo discurso, já que o presidente Marcelo Rebelo de Sousa não o fez?
O deputado Pedro Pinto estava numa situação muito difícil. Estava, provavelmente, convidado. Estava convidado pelo governo da República Popular de Angola, mas estava também convidado pelo senhor presidente da República. Ou seja, a quem competia tomar uma decisão, neste caso, era o senhor presidente da República e não as pessoas que o acompanhavam de boa-fé. Parto do princípio, sei que o deputado Pedro Pinto, se soubesse o que se ia passar, desde logo não teria aceitado vir. Uma vez que foi e quem chefiava a delegação era o senhor presidente da República, a situação do deputado Pedro Pinto ficou complicada. Ou seja, teria que desrespeitar o senhor presidente da República. Eu confesso, não sei o que é que faria no lugar dele, mas sentir-me-ia numa posição muito delicada, seguramente.
Então também poderia não ter dito nada como fez Pedro Pinto ou poderia ter demonstrado o seu desagrado com estas declarações?
Eu confesso que julgo que teria manifestado claramente o meu desagrado. Eu teria feito, mas isso são decisões pessoais. Há uma questão talvez emocional minha. Eu teria feito, mas compreendo que o deputado Pedro Pinto não tenha feito, por respeito institucional ao senhor presidente da República Portuguesa, senhor doutor Marcelo Rebelo de Sousa. Agora, confesso que não sei o que faria. Provavelmente faria isso, provavelmente não faria, não sei. Agora, uma coisa seguramente: nunca mais aceitaria pessoalmente e como deputado, ir em qualquer outra delegação.
Deixe-me fazer uma comparação, porque quando o Presidente da República e a Assembleia da República receberam o presidente Lula do Brasil, o Chega mostrou-se bastante descontente e fez até um protesto na Assembleia da República nessa receção. André Ventura então teria uma atitude diferente enquanto presidente da República, mais institucional, tendo em conta que André Ventura já teceu várias críticas à conduta de Lula da Silva, porque isso também pode implicar um deteriorar das relações entre os dois países, se tivermos um chefe de Estado a fazer aquilo que, por exemplo, o Diogo Pacheco de Amorim diz que João Lourenço fez a Portugal.
Eu estou seguríssimo de que se Presidente da República, o doutor André Ventura, convidasse o presidente Lula da Silva para Portugal, nunca cometeria, obviamente, a descortesia de fazer o que fez o senhor presidente da República Popular de Angola. Nunca o faria. Ou convidava ou não convidava. Se o convidasse, trataria sempre como um convidado. O que se pode pôr e a pergunta que posso fazer é: convidaria ou não convidaria? Mas isso é outra questão e é muito difícil estar a prever. Além de que só o próprio é que pode responder, eu posso dar uma opinião.
Claro.
Mas de uma coisa estou seguro: se o convidasse, nunca teria a profunda descortesia de fazer o que foi feito pelo senhor presidente da República Popular de Angola.
Pergunto-lhe em que moldes vai avançar o voto de condenação do Chega no Parlamento, anunciado por André Ventura, e se espera que outras bancadas vos sigam e mesmo que isso melindre as relações institucionais entre os dois países.
Em moldes é que vai ser feito. Irá ser seguramente apresentado na segunda comissão. E em relação aos outros partidos, também é difícil estar a prever qual é a posição que irão tomar. E portanto, sobre isso também não quero falar. Eu posso falar até certo ponto pelo meu partido, não posso falar pelos outros partidos.
Acabo por lhe perguntar, faço-lhe uma última pergunta de Pacheco de Amorim, se o Chega considera que houve mais pontos positivos da colonização portuguesa nas antigas colônias ou províncias ultramarinas do que negativos.
Claramente, houve muito mais pontos positivos do que negativos. Basta ver o que lá foi deixado.
Sim, há pouco falou das infraestruturas.
Infraestruturas. A barragem de Cahora Bassa foi oferecida, paga já depois da independência. Portos, aeroportos, estradas, uma infinidade de infraestruturas. Como sabe, as infraestruturas são sempre coisas caríssimas e no seu conjunto deram uma possibilidade. Angola é potencialmente um dos países mais ricos do mundo. Agora, se está no estado em que está, foi porque, em primeiro lugar, não aproveitou o que lá foi deixado por nós. Em segundo lugar, não há um desenvolvimento cabal. Em terceiro lugar, e deve-se a elites corruptas que governavam e têm estado a governar esses países. E portanto, eu acho espantoso. A única desculpa que o presidente da República Popular de Angola pode usar para a total ausência de desenvolvimento e para a pobreza extrema em que a população da República Popular de Angola está. Isto é exatamente como em Portugal, a culpa é do Passos. Atiram as culpas para uma colonização que todas as contas feitas e tudo somado deixou muito mais do que aquilo que retirou. Essa é a minha opinião.
E é a opinião do Chega, sendo que é a posição do partido.
Seguramente que é a opinião do Chega, até porque é a opinião ainda ontem transmitida pelo senhor presidente do Chega, pelo doutor André Ventura. Portanto, é a nossa posição. Deixámos de muitíssimo mais do que aquilo que tirámos e as palavras do presidente da República Popular de Angola representam, no fundo, uma mera desculpa para a profunda pobreza em que a elite que governa e de que ele faz parte deixou Angola.