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António José Telo, queria começar por lhe perguntar qual é que pode ser o impacto das tropas norte-coreanas estarem na Rússia neste momento, a ajudarem a Rússia no conflito com a Ucrânia e se mais à frente estas tropas da Coreia do Norte podem mesmo avançar para território ucraniano e ajudar na frente de guerra na Ucrânia.
Antes de mais, a Coreia do Norte é um dos maiores, senão o maior, pelo menos no papel, exército do mundo. Tem 1.100 milhões de homens, portanto, 1,1 milhões de homens, numas Forças Armadas totais de 1,3 milhões. É, no papel e em termos numéricos, uma das forças militares mais significativas. A economia norte-coreana é muito fraca e a população passa muitas dificuldades, inclusive a maior parte dos anos há fome numa escala significativa. Portanto, a exportação de produtos militares e dos próprios militares é um dos grandes recursos do Estado norte-coreano. Os produtos, em termos de armamento, exporta essencialmente para o Irão, exporta para os proxies do Irão, exporta para o Médio Oriente, em termos das clientelas ligadas à Rússia, e exporta para a Rússia desde o fim do primeiro ano de guerra contra a Ucrânia. É uma das suas, senão a principal exportação, uma das suas principais exportações. Em termos numéricos, significa que facilmente a Coreia do Norte conseguiria colocar na Rússia um número muito significativo de militares, inclusive um número que pudesse quase igualar as forças russas neste momento, independentemente da sua eficácia. Para além disso, a Coreia do Norte domina algumas tecnologias militares, não em termos de uma tecnologia mais avançada, mas em termos de capacidades, nomeadamente em termos de drones e em termos de lança-foguetes e mísseis de médio alcance, que justamente são das coisas mais utilizadas pela Rússia na guerra da Ucrânia. Para além disso, um dos principais contributos da Coreia do Norte tem sido o fornecimento de munições de artilharia para a Rússia em quantidade muito significativa, tendo em conta que o consumo de artilharia é especialmente importante nesta guerra da Ucrânia e Rússia, o contributo norte-coreano é significativo. O envio de tropas regulares de um Estado é uma escalada muito importante na guerra da Ucrânia, é uma escalada que não pode passar em branco. Ou seja, é a primeira vez que vemos ser enviados por um Estado forças regulares para participar na guerra da Ucrânia. Até agora tínhamos muitos voluntários, principalmente do lado russo, mas também do lado ucraniano, mas eram voluntários, eram indivíduos que iam por decisão pessoal, eventualmente terem ou não o apoio dos seus Estados. Agora não, agora é uma escala diferente. Agora são forças regulares de um Estado, portanto, é sem dúvida um ato beligerante e, sobretudo, um ato beligerante feito em termos que podem ser muito significativos. É uma escalada de grande envergadura que terá, sem dúvida, que ter uma resposta, quer por parte da Ucrânia, quer por parte da NATO e do Ocidente em geral. Não só da NATO, mas também, por exemplo, por parte da Coreia do Sul, por parte do Japão, por parte dos vizinhos da Coreia do Norte, que se sentem ameaçados com as suas atitudes e nomeadamente com os seus programas, programas nucleares, programas de mísseis, etc.