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Temos agora ao telefone Miguel Castanho, é investigador do Instituto de Medicina Molecular. Muito bom dia e obrigada por estar connosco em direto. Esta norma da DGS parece-lhe clara e faz sentido?

Parece-me clara e faz sentido. Aliás, vem na linha do que muitos outros países já decidiram. Portanto, não é propriamente uma norma muito inovadora. E isto tem a ver com o facto de, e isso já era sabido há algum tempo, não é de agora, que nos testes que foram feitos, foram incluídas poucas pessoas nas faixas etárias mais avançadas, poucas pessoas além dos 55 anos. E, portanto, não há capacidade estatística para afirmar com certeza razoável ou com um grau razoável, que a vacina é eficaz para estas pessoas de maior idade. E sendo uma população muito crítica e de risco, obviamente que temos que pensar na melhor forma de fazer a vacinação, porque não basta vacinar, as pessoas têm que ficar efetivamente protegidas.

E mesmo assim, faz sentido continuarmos a utilizar esta vacina?

Faz sentido para as faixas etárias mais baixas. Agora, esta decisão, que é um pouco contraditória, de dizer que não se usa, mas usa-se caso não haja outra disponível, sabendo que neste momento estão disponíveis no mercado as vacinas da Pfizer e da Moderna, e que em breve se espera que apareça a vacina da Johnson & Johnson para ser utilizada. Sabendo também que há dificuldades evidentes de produção e de fornecimento da vacina de Oxford, desta mesma vacina, essa decisão parece um pouco contraditória. Parece um pouco divergente daquilo que é a realidade neste momento.

Miguel Castanho, já tinha dito que vários países estão a optar por não vacinar as pessoas mais velhas com esta vacina. A África do Sul fez mais, interrompeu o processo de vacinação e já não vai administrar esta vacina da AstraZeneca por alegada falta de eficácia, até por causa dessa variante da África do Sul. Isso pode acontecer também, podemos contar que na Europa essa decisão também seja tomada?

Depende da evolução dos acontecimentos e depende do aparecimento de novas variantes ou até do surgimento de algum episódio de alastrar da variante da África do Sul. Portanto, isso dependerá do que acontecer daqui para frente. De qualquer maneira, é um alerta muito sério de que o surgimento de novas variantes pode, de facto, comprometer os planos de vacinação tal como eles existem e obrigar à atualização das vacinas. Eu creio que seria sensato que as autoridades começassem a pensar em pedir aos fornecedores de vacinas que atualizem já as vacinas para as novas variantes que são conhecidas, de modo que lotes que venham a ser produzidos de novo para utilização futura, já sejam lotes atualizados para as variantes que existem, porque temos que estar sempre à frente do vírus. E tem sido subestimado sistematicamente o impacto que podem ter novas variantes. Primeiro, foi subestimado o aparecimento das novas variantes, dizendo que o vírus não mudava assim tanto, mas muda e está-se a ver. Depois, subestimou-se o impacto que poderiam ter as novas variantes sobre as vacinas já existentes, dizendo que aquela proteína, que é a proteína chave, era muito semelhante nas variantes e na versão original do vírus, o que é verdade, mas por vezes as pequenas alterações que existem são importantes porque são chave e mudam tudo. É como se eu chegasse ao seu carro e furasse os pneus. O carro fica quase igual. Do ponto de vista da estrutura, é o mesmo carro com pequeníssimas diferenças.

Mas já não me leva onde eu quero.

Exatamente, só que essas pequeníssimas diferenças transformam radicalmente a funcionalidade do carro.

E corremos este risco com o aparecimento de tantas variantes? Corremos o risco de estar a fazer um processo de vacinação que terá pouca utilidade prática e que não nos vai proteger deste novo coronavírus?

O risco corremos, mas se estivermos atentos e soubermos reagir a tempo, isto é, se conseguirmos antecipar aquilo que é a ação do vírus, estamos no bom caminho e estamos protegidos, porque as vacinas podem ser adaptadas. Agora, temos que ter a noção muito realista do perigo que enfrentamos em matéria de variabilidade do vírus.

Miguel Castanho.

Aquilo que tem que ser feito é uma detecção muito precoce destas novas variantes e a atualização das vacinas.