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O cinema e o setor da cultura em geral tentam sobreviver à pandemia, adaptar-se a esta nova realidade. E é o caso do Festival Doc Lisboa, que este ano se dividiu em vários momentos. Hoje arranca o Deslocações.
É o segundo take desta edição deste ano do Festival de Cinema Documental. A pandemia levou a que o Doc Lisboa repartisse a programação até março do próximo ano. Também os horários dos filmes foram alterados para cumprir as regras estabelecidas pelo governo. Apesar de todas as mudanças, o essencial permanece. O Doc continua a trazer a Lisboa uma seleção cuidada do que de melhor se faz em documentário a nível internacional. E neste segundo momento, leva-nos em Deslocações, como nos conta a Joana Carvalho Reis.
São 26 filmes ao longo de 12 sessões que querem levar os espectadores em diferentes viagens.
Temos aqui retratos de movimentos e transformações das mais diversas, quer ao nível da identidade pessoal, da identidade sexual ou viagens pela transformação do mundo, inclusive com filmes de pendor mais de reflexão sobre ecologia e a transformação do planeta. Portanto, são toda a espécie de deslocações.
Amaranta Abramovici, programadora do Doc Lisboa, conduz-nos nesta viagem. No sábado, na Culturgest, o destino é a região de Borgonha, em França.
"Field", de Étienne de Fonsc, em que dois irmãos agricultores interrogam a paisagem do campo no qual trabalham e no qual parece que sempre trabalharam e sempre trabalharão, mas ao mesmo tempo refletem sobre a transformação constante a que o mundo é sujeito e eventualmente até essas paisagens que nos parecem às vezes eternas serão sujeitas.
"Il faut réfléchir à ce que seront les humains."
Dos campos franceses para o Brasil e para o norte da Alemanha com "Virar Mar".
"Nós é que precisa da água. Esse barreira aí não resolve o problema."
Vemos os dramas da questão da água no planeta hoje em dia, com a ironia da falta de água no sertão brasileiro e o excesso da água no norte da Alemanha, numa espécie de diálogo impossível entre culturas, entre geografias, mas que ao mesmo tempo refletem os mesmos problemas, só que vividos às vezes de formas opostas.
"Pai, isso tem que virar um grande mar."
Filmes para ver na Culturgest este domingo à tarde. Ainda no domingo, viajamos por outras geografias, desta vez interiores. É a proposta da sessão Poética da Sobrevivência.
Onde se aborda das maneiras mais diversas e com as linguagens mais diversas e arrojadas de cinema, as questões da identidade sexual com Mouad Essalhi, um jovem realizador tunisino, ou "Trópico de Capricórnio", um filme já um pouco mais antigo, brasileiro, sobre transsexuais, mas também a identidade do corpo feminino em "Language Not Territory" de Michael Bohm.
A estreia do novo filme de Cláudia Varejão, "Amor Fati", fecha o Deslocações. Este take dois do Doc Lisboa, que Amaranta Abramovici lembra que é também um desafio.
A deslocação é também uma deslocação para o espectador, ainda mais marcada nos tempos de hoje, em que cada saída de casa é pesada e medida. Mas é uma deslocação no sentido de realmente atravessarmos tempos, o nosso próprio corpo, a nossa própria localização no mundo e viajarmos com o cineasta para outro sítio, para outro corpo, para outro tempo, eventualmente.
O convite está feito com a garantia de que a viagem é segura em tempos de pandemia.
E este Deslocações arranca hoje às oito da noite no Cinema Ideal em Lisboa, uma sessão dupla com os filmes "Ubundu" e ainda a "Fayza" da realizadora iugoslava Jelenna Poresa. Até à próxima quarta-feira há muitos filmes para ver. A programação está disponível em doclisboa.org.