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Aqui na Rádio Observador temos conosco Alberto Mota, presidente da direção da Federação Portuguesa de Dadores Benévolos de Sangue. Alberto, muito bom dia. As reservas de sangue estão em níveis críticos e a Federação lançou um comunicado de apelo à população. O que se passa com as reservas de sangue? Sabemos que há menos gente, segundo um relatório do Instituto Português do Sangue e Transplantação em novembro, Portugal registrou em 2024 uma nova redução de dadores de sangue, totalizando quase menos 10 mil em relação a 2017. Por que acha que isto está acontecendo e por que é tão urgente existirem mais dadores de sangue?
Bom dia. Isto é o que tem acontecido após o Covid. Nós temos reduzido muito o número de dadores presentes nas colheitas de sangue. Estamos falando de dadores regulares e mesmo até dadores de primeira vez. Entendemos que tudo se deve a algumas alterações de vida e de costumes dos próprios dadores. Deve-se ao envelhecimento da faixa etária. Nós tínhamos e temos uma faixa etária de dadores muito alta. Recordo que os dadores de sangue em Portugal só podem dar sangue até os 65 anos e por isso nós já há muitos anos começamos a alertar que a faixa etária dos nossos dadores estava muito acima da média que deveríamos estar. E por isso, entendemos que uma das medidas que o Estado deve criar rapidamente é a alteração desta situação da idade. Logo que na triagem clínica seja dado como pessoa saudável e que possa fazer a sua dádiva. Entendemos também que não podemos continuar sempre com este problema de termos sempre baixas de reserva de sangue, mas também temos notícias de cancelamentos de colheitas por falta de meios profissionais, nomeadamente por profissionais dos centros de sangue de transplante do Porto, de Coimbra e de Lisboa. E por isso o IPST como tem como missão de garantir todo o sangue que é necessário para os doentes, deve, a tutela, criar condições para que o IPST tenha mais profissionais de saúde. Também alertamos e já fizemos essa chamada de atenção que deve ser criado outros incentivos aos atuais e aos dadores de primeira vez. Hoje em Portugal, a dádiva de sangue é benévola, não é remunerada, não é dirigida, mas é uma dádiva que não tem qualquer incentivo. E entendemos que, para bem de todos, devemos ter alguns incentivos para os dadores atuais e para os futuros dadores. E com essas situações, recordo outra que é o alargamento do horário dos hospitais que colhem sangue. Nós temos hospitais, neste momento são 27 hospitais a colher sangue em Portugal. Nós temos hospitais a fechar às 15h. Se as pessoas não têm condições de sair, não estão autorizadas a sair do seu local de trabalho para poder vir dar sangue. E depois os hospitais a fechar às 15h e 16h, com certeza que as dádivas vão reduzindo. E por isso é que o apelo que nós fizemos há 15 dias, e temos feito junto dos grupos parlamentares e do Ministério da Saúde, era estes assuntos serem tratados o mais rapidamente possível. E quem tem direito, olhar para a dádiva de sangue como um bem comum para tratar destes doentes que estão nos hospitais.
Alberto, corrija-me se estiver errado, o Alberto no comunicado pede em específico para ser doado cada vez mais o sangue O+, certo? Portanto, esse tipo de sangue dá para doar para todos os positivos, no entanto, não dá para doar para todos os negativos, ao contrário, por exemplo, do O-, que é um dador universal, se não estou errado. Por que este tipo de sangue? É o que está mais em falta?
É o que está mais em falta, é o que mais nos preocupa, porque também é o que é mais necessário nos hospitais para tratar de muitos acidentados e de muitos doentes que estão neste momento nos hospitais. O O+ pode receber do O+ e do O-, mas pode dar para todos os positivos. Por isso, há outro grupo que é o B-, que também está embaixo, é verdade, mas não nos preocupa tanto. Não é um sangue tão necessitado como o O+, por isso. Mas todos os grupos são precisos, por isso o apelo que nós deixamos aqui é que todas as pessoas saudáveis com mais de 18 anos possam vir dar sangue, porque todos os grupos são precisos. Agora, nós alertamos no O+, porque ainda ontem com a saída da reserva que o IPST comunica a todos os cidadãos e às associações de dadores de sangue, através do seu portal www.dador.pt, verificamos que o O+ já há várias semanas que anda em níveis que nos preocupa. E quando estamos à porta de um inverno, estamos à porta das gripes, estamos à porta do frio, que podem trazer grandes problemas.
Já me explicou que isto é um assunto de grande urgência. Queria perguntar: nós não estamos nos níveis antes da pandemia, como tinha dito, mas o quão crítica realmente é que está esta situação? Porque eu gostava que deixasse esse apelo mais às pessoas e que explicasse um pouquinho melhor o quão crítico é que isto está, porque para fazer um comunicado destes é porque a situação não parece estar muito boa.
A nossa preocupação ontem ao sair este comunicado foi que verificamos essa reserva, como eu lhe digo, e está no site www.dador.pt, e também tivemos conhecimento de alguns hospitais, nomeadamente Évora, Braga, que também estão com problema de falta de sangue. Nós, enquanto federação, queremos só alertar para que não falte sangue em Portugal e não andarmos sempre à procura do prejuízo. Nós temos que ter a reserva mais estável Antes de acontecerem os acidentes, já não temos sangue para tratar os doentes em Portugal. Com certeza que nenhum doente em Portugal deixou de ser tratado até à data de hoje por falta de sangue. Não, temos uma reserva que nos garante sempre esse tratamento diariamente a essas pessoas, até à data de hoje. Mas se as coisas continuarem como estão a acontecer desde a pandemia, e eu recordo que isto não é só desde a pandemia. Nós desde 2010 nunca mais chegámos aos níveis de reserva de 2010, que foi o melhor ano que nós tivemos. Em 2011 retirou-se alguns incentivos ao dador de sangue. Alguns ou todos que haviam, que era o direito à taxa moderadora e o direito aos entalhes de dia de trabalho. Depois, recuperámos alguns números na altura da pandemia e nós internamente analisámos o porquê. Com certeza que as pessoas não podiam sair de casa, mas para fazer a sua dádiva podiam, tinham um incentivo. O próprio governo, na altura, fez um incentivo excecional, que foi para o dador sair de casa para poder ir dar sangue. E aí fomos recuperando alguns números. 2019, 2020, 2021. A partir de 2021 nunca mais recuperámos esses números. E tanto é que o relatório diz que em 2024 perdemos cerca de 10 mil dadores. Não tivemos mais um aumento de números de dadores de primeira vez. Isso é que nos preocupa enquanto federação, estamos a ver que estamos a envelhecer a nível da idade dos nossos dadores, estão a desaparecer os dadores regulares. Eu recordo que nós precisamos de cerca de 1000 a 1100 unidades de sangue todos os dias e por isso não podemos estar de braços cruzados à espera que isto esteja a acontecer diariamente e depois de três em três meses vir à comunicação pedir para as pessoas poderem vir à ação. E depois temos estes problemas de má gestão, nós temos de criar uma política que restabeleça o mais rapidamente possível no que toca à reserva de sangue. Se sabemos nós, e a tutela sabe, o Ministério da Saúde sabe e o IPST sabe que é preciso 1000 a 1100 unidades de sangue, têm que ser criadas condições para termos todos os dias cerca de 1600, 1700 pessoas disponíveis para dar sangue. E por isso é preciso mais profissionais, é preciso termos mais recolhas. Custa-me estar agora na comunicação social a pedir às pessoas para virem dar sangue e daqui a bocado ter pessoas a dizer: "Eu quero uma recolha de sangue, mas não me conseguem fazer porque não têm profissionais". Não há falta de dadores em Portugal. Também é bom que se diga que não se pode dizer que há falta de dadores. Ou também, como já se ouviu falar, que o movimento associativo está enfraquecido. Não, o movimento associativo está vivo. O que é preciso é que alguém da tutela crie condições para o movimento associativo trabalhar como sempre trabalhou. E tem trabalhado muito acima daquilo que são criadas as condições ao movimento associativo. E o movimento associativo, que são as associações, os grupos, os núcleos de dádiva de sangue, as empresas, as faculdades, garantem ao Instituto Português de Sangue cerca de 60% a 65% das dádivas. Por isso, é bom que se olhe para este movimento com olhos de ver. É bom que olhe para estes dadores com olhos de ver. E não se esteja sempre à espera que se venha aqui fazer um apelo e depois as pessoas aparecem todas hoje a correr, toda a gente vem dar sangue e depois ainda temos nós que dar a cara, dizer: "Olhe, não pode dar sangue mais hoje porque não temos tanto material". Não pode acontecer isto, tem que haver uma estratégia diferente, e é isso que eu ando a apelar há muitos anos já, tem que haver uma estratégia do próprio Instituto e do próprio Ministério da Saúde para a dádiva de sangue. E acho que está na altura própria da senhora ministra, do senhor secretário de Estado, do Instituto Português de Sangue sentar a federação como representante das suas associadas e lhes pedir o que nós entendemos que deve haver. É bom ter hospitais a fechar às 15h? São os hospitais que precisam de sangue para tratar os seus doentes. Não é o IPST, não são as associações. Por isso não podemos compreender como é que se pode fechar às 15h ou às 16h. Eu estou a falar nas grandes cidades, em Lisboa, nomeadamente. Nós não podemos consentir isto. É este grande apelo que eu deixo à tutela e também aproveitando o vosso momento, que deixo aos dadores, que com as dificuldades que vão surgindo, possam aparecer para fazer a sua dádiva o mais urgente possível.
Aqui Alberto Mota, presidente da direção da Federação Portuguesa de Dadores Benévolos de Sangue, a dar aqui este apelo não só à tutela como também a toda a população para que seja dado mais sangue e para que se criem melhores condições também para que seja dado e que seja retirado sangue também da população. Muito obrigado, Alberto. Obrigado por este momento. Agradeço imenso. Obrigado.
Obrigado