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O Cinema Ideal, em Lisboa, acolhe a partir de hoje mais uma edição do Doc Lisboa, uma oportunidade para os amantes do cinema do documentário revisitarem alguns dos principais filmes que foram exibidos durante a edição do ano passado do Doc. É nossa convidada a esta hora, Joana Sousa, uma das organizadoras do festival. Joana, muito boa tarde. Bem-vinda à Rádio Observador.
Olá, boa tarde.
Joana, quantos filmes vamos poder ver no Ideal ao longo dos próximos dias? E já agora, como é que foi feita a escolha deste cartaz?
Vamos poder ver oito filmes. São sete dias, mas são oito filmes porque hoje é uma sessão dupla. Vamos começar com o "Story from Africa" do Billy Wood Berry e "Sonhámos um País", do Canedo de Sousa e da Isilda Almeronha. E estes filmes, como disseram, são filmes que nós estamos a revisitar da edição passada. São filmes que nós escolhemos porque pensámos importante voltar a falar sobre eles e mostrá-los num contexto diferente. Este projeto todo que nós temos, o Seth Doc, com o Cinema Ideal, é um projeto que visa exatamente acompanhar filmes que muitas vezes poderiam não chegar a uma distribuição comercial. E assim nós damos um espaço para voltarmos a ver, voltar a falar. E são filmes que nós escolhemos porque trabalham várias temáticas, várias abordagens, várias linguagens. E sim, é uma revisitar a programação do festival do ano passado.
Há algum tema que sirva de chapéu aos documentários escolhidos?
Nós trabalhamos vários temas. O Seth Doc é um programa também que nós queremos que trabalhe os mais temas variados. A sessão de hoje, por exemplo, extremamente contemporânea e extremamente importante de ser vista, principalmente com o contexto atual, é muito sobre a relação de Portugal com África, tanto do ponto de vista das narrativas que foram sendo trabalhadas do ponto de vista colonialista, mas também depois, com o filme do "Sonhámos um País" do Canedo de Sousa, é um acompanhamento depois dos movimentos de revolução e os movimentos em Moçambique, já depois da presença portuguesa e como é que eles evoluíram. Mas depois os outros filmes, temos desde filmes que trabalham o fazer cinema, filmes que trabalham como é que uma pessoa constrói a sua própria narrativa pessoal, como o "This Film Is About Me". Temos filmes que trabalham questões políticas também, como o "Santhiki Sonata", que foi o filme que ganhou o prêmio de melhor filme da competição internacional do ano passado do Doc Lisboa, que trabalha sobre a ditadura, a junta militar na Tailândia. Mas depois temos filmes também que falam sobre, por exemplo, "A Verdade Interior," que a Sofia Brita, a realizadora, trabalhou com o realizador James Benning, e é sobre fazer cinema, sobre comunicar, sobre quebrar as barreiras da língua. E fechamos com o filme de verão, que é o José Fati, que acompanhou um grupo de jovens da favela brasileira. É literalmente um filme de verão. Nós escolhemos para acabar com ele porque é uma explosão de energia e é uma maneira de vermos como é que as pessoas com muito pouco conseguem criar o seu mundo e ultrapassar qualquer limitação.
Joana, o Doc já nos habituou ao longo dos anos, de facto, a também programar filmes que de alguma forma estão ligados à atualidade, a temas que marcam também a atualidade social, política. Aqui vão ser exibidos no Ideal filmes que são da edição do ano passado. Imaginamos, por exemplo, que no próximo ano, vários dos filmes do Doc, na próxima edição, possam já olhar, por exemplo, para temas da pandemia, que marcaram tanto este último ano?
Sim, nós inclusivamente, agora estamos no processo todo de construir a programação e inclusivamente já recebemos várias propostas de filmes que já trabalham esses temas. O cinema hoje em dia é feito de maneira às vezes bastante rápida, outras vezes não, mas há filmes que já começam a trabalhar esses temas, tanto do ponto de vista mais pessoal, como da própria relação de uma pessoa individual com a quarentena e o peso disso, como questões mais macro, como mesmo questões financeiras, políticas e as consequências sociais, por exemplo, em países afetados de uma maneira diferente, como os Estados Unidos, o Brasil. Portanto, estamos permeáveis a filmes que trabalhem isso, mas o Doc Lisboa vai trabalhar vários temas, mas sempre tendo em atenção o que se passa hoje em dia e o que é importante trabalhar hoje.
Joana, aqui uma outra questão que te queria fazer: já que olhaste alguns dos filmes e mesmo esta sessão de abertura deste ciclo no Ideal do Doc. Mas como é que eu arranjo bilhete e quais são as novas questões de sala e organização de sala, tendo em conta o contexto ainda de estado de calamidade no país? Foi preciso aqui alguma adaptação e que medidas é que estão previstas nestas sessões de cinema?
Sim, o Cinema Ideal, obviamente, preparou-se para essa situação. As sessões acontecem sempre às 21h30 e é recomendado que as pessoas façam uma reserva através do número do Cinema Ideal, que é encontrado no site, na página do Facebook deles. Também podem chegar lá e comprar o bilhete, mas como por causa do distanciamento social, há certos lugares que ficam cativos e que não podem ser ocupados Mas de qualquer maneira, o Cinema Ideal tomou todas as medidas. É seguro ir ao cinema, é importante ir ao cinema, com todas as medidas, com máscara, com cuidado, fazer a reserva. Mas o Cinema Ideal está aberto e recebe as pessoas da melhor maneira e com todas as seguranças e as medidas que foram tomadas.
Joana, já podemos olhar a edição de outubro do Doc Lisboa num formato diferente. Que formato é este e quais são as novidades que já podes adiantar a esta distância dessa edição do Doc em outubro?
O Doc Lisboa este ano vai acontecer com um formato um bocadinho diferente, porque nós não queríamos só reagir a esta época, que é um lugar com bastantes incertezas, mas queríamos tentar criar algo de novo, excepcionalmente, já que vivemos tempos tão excepcionais. E então o Doc Lisboa este ano vai acontecer um bocadinho mais estendido no tempo, vai começar em outubro, como é habitual, mas depois estende-se até março, sendo que são seis momentos, o primeiro momento é de 22 de outubro a 1 de novembro e depois nos meses seguintes vamos ocupar as salas de cinema habituais, o Cinema Ideal, o Turges, o São Jorge, durante uma semana por cada mês. E o Doc Lisboa vai trabalhar os temas que nós normalmente trabalhamos: questões políticas, sociais, econômicas. O primeiro momento, nós já lançamos essa dica, vamos ter uma retrospectiva sobre o cinema georgiano na Cinemateca Portuguesa. É uma retrospectiva bastante especial pra nós, porque o cinema georgiano não é muito trabalhado em Portugal, especialmente, e nós vamos acompanhar uma produção ao longo de 100 anos da história da Geórgia, desde 1920 até atualmente. E a Cinemateca vai receber cópias que raramente foram vistas fora da União Soviética, inclusive. E, portanto, pra nós é um momento superfeliz de poder receber esta retrospectiva cá.
Joana, resume só um pouco, no fecho desta conversa, então, este SetDoc, que arranca hoje no Cinema Ideal e vai até dia 1, não é?
Dia 1 de julho. O SetDoc é o momento para viajarmos um bocadinho pelo mundo, já que agora temos essas medidas que às vezes podem parecer demasiado sufocantes, mas convidamos toda a gente a vir ao Cinema Ideal e a partir por vários mundos, por várias pessoas e por várias figuras, com toda a segurança, e é importante voltarmos às salas e estarmos juntos.
A Story from Africa e Sonhamos um País são os dois filmes que abrem este ciclo, que acontece a partir de hoje no Cinema Ideal do Festival de Cinema Doc Lisboa. Minha convidada nos últimos minutos aqui na Rádio Observadora, Joana Sousa, uma das organizadoras do Doc. Joana, bom trabalho e obrigado pelos teus esclarecimentos.
Obrigada.