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Os dois presidentes executivos da Galp, a Maria João Carioca e o João Diogo Marques da Silva. Quando vi os contornos desta operação, a sensação com que eu fiquei, queria saber se vocês acham que é justa esta avaliação, de que a Galp, se este negócio for para frente, vai deixar de controlar ativos em Portugal e vai se focar mais na exploração de petróleo e gás. É assim?
Ana, deixa-me avançar e o João comentará. Eu acho que o objetivo com o qual nós fazemos esta transação não é um objetivo de sair de um negócio ou de prescindir de uma presença, de uma postura e de uma vontade estratégica de um negócio para nos concentrarmos apenas em outros que, é verdade, vão continuar a fazer parte do nosso portfólio. Nós já temos uma parte muito importante do valor da Galp. Aliás, hoje em dia, quando nós olhamos para esta transação e olhamos para aquilo que não faz parte do âmbito desta transação, aquilo que está para além da transação, são mais de 70% da nossa geração de caixa, do nosso valor. Esses 70%, é verdade, vão continuar a ser uma parte importante do valor da Galp. Com esta transação, nós não estamos a tentar sair.
Mas é uma consequência. Eu sei que não será o objetivo, mas não é a consequência, não será um carinho essa?
Não é a consequência. A consequência que nós vamos ter com esta transação é o criar condições para o negócio de downstream, em que nós vamos continuar presentes, desta feita com uma parceria e com uma participação num leque mais alargado de ativos. Vamos ter mais oportunidades de fazer esses ativos evoluir, vamos ter mais oportunidades de lhe dar sustentabilidade a prazo, vamos ter mais oportunidade de concretizar investimento. Nós não olhamos e não acreditamos que o resultado deste negócio seja, de todo, um focar ou um sair daquilo que é a visão de negócio que temos para estes ativos que temos em Portugal, é um encontrar caminhos para que essa visão de negócio possa ser concretizada e tenha sustentabilidade a futuro.
Esta operação resultou de uma estratégia ativa da Galp, que estava à procura de parceiros para esta atividade, ou isto foi uma oportunidade que surgiu da parte do comprador, da Moeve, e esta parceria, tal como vocês anunciaram, só faz sentido com esta empresa?
Vamos lá ver. Desde logo, esta possível transação que estamos, nesta altura, a discutir, foi uma transação que acaba por ter sido já avaliada e conjecturada várias vezes, até por nós próprios, que somos muitas vezes confrontados com alternativas que permitam dar maior escala, dimensão e competitividade a todo o sistema que temos de downstream. É verdade que, neste caso concreto, há um alinhamento, e houve um alinhamento importante, que permitiu chegar a este ponto entre acionistas, na visão que temos para a descarbonização, nomeadamente, das refinarias, que é um processo bastante exigente e que implica, nesta altura, até do ponto de vista europeu, criar escala e dimensão que lhes dê sustentabilidade e longevidade a este tipo de ativos, num contexto que é muito desafiante, em que observamos várias refinarias a fechar. Por outro lado, no retalho, onde teremos, e voltando à primeira questão, controle partilhado, teremos uma posição paritária com a Moeve, passamos a ter um operador muito mais equilibrado, líder em Portugal, que já era, mas também um operador que vai ter liderança em termos de rede de estações de serviço com o principal operador espanhol, que é a Repsol. Passamos a ter 3500 posições de estações de serviço, passamos a ter um músculo para crescer em absolutamente diferenciador e também alargado àquilo que é o negócio de conveniência. Quando olhamos para os ativos de um lado e de outro, encontramos uma complementaridade nesses mesmos ativos, mas por outro lado, uma visão de futuro que nos permitiu encontrar uma solução.
Se esta negociação em concreto não chegar a acordo com este operador, não haverá negócio com outro operador. Quer dizer, pode sempre haver, mas à partida faz sentido porque há este encaixe entre os ativos das duas empresas?
Ana, eu acho que há uma diferença muito grande entre esta ser a única alternativa e esta ser a alternativa que neste momento faz mais sentido e tem toda a lógica. Nós estamos, neste momento, perante uma alternativa, que aliás, estamos agora a negociá-la, exatamente porque achamos que ela tem contornos e tem um potencial para transformarmos efetivamente na melhor solução possível para estes ativos. O que não quer dizer que se ela não se concretizar, se aquilo que nós acreditamos que podemos tirar do negócio, afinal, por algum motivo, não se concretizar, não tenhamos condições de continuar a explorar o negócio como estávamos a fazer até agora e tínhamos condições de sustentabilidade, planos de investimento e investimentos muito relevantes em curso, e condições para os sustentar. Também não quer dizer que, tendo esses investimentos em curso e tendo esses planos, não continuamos a olhar para o ativo numa lógica dinâmica, Ana. Nós estamos a olhar para estes ativos sempre numa perspectiva reconhecendo que eles têm necessidades de investimento, têm um benefício enorme de escala, temos uma transição energética em curso, e reconhecendo que nós estamos num contexto em que nós olhamos à nossa volta e olhamos para uma Europa que afirma uma necessidade de ganhar escala para as suas plataformas, ter uma presença industrial com significado, ter relevância. Isto é um desafio que, para nós, é visto em permanência. Nós estamos num setor em que estar parado não é inocente, não é uma hipótese. Nós vamos continuar à procura de soluções. Neste momento, temos uma muito boa solução em mãos.
Muito bem, a Galp não vai parar. E as marcas, como é que vão ficar? Vamos continuar a ter a marca Galp em Portugal?
Claro que sim. A marca Galp é um ativo fortíssimo e se estas entidades desaproveitassem a força, credibilidade, confiança que a marca Galp tem já de décadas de vida, isso era desaproveitar um ativo fundamental. Portanto, o que é que vai acontecer? Na plataforma de retail, as marcas vão se manter e, portanto, a marca Galp será a marca vigente em Portugal e as estações da Mueva em Portugal serão transformadas em estações Galp, em termos de marca. E o contrário acontecerá do lado espanhol, onde a marca Mueva tem, evidentemente, supremacia, apesar de ser uma marca bastante jovem, relativamente à presença da marca Galp. Portanto, as duas marcas vão continuar e vão prevalecer as marcas mais fortes em cada território.
Do desenho que foi anunciado o negócio, está aqui uma junção de ativos. Queria perceber se a Galp ou os seus acionistas vão receber algum pagamento na sequência desta operação, ainda que ele não esteja definido.
Não, neste momento, o que está em cima da mesa, e não é essa a lógica do negócio, portanto, estamos a falar apenas desta arquitetura em que os ativos da Mueva são trazidos para dentro destas duas empresas, e as empresas são joint ventures para as quais a Galp aporta também os ativos. E é essa a única configuração que está prevista para o negócio.
Mas há algum valor financeiro, valor de ativos, que nós possamos utilizar como referência para dizer: "Isto é uma operação de X billions"? Não sei.
Não.
Não. Neste momento, não.
Neste momento, não vamos comunicar isso, não é o momento. Nós estamos a comunicar o início de negociações sérias, comprometidas, com vista a um first transação. Quando a transação for encerrada, naturalmente, esse será o momento para falar dessa valorização.
Vemos que há aqui um equilíbrio na gestão da futura operação na área do retalho. Na área industrial, a Galp vai ficar com uma participação minoritária. Estando nós a falar aqui de um dos grandes ativos industriais que existem em Portugal, que é a refinaria de Sines, a Galp vai manter uma palavra decisiva na gestão deste ativo, apesar de ter uma participação minoritária?
É preciso acrescentar à palavra minoritária, significativa, porque qualquer participação acima de 20%, que é o caso, terá um conjunto de direitos que nos permitem assegurar decisões estratégicas e todas as decisões que possam, nesta altura, estar associadas aos investimentos em curso em Sines, se essa é a preocupação, estão asseguradas. Aliás, esses projetos seguem na dianteira, em termos de Península Ibérica, do percurso de descarbonização das refinarias, e será um exemplo muito importante para os projetos que vão nascer no Green Hydrogen Valley da Andaluzia e que podem beber e ser complementares àqueles que estamos a fazer em Sines, que se mantêm com uma parceria muito forte com a Mitsui e que são estrategicamente super-relevantes para esta JV que se está a criar. Portanto, nós só vemos um reforço daquilo que estamos a fazer em matéria de descarbonização e de investimentos em Sines, com esta dimensão acrescentada que estamos a criar.
Mas há aqui uma assimetria entre os ativos industriais que são somados, digamos assim.
Resulta pura e simplesmente-
Tem mais refinarias, não é, a Mueva?
E não só. Tem mais refinarias, tem o setor petroquímico, que é super-relevante. E portanto, esse é o resultado da dimensão relativa que os ativos têm de parte a parte.
Mas em termos de governance, como é que vamos assegurar aqui a gestão deste ativo estratégico para a Galp e para o país?
Eu acho que o João já deu a resposta, na prática, só sublinhando, uma participação de 20% é uma participação com relevância. É também uma participação que vai ter acoplada um conjunto de questões de governance que nós vamos articular. Portanto, para além da participação, existirá também uma definição acerca de que decisões é que poderão ter aqui um peso mais marcado de cada um dos parceiros. E isso é parte do trabalho que nós vamos fazer agora, mas teremos, obviamente, essa preocupação, apesar de 20% já ser uma participação que nos dá determinação estratégica.
Na linha disso que acabou de dizer, Sines é a única refinaria portuguesa. Existe uma lei muito pouco usada ou nunca usada em Portugal, de salvaguarda dos ativos estratégicos. Não sei se me sabem dizer, nesta altura do campeonato, se vão notificar o governo relativamente a esta operação, no sentido de perceber se pode haver aqui alguma oposição ou não por parte do governo português.
O governo foi já informado. Nós obviamente que vamos cumprir com todas as obrigações que existam, portanto, isso está completamente acautelado. Eu creio que o alinhamento que nós esperamos obter é um alinhamento que o importante é criar condições para o futuro e para o funcionamento do ativo. E, portanto, independentemente da estrutura acionista que está por detrás e que está a suportar o investimento no ativo, acredito que o existir uma melhoria das condições de continuidade do ativo futuro seja tido em consideração e seja um fator importante para que esta transação possa ser concretizada.
Já existem algumas contas que possam partilhar relativamente a sinergias desta operação?
Esse é um processo que está a iniciar nesta altura e que ainda é cedo para falar. Mas evidentemente, quando ganhamos escala, quando utilizamos as marcas mais fortes em cada um dos mercados Quando temos potenciais eficiências por unificar determinadas estruturas, há um conjunto de sinergias que são evidentes de onde elas surgem, mas não temos a condição de prestar nenhum valor nesta opção.
E neste momento também não pode dar nenhuma garantia relativamente a fecho de postos, porque é provável que haja sobreposições nos dois mercados ou eventuais despedimentos. Há alguma garantia que possam dar neste momento sobre isso?
Não, em relação aos postos, voltando à primeira questão sobre a oportunidade desta junção entre estes dois players, aquilo que nós podemos observar, e nós não sabemos exatamente, não podemos ter essa informação, mas o conjunto de estações de serviço, tanto em Portugal como em Espanha, não nos parece que possam configurar qualquer medida restritiva, desde logo do lado espanhol, mas também do lado português. E em termos de estações de serviço, não estamos minimamente a olhar.
Mas não antecipam que numa análise que será feita por a entidade da concorrência, e que eu até penso que será europeia e não as dos dois países. Não sei se já fizeram essa avaliação. Não acham que podem ter que ceder alguns ativos?
Nesta altura, não.
Nesta altura, não.
Mas faremos as comunicações necessárias e as autoridades farão a sua análise.
Só para clarificar aqui relativamente aos ativos, tinha aqui duas dúvidas, uma tinha a ver com a questão da participação da área logística, a participação na CLC. Não sei se isso está na área do retalho ou se está na área industrial. Não sei se me pode esclarecer.
Está na área industrial e como essa, as participações que sejam relativas às duas vertentes, industrial e retalho, serão transferidas para as novas JVs.
E a atividade de comercialização de eletricidade, porque penso que a Galp tem muito pouca e também de produção de energia renovável. Fica de fora desta operação?
A produção de energias renováveis fica de fora do perímetro da transação.
E a comercialização de eletricidade em Portugal?
Depende. A comercialização de eletricidade B2C fica fora do perímetro dessa transação.
O B2C é grossista, não é para grandes clientes, é isso?
Não. É retalhista.
Retalhista, ok.
Fica de fora da transação. A comercialização grossista fica dentro da transação.
Ou seja, aos grandes clientes, é isso?
Sim.
Clientes industriais. A lógica da nova empresa industrial é uma lógica de servir de forma integrada com todas as necessidades energéticas, os clientes que são, à partida, clientes das moléculas da refinaria ou dos biocombustíveis e das novas soluções. Com isso, queremos também servir aquilo que é a componente energética de eletrões, portanto, de eletricidade.
Mas a Galp mantém-se como um operador na área do gás, como pelo menos na área do trading, do aprovisionamento autónomo desta operação.
A esfera de atuação da Galp na área de trading é bastante mais ampla do que a Península Ibérica. E é nessa medida que a Galp tem que manter, seja no oil, seja no gás, seja na eletricidade, a sua atuação nos mercados internacionais de trading.
Mas, por exemplo, o trading de petróleo, à partida, a compra de petróleo será o novo grupo industrial que vai ficar com essa atividade.
Não, são duas áreas bem diferentes. Uma coisa é o trading de petróleo e que pode ter origem para trading, quer dizer, compra e venda de petróleo. E nós vamos manter a nossa atividade de exploração e produção de petróleo e, portanto, tendo essa atividade, temos necessariamente que manter a atividade de venda de petróleo. Outra coisa diferente é o abastecimento das unidades industriais na Península Ibérica, e esse abastecimento será assegurado no âmbito da JV Industrial. São coisas diferentes.
Têm algum calendário indicativo que possam dar relativamente a esta negociação?
Nós temos noção de que vamos agora iniciar um processo, é um processo que vai ainda passar por todas aquelas fases habituais de partilha de informação, partilha de informação essa que, aliás, vai ter que ser feita com tudo aquilo que são as cautelas e o rigor necessário ao fato que, na prática, estamos a falar de duas entidades que são concorrentes. Vamos fazer isto com todo o rigor e toda a confidencialidade necessária para que sejam cumpridos todos os requisitos que temos que cumprir. Dito isto, a nossa expectativa relativamente àquilo que é o trabalho que fica a cargo das duas empresas, tudo o que é due diligence, tudo o que é o pensamento acerca de quais são os business plans a futuro destas empresas, esse é um conjunto de trabalhos que nós acreditamos que até meados de 2026 estará concluído e estaremos, nessa altura, em condições de haver uma tomada de decisão, de ambas empresas poderem fazer, aí sim, a decisão final e a concretização dos termos do negócio. É importante terem atenção que mesmo concluída essa fase, para além dos meados de 2026, haverá ainda que conseguir um conjunto de autorizações e nomeadamente o clearance de concorrência a nível da Comissão Europeia, que esperamos que seja necessário obter. E isso é um conjunto de atividades que não têm timings que sejam passíveis de ser comprimidos, são conhecidos, mas não são inteiramente do nosso controle. Temos noção de que provavelmente isto é uma operação com um timing esperado que se vai prolongar para o final de 2026.
Só pra clarificar, vocês anunciaram as negociações, mas ainda não há nenhum tipo de acordo nem morando preliminares.
Existem aquilo que se designam por termos de referência, houve todo o trabalho que foi feito até aqui para nós chegarmos à conclusão que havia espaço para começarmos a aprofundar uma negociação. Há algum trabalho preliminar feito, mas esse trabalho é, neste momento, totalmente indicativo e apenas uma base de negociação, se quisermos, em cima da qual agora vamos, sim, ter que detalhar e ter que aprofundar.
E por que comunicaram ao mercado ainda nesta fase tão preliminar? Normalmente, estas operações quando aparecem, já há acordos, ainda que grandes compromissos.
Entendo. Nós somos uma empresa listada, não é? E portanto, dada a abrangência desta transação, nós estamos a falar de vários parques industriais, em várias geografias, vários negócios.
Era difícil manter o segredo, é isso.
Seria muito difícil manter a confidencialidade e nós não queríamos de maneira nenhuma que isto fosse conhecido sem nós podermos ter a oportunidade de explicar o que está aqui em causa e de sermos muito transparentes. A MWEB, não sendo listada, ainda assim entendeu esta nossa preocupação, partilhou desta preocupação e portanto, havendo acordo de ambos os parceiros, percebemos que esta era a abordagem mais transparente e mais responsável perante o mercado.