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Este é o Gabinete de Guerra das manhãs 360. A análise é do historiador Bruno Cardoso Reis. Olá, Bruno, bom dia, bem-vindo.
Olá, bom dia. Obrigado.
Olá, Bruno. Começamos pelo alerta da CIA que avisa Espanha, França e Itália de que a Rússia poderá estar a preparar ataques com drones de longo alcance, lançados a partir de navios da frota fantasma russa no Mediterrâneo. Bruno, perante este alerta, este aviso, qual deve ser já a resposta da NATO ou vamos esperar para ver?
A resposta tem de ser dos países individualmente. Só depois, eventualmente, haver um incidente e pelo que temos visto, mesmo quando é assim, não tem sido acionado o artigo quinto, porque são realmente, por regra, ataques que estão abaixo do limiar de um ataque armado claro, que seja também fácil de atribuir. Portanto, à partida, o que temos de pensar é que têm de ser os países a tratar disso. Eu, aliás, estou precisamente a terminar um texto exatamente em que chamava a atenção para isso, que os países do Mediterrâneo realmente do sul e em geral do sul, inclusive Portugal, são dos países em que tem havido menos incidentes desse tipo, também porque é mais difícil, eventualmente não são o principal alvo da Rússia, mas é muito perigoso ser complacente e ser aqui o alvo mais fraco. Infelizmente, parece que é possível que isso realmente seja assim.
E que resposta pode ser essa dos países, Bruno?
Significa que os países, inclusive Portugal, têm de preparar em termos de desenvolver sistemas antidrones, ter a certeza que até em termos legais não há dúvidas sobre o que fazer, que foi um problema que, por exemplo, se tem colocado em países como a Alemanha, que é: mas pode-se abater o drone, não pode, quem é que pode abater? Mesmo que o alvo seja, por exemplo, uma base militar, as forças dessa base podem abater o drone, em que condições, etc. É realmente um problema que não é exclusivo também da Europa do Sul ou que é difícil não apenas para estes países, porque vemos, por exemplo, os Estados Unidos estão a ter problemas a lidar com a ameaça dos drones, por exemplo, a partir do Irão, a Arábia Saudita a partir também do Irão e das suas milícias. Mas a verdade é que é uma ameaça crescente e, portanto, os países têm de desenvolver o mais depressa possível sistemas eficazes e, no entretanto, têm de começar a resolver também a forma melhor possível de responder a isso e evitar ter aqui zonas cinzentas, por exemplo, em termos de quem é que responde, quem é que pode responder, quem coordena a resposta e procurar perceber também, antecipar ameaças, perceber vulnerabilidades e tentar reduzi-las.
Entretanto, Bruno, ao mesmo tempo que isto acontece, os Estados Unidos convidaram Putin para a Cimeira do G20, em Miami, em dezembro. O regresso presencial de Putin a um G20 no Ocidente não acontece desde 2019. Bruno, receber o presidente russo em Miami não cria uma rutura diplomática brutal com os aliados europeus da NATO, que continuam a defender o julgamento de Putin por crimes de guerra?
Sim, mas não é propriamente de espantar, tendo em conta a postura de Donald Trump. Enfim, foi muito comentado agora o facto de Donald Trump ter ido receber o presidente chinês ao aeroporto. Realmente é uma coisa quase inédita, há muito poucos casos na história americana. O presidente Kennedy, por exemplo, recebeu o primeiro-ministro britânico, mas obviamente isso era uma homenagem a um velho amigo pessoal e também ao grande aliado histórico dos Estados Unidos. Os papas também já foram recebidos dessa forma, como grandes líderes morais globais, mas realmente países historicamente inimigos rivais declaradamente querem minar o peso e a influência dos Estados Unidos em nível global, isso não tem acontecido, mas aconteceu com Putin no Alasca e aconteceu agora com o Xi. E, portanto, claramente, Donald Trump pensa sobretudo em termos de poder, até tem uma clara fascinação com estes líderes autoritários, que não têm de prestar contas, não têm de ter imprensa a chateá-los com perguntas incômodas, etc. E, portanto, não me espanta realmente que isso seja assim. Isto também coloca aqui os Estados Unidos na posição, isto não é uma concessão à Rússia, a Rússia eventualmente é que pode fazer o favor de dizer que sim. Foi assim o teor da resposta do porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, iam pensar no assunto. Obviamente, não houve nenhuma consulta também, não se teve minimamente em conta a posição dos aliados europeus. Eu acho que realmente há que manter contatos com a Rússia, mas este tipo de coisas têm uma dimensão também simbólica importante e podem ser usadas como moeda de troca e não foi claramente o caso aqui, ou pelo menos não no sentido de procurar impor aqui qualquer tipo, por exemplo, de sinal de boa-fé da Rússia em relação às negociações na Ucrânia ou em relação a outros assuntos. É uma concessão que tem simplesmente a ver com esta obsessão do Donald Trump com as outras grandes potências, com ele manter boas relações com estes homens fortes de outras grandes potências. E portanto, desse ponto de vista, parece-me realmente uma opção, no mínimo, bastante questionável.
Sobre a guerra na Ucrânia, de que falavas, que mencionaste, o ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergey Lavrov, fechou a porta a qualquer trégua durante eventuais negociações e acusou a Europa de querer usar uma pausa para rearmar Kiev. Bruno, continuar a atacar as refinarias e o petróleo russo é a única alavanca real que resta a Zelensky para forçar Moscovo a sentar-se à mesa, mesmo que vá contra o pedido de Donald Trump?
Acho que é uma alavanca muito importante e realmente é extraordinário que Donald Trump, que está desesperado para arranjar desculpas para os efeitos destrutos da guerra que ele iniciou no Irão e que não tem nenhuma ideia como é que vai terminar, tenha inventado essa história. É evidente que há algum impacto destes ataques nas exportações russas e, portanto, nesse sentido, no mercado global, mas evidentemente, esse impacto é mínimo. Aqui o grande fator, e é fácil ver isso através dos fatos, ou seja, a grande mudança do preço do petróleo começa realmente com a guerra com o Irão e as grandes oscilações têm a ver com a evolução desse conflito. E não tem nada a ver com realmente os ataques ucranianos, mas portanto, o Zelensky encontrou aqui um alívio, um bode expiatório, mais uma vez à custa da Ucrânia e do lado mais fraco sobre o qual ele pode exercer maior pressão. Mas isso só incentiva a Rússia, no fundo, a continuar o conflito, tem este efeito, que é realmente se o Donald Trump quer apresentar aqui resultados em termos de mediação, é uma má ideia, é contraproducente. Mas enfim, tem essa utilidade, pelo menos de tentar convencer os mais fiéis a Trump de que há aqui uma forma de escapar às responsabilidades sobre estas tendências inflacionistas muito complicadas de gerir no mercado dos hidrocarbonetos, nomeadamente dos combustíveis.
Bruno Cardoso Reis, muito obrigada pela tua análise. Bom final de semana, Bruno.
Bom dia, obrigado.
Obrigada.