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À qual se junta também o Rui Pedro Antunes, editor de política do Observador. Boa noite, Rui Pedro. Estávamos aqui a falar acerca das várias pastas que tem em mãos a ministra da Administração Interna, os ministros da Administração Interna, que têm tido problemas neste Executivo do Luís Montenegro e no anterior, de comunicação. Já era um problema com a ministra anterior. O que o Governo aprendeu ou não com as escolhas que tem feito para esta, que é uma das pastas mais pesadas do Governo?
Comunicar é importante numa pasta como esta, principalmente porque lida com catástrofes naturais, sejam incêndios, sejam agora o exemplo das tempestades e também das cheias, que são uma consequência dessas mesmas tempestades. É verdade que com Margarida Blasco não funcionou, foi um dos ministérios que Luís Montenegro mexeu para esta nova legislatura, mas estava por demais evidente todo este desgaste da ministra. É verdade que Luís Montenegro não gosta de remodelar, ou seja, tenta sempre resistir ao máximo. Aliás, é uma coisa que ele aprendeu com António Costa, que durante o governo que foi apoiado pela geringonça, resistiu muito a afastar ministros e houve ministros em muitas dificuldades, por razões diversas, também da administração interna. É verdade que Constança Urbano de Sousa foi logo afastada a seguir aos incêndios, até por uma pressão presidencial, mas depois lembramo-nos todos que Mário Cabritas chegou a ser muito pressionado e nunca saiu. Isto só pra falar deste cargo. Eu aqui falava da ideia da resistência de Luís Montenegro a remodelar, que é um traço dele, porque ele tem o entendimento, e eu acho que é correto, de que muitas mexidas no Executivo criam uma imagem de fragilidade. Basta nos lembrar o que aconteceu no governo de maioria absoluta, que tinha um desgaste tão grande que foi de desgaste em desgaste, até depois o primeiro-ministro, em virtude de um caso judicial, não ter hipótese e ele próprio se ter demitido, ou pelo menos ter surgido essa situação. Quanto à ministra da Administração Interna, a informação que nós tínhamos e efetivamente já tínhamos escrito, era que esta remodelação ou próximas mudanças no governo certamente a iam atingir de alguma forma. Aqui há a ideia de que foi a própria a pedir a demissão, o que também não significa que o primeiro-ministro não a quisesse também a seu tempo demitir. Mas um pormenor que se destaca é que também se considera que para Luís Montenegro ter aceitado esta demissão é porque entende que a fase crítica de resposta às cheias e toda esta situação já passou, porque a ideia que vinha do governo, e nós demos conta disso, é que no meio da guerra não se mudam os generais e portanto, tinha que se esperar que passasse a situação mais crítica pra fazer mudanças na estrutura. É claro que estas críticas à ministra vieram de várias partes da sociedade. Ainda hoje tivemos, por exemplo, um artigo no jornal Público de um candidato presidencial derrotado, que o almirante Couve e Melo, também a criticar e a dizer que o primeiro-ministro tinha que afastar a ministra. Deixa-me só dar nota disto, Diana, porque sei que já estavas em direto, que por acaso estava o almirante na SIC e o pivô perguntou-lhe se ele estaria disponível para ser o próximo ministro da Administração Interna, uma vez que tinha feito todo um plano de resposta a crises nesse mesmo artigo do Público. O almirante Couve e Melo, o que é curioso, é que nunca disse rotundamente não. Também duvido que Luís Montenegro o quisesse convidar, mas isso nunca se sabe, que ele é muito surpreendente. Mas ele disse que não, que era ir pra vida privada, mas ficamos com este, pelo menos já sabemos que Luís Montenegro vai assumir ele, até arranjar um novo ministro, temporariamente, esta pasta. Também sabemos que, pelo menos, quem não vai ser, em princípio, Henrique Couve e Melo, já disse que não está muito pra aí virado, mesmo que acontecesse essa ideia de o governo o convidar, o que eu também duvido muito, tendo em conta até o que foi toda a batalha eleitoral entre este candidato e o candidato que Luís Montenegro apoiou. Portanto, agora a expectativa é esta.
Tem sido uma pasta complicada ao longo dos anos, não só nos executivos do PSD, mas também do PS. Vimos quando foi o tempo de Francisca Vanduno, é uma dificuldade que existe em encontrar alguém que esteja disponível para assumir uma pasta como esta.
Sim, é sempre uma pasta complicada, não há dúvidas disso. E podemos recuar a vários governos. Mesmo quem era visto como ministro da Administração Interna forte, nem sempre teve a vida facilitada. Aconteceu com António Costa, aconteceu, por exemplo, até com Dias Loureiro, que mesmo assim foi muito contestado em determinadas ações, nomeadamente o chamado "botinão da ponte", porque a administração interna, de fato, é uma área que não só tem as polícias, que é uma área de forças de segurança, e portanto, como é óbvio, sendo uma área de soberania do Estado, as pessoas estão especialmente atentas, como também tem toda esta resposta da proteção civil, que é tudo. Tudo aquilo que acontece, seja um desastre natural, seja qualquer tragédia, parte muito da responsabilidade que cai em cima desta pasta. E é preciso ter uma experiência política que claramente a ministra não tinha. Na verdade, as pessoas foram dizendo que ela era exímia do ponto de vista acadêmico e que quando foi Provedora de Justiça tinha uma certa sensibilidade para esse cargo, mas não se revelou uma boa ministra e também há ministros que conseguem compensar bem serem competentes do ponto de vista técnico, com as eventuais falhas que tenham como políticos. Claramente aqui as falhas como política de Maria Lúcia Amaral sobrepuseram-se àquilo que eram as suas competências técnicas.
Desculpa interromper-te. O currículo de Maria Lúcia Amaral acabou por jogar contra ela, sendo que era uma pessoa unânime, as referências eram inegáveis e depois como ministra, a capacidade de mostrar o seu trabalho fora do gabinete acabou por ficar aquém. Lembramos todos quando ouvimos os nomes dos ministros deste governo que a Maria Lúcia Amaral foi das mais elogiadas na altura.
Sim, foi de forma genérica e muito transversal, elogiada, porque havia essa expectativa, mas porque ninguém também conhecia esta vertente e esta necessidade. Logo ao início também se dizia muito, e nos incêndios disse que a ministra andava desaparecida. Não sei se em alguns momentos foi opção da ministra, se foi opção do próprio chefe de governo Luís Montenegro, mas o que é certo é que se comentava bastante em vários sectores o desaparecimento da ministra. O que é certo é que ela até podia ser discreta, e já houve outros ministros da Administração Interna que foram mais discretos e tiveram bons resultados, mas na verdade, quando teve que aparecer, apareceu de forma desastrada. Disse coisas como: "Não sei bem o que é que falhou." Protagonizou uma cena em que eu acho que Marcelo Rebelo de Sousa também teve responsabilidades no cartório, porque se atrasou, quero acreditar eu, de forma involuntária e não propositada, ao encontro com a ministra quando foi visitar Leiria e deixou a ministra ali pendurada a conversar com o presidente da Câmara de Leiria e a ministra não soube ter nem political skills, nem social skills para falar com o presidente da Câmara de Leiria, que estava na altura muito ainda transtornado, como é óbvio, e iniciou ali até uma espécie de debate. E todo esse momento foi um momento também muito constrangedor com Marcelo Rebelo de Sousa quando chegou a deixar a ministra para trás, ela própria a tentar entrar no plano das televisões, foi das coisas mais constrangedoras que vi.
Ela respondeu "não sei" a várias perguntas dos jornalistas.
Sim, e a certa altura diz, por exemplo, ao presidente da Câmara, que é uma aprendizagem que tem que ser colectiva, também dos autarcas, também das pessoas. Enfim, não era o momento para estar com uma espécie de paternalismo, e quase sobre aquelas pessoas, porque estavam num momento difícil. Há aqui dois detalhes políticos. Um deles também tem a ver com o facto de amanhã ser debate quinzenal e o próprio José Luís Carneiro parecia a certa altura dizer: "Eu amanhã vou manter as críticas todas na mesma". Parece que tinha estado a preparar a intervenção e que agora foi destrunfado para o debate quinzenal, mas isto também tem a ver com o cálculo político. Eu até acredito que a ministra já queria sair há mais tempo e acho que Luís Montenegro acabou por lançar hoje esta saída da ministra e por aceitar hoje a demissão, ao combinar com ela esta saída, também para de alguma forma esvaziar essas críticas do debate quinzenal, porque na verdade, já está o cordeiro sacrificado, neste caso, que é a ministra. E portanto, a tal ideia da diferença de quem assume responsabilidades políticas ou não, a tal marca Jorge Coelho, fica neste momento... A verdade é que demorou algum tempo, mas há sempre a desculpa de que a ministra estava a lidar com a crise e não ia sair. Agora que as coisas acalmaram um pouco, a ministra demitiu-se e, portanto, pode dizer que este também é um governo que assume as responsabilidades políticas e que sabe sair e trocar pessoas quando não estão à altura. O segundo detalhe, que não é assim tão pequeno, é que Luís Montenegro não escolheu já uma pessoa, porque é melhor que escolha bem do que escolha depressa, mas há aqui um pequeno detalhe que é a saída da ministra agora permite que ainda seja Marcelo Rebelo de Sousa, que é do seu partido, que à partida não tem tido um histórico de recusar dar posse a nenhum ministro, que está também ainda fragilizado, ou que já está fragilizado do ponto de vista não da legitimidade formal, mas da legitimidade política, porque já há um presidente eleito e talvez Luís Montenegro saiba que, neste momento, o nome que ele vai pôr em cima da mesa será naturalmente aceite por Marcelo Rebelo de Sousa, que nesta fase final também não tem grande margem para dizer: "Este aqui não por esta razão, este aqui não por outra". E talvez António José Seguro, até por uma questão de afirmação, pudesse querer dizer qualquer coisa se esta mudança no governo não fosse agora e fosse daqui a um mês, aí já seria António José Seguro a ter que dar posse à ministra ou ao ministro, a quem substituir a ministra, e aí já seria diferente. Portanto, também pode ter havido aqui algum cálculo. Eu não estou a especular, mas estou a dizer que naturalmente é possível que tenha existido esse cálculo, mas também admito a possibilidade da ministra, em termos pessoais, já não aguentar mais e o próprio primeiro-ministro também considerar que já não dava para prolongar mais a continuidade da ministra no Executivo, tendo em conta todas as circunstâncias. Morreram 16 pessoas, 15, 16, que são 16, não queria estar a falhar, porque as pessoas não são só um número, mas uma já seria demais e na verdade tinham que existir consequências políticas. E aqui está a primeira grande baixa política, porque existiram muitas outras do ponto de vista humano e também de bens materiais para muita gente no país. Agora sim, também creio que dentro do próprio eleitorado, que é uma coisa lateral nestas coisas, mas que para os políticos não é, para o governo não é, também creio que será do agrado geral que o primeiro-ministro tenha tomado esta atitude. Não tenho dúvidas que o Focus Group, numa sondagem, se questionar a seguinte pergunta: Luís Montenegro fez bem em afastar a ministra da Administração Interna? Se não tiver mais de 60 ou 70% de pessoas a dizer que sim, eu ficaria surpreendido. E, portanto, também aqui acho que Luís Montenegro tomou a decisão que melhor defende a sua própria popularidade e do próprio governo, e isso também é importante para ele seguir em frente e para também começar do zero com um novo presidente e com um novo ciclo político que se inicia no dia 9 de março, que na verdade já começou, mas que se inicia de facto no dia 9 de março, com uma nova correlação entre o governo e a Presidência da República.