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Juntamos agora a este jornal especial da Rádio Observador, Hugo Costeira, especialista em segurança interna. Muito obrigada por estar conosco. Das informações que já sabemos, podemos dizer que há uma terceira ameaça contra Donald Trump, sendo que há aqui também um fator que não sei se nos conseguirá explicar: é que J.D. Vance, o vice-presidente, até foi retirado primeiro do que o presidente norte-americano desta vez.

Bom dia, obrigado pelo convite. Efetivamente, há aqui ainda muito por explicar. Eu considero isto uma falha clamorosa de segurança a vários níveis. Alguém vai ter que explicar como é que isto é possível num jantar daquela natureza e com as medidas que são obrigatórias num evento desta natureza, com a presença do presidente americano e atendendo já ao histórico de ameaça ao próprio presidente norte-americano. Eu vi as imagens, escalpelizamos as imagens até há pouco em direto na CNN, e realmente aqui falta perceber os protocolos de resposta dos protetores diretos dos serviços secretos. O porquê da demora ao Donald Trump, o porquê de J.D. Vance ser extraído primeiro do local. Nós vemos vários protetores diretos à volta de Donald Trump, mas o tempo que demoram poderá ser realmente questionável, mas isso acho que é uma discussão técnica demais, porque, na verdade, nós já estamos a falar da reação. E normalmente nestas questões, nestes incidentes, as reações tendem a ser normalmente muito melhores do que os motivos que levam às reações. Portanto, há aqui uma falha clamorosa de segurança. Ela é óbvia, caso contrário, nenhum atirador conseguiria entrar dentro daquele espaço e fazer aquilo que fez. E quando digo entrar, digo entrar no espaço realmente alocado ao evento, uma vez que pela informação, ele já estava hospedado no hotel. Mas o que é certo é que a reação posterior dos elementos é realmente uma reação um bocado à Estados Unidos, é desproporcional. Todas as agências correm na direção do problema. Ouvimos tiros sem fim e depois realmente há a detenção deste suspeito. Ou seja, reagem bem, reagem de forma a evitar males maiores, é certo. Há uma detenção, há um detido, não há nenhuma vítima a lamentar da parte dos convidados, obviamente, mas o que é certo é que o que leva a esta reação, por assim dizer, é que está tudo errado. Eu acho isto muito poucochinho da parte do US Secret Service. Acho que estas falhas já são muito primárias e não me fazem muito sentido.

Já é a terceira vez que acontece com este presidente.

Já é a terceira vez que acontece e temos visto sempre posturas muito displicentes por parte dos elementos, já desde o início, já desde o primeiro atentado em que Donald Trump foi inclusive atingido numa orelha. Temos visto sempre comportamentos muito displicentes, muito lentos, muito pouco empenhados. Não sei se isto é uma resposta política a um desgosto de quem realmente viu Donald Trump chegar à presidência dos Estados Unidos, mas realmente isso, do ponto de vista da segurança, não quer dizer nada. Eu falava há pouco que há realmente no estado de Washington um diferendo político entre a presidência dos Estados Unidos e as autoridades de Washington em relação à segurança do próprio estado. Isso nós assistimos. O Donald Trump queria pôr polícia na rua, polícia diferente daquela do estado de Washington. Peço desculpa, do estado de Washington, não, de Washington, DC. Não é o estado de Washington em si. E portanto, há aqui muita conflitualidade entre republicanos e democratas. E o que é certo é que, no fundo, a segurança interna dos Estados Unidos é que está a sofrer. O presidente norte-americano é que está praticamente a ser várias vezes atacado. E, portanto, esperemos que esta exasperação política nos Estados Unidos não leve a mais uma tragédia a juntar àquelas que nós temos conhecimento pela história. Porque isso nada de bom trará ao mundo e nada de bom trará àqueles que professam os discursos de ódio, em vez dos discursos de entendimento e a diplomacia política. Mas isso já é um patamar fora da área da segurança.

Sim. Já vamos contar também já a seguir com a Helena Ferro Gouveia e vamos também a esses pontos, mas aproveitando aqui ainda esta questão da segurança. O Costeira, além dessas falhas de protocolo que estava a enumerar e que já não é a primeira vez que acontecem, depois este protocolo na retirada das figuras, neste caso, Donald Trump, Melania, estava a sala cheia de elementos muito importantes da administração norte-americana, o conselheiro do presidente, o secretário da Defesa, o diretor do FBI, também o próprio J.D. Vance. Por que o J.D. Vance foi aqui retirado primeiro?Também é uma falha nesse sentido?

Repare, cada uma destas entidades tem a seu cargo uma equipa diferente de segurança pessoal. E naquele momento, primeiro J.D. Vance estava numa ponta completamente oposta a Donald Trump. O caminho da exfiltração de J.D. Vance podia estar totalmente desimpedido naquele momento e a sua equipa de segurança acedeu a retirá-lo imediatamente. Mas para movimentarmos em segurança, um presidente norte-americano que já tem alguma idade, que tem alguns problemas de locomoção, portanto não é um jovem que possa correr, em milésimos de segundo, não é fácil termos todo o dispositivo de extração preparado para o fazer. E portanto, Donald Trump, em boa verdade, é um idoso. Tem limitações que J.D. Vance não tem. E portanto, podemos assumir por aí que para exfiltrar um e outro, vamos demorar mais tempo, vamos ter outras necessidades e essa decisão pode não ser uma decisão imediata e pode ser uma decisão perfeitamente natural.

Nas imagens até parecia que Donald Trump não se tinha apercebido logo dos disparos.

Sim, isso é normal.

Estava muito sereno.

Sim, isso pode acontecer, obviamente. Agora, nós temos que perceber que em termos de mobilidade, o entourage de um presidente americano é muito maior do que o seu vice e, portanto, preparar viaturas, que já por si são blindadas, mas preparar as saídas, filtrar de forma intempestiva. Um cidadão, lembremos que Donald Trump não é propriamente uma pessoa pequena, é um homem enorme, é um homem pesado, é um homem idoso. Isto traz, do ponto de vista da rapidez, outros desafios que não traz extrair um jovem como J.D. Vance. E portanto, às vezes é melhor demorar mais alguns segundos e fazê-lo com tudo em linha e com tudo preparado para que essa exfiltração aconteça, do que começar uma exfiltração em momentos e depois perceberem que Donald Trump não consegue acompanhar, que há até outro atirador e há até outra ameaça que não foi neutralizada e podem ficar numa situação de confronto direto. Portanto, às vezes é bom parar, pensar, perceber que a situação já está controlada e depois, aí sim, fazer uma exfiltração que tenha sucesso. Portanto, estas imponderáveis, eu confesso-lhe, eu não acho que isso seja o problema. Não acho que demorar mais cinco ou 10 segundos a exfiltrar Donald Trump seja problemático. Eu não consigo é perceber como é que numa organização daquela natureza, se consegue deixar que alguém entre lá dentro armado.

Sendo que neste hotel não é a primeira vez que acontece. Também já tinha acontecido com Ronald Reagan quando era contra presidente.

E quando aconteceu com Ronald Reagan, aconteceu há décadas e portanto, em alturas em que, do ponto de vista da segurança, havia muita coisa que não se pensava. Havia muita coisa que não se investigava. Havia muita due diligence securitária para a organização de um evento destes que não era sequer tida em conta, quer em termos de inteligência, quer em termos de análise de redes sociais, por exemplo. Estamos a falar de outra época e mesmo assim aconteceu. Isso foi uma lição aprendida, infelizmente. Agora, acontecer hoje, no século XXI, em 2026, com os antecedentes de problemas securitários e de segurança deficitária que Donald Trump tem, isso já me parece amadorismo