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Marcos Farias Ferreira, pedia-lhe uma análise aos discursos de Keir Starmer, o novo primeiro-ministro britânico, e também do antecessor Rishi Sunak neste dia do pós-eleições.

Olá, boa tarde. Os discursos em si ou as declarações em si são muito previsíveis. Aliás, como é panajo da política britânica, ou seja, eles são feitos de acordo com uma encenação muito própria, que segue obviamente os resultados das eleições de ontem, mas que não têm em si mesmo grandes surpresas. No caso do anterior primeiro-ministro, que sofreu uma derrota pesada nas eleições, as palavras foram aquelas que se esperavam. As de chamar a si as responsabilidades dessa derrota, pedir desculpa aos candidatos do seu partido, porque tendo em conta que as eleições no Reino Unido são eleições especiais, no sentido em que elas são, no fundo, 650 eleições, não é só uma eleição em círculos uninominais. Esses candidatos individuais em cada um dos círculos viram-se certamente afetados e condicionados pela avaliação que o eleitorado fez do governo e mais do que deste governo, dos 14 anos no poder do Partido Conservador. Mas são palavras as de Rishi Sunak que abrem a porta a uma transição de poder suave, uma transição incontestada. Não há palavras, como vemos em outros contextos, relativas à contestação ou a pôr dúvidas sobre o processo. É um processo muito previsível. No caso das palavras de Keir Starmer, é preciso compreender que é uma vitória em número de parlamentares muito significativa, a segunda maior vitória dos trabalhistas desde a sua vida parlamentar de 124 anos. Elas, de certa forma, traduzem aquilo que é o projeto político de Starmer. Abrem a porta a um novo período, a um novo ciclo político que Starmer quer que seja marcado pela normalidade, pelo regresso de uma certa tranquilidade. Há várias referências a um percurso muito acidentado nos últimos anos, liderado por sucessivos primeiros-ministros, muitos deles com atitudes e um caráter muito especial. E o que ele se preocupou em fazer foi dar um sinal ao eleitorado de que a política britânica iria regressar às suas linhas orientadoras de tranquilidade, sem espalhafato, sem nada de especial. Ele fez também uma referência muito importante àquilo que orienta esta linha trabalhista, que é muito centrista, com tons muito liberais, que é uma governação sem doutrina. Eu achei isso muito peculiar e caracteriza aquilo que são os partidos sociais-democratas também na Europa continental. É uma política tranquila, burocrática, tecnocrática, sem doutrina, voltada para os interesses dos britânicos, neste caso, e condicionada por um mundo inseguro. Este é o contexto que está presente e que vai, vamos ver, julgo, na governação de Starmer, para justificar a continuidade de algumas políticas, sobretudo a nível externo, face a Israel, face à Ucrânia, que é a de que há aqui opções que é preciso tomar, mas condicionadas a uma mudança na política britânica, mas condicionadas por um mundo extremamente inseguro, que condiciona, por exemplo, aquilo que podem ser as decisões de políticas públicas domésticas. Vai estar sempre presente cada vez que for preciso recuar um pouco quanto às promessas eleitorais na saúde, na educação, até na política de imigração ou na despesa pública. Portanto, acho que são declarações que sem serem particularizadas, sem serem detalhadas, porque não é esse o objetivo também de uma declaração de vitória, dão-nos já as pautas daquilo que vai ser a nova governação do Labour.

Deixe-me também lhe perguntar sobre o Partido Trabalhista, que acabou por ter uma maioria absoluta e por larga margem. Acredita que tem as ferramentas necessárias agora para aplicar as reformas que bem entende para resolver esses problemas de que falava?

Eu acho que essa resolução dos problemas está muito condicionada pelo contexto externo. Em primeiro lugar, esse contexto de insegurança vai ser utilizado para recuar, como eu disse há pouco, em medidas necessárias, por exemplo, na política social. Keir Starmer, ao contrário de Corbyn, não é grande entusiasta de políticas sociais, é mais entusiasta de política de crescimento, que tente evitar a necessidade de dar apoios sociais. O corte de apoios sociais também vai ser uma continuidade face ao que são as políticas dos conservadores. Agora, também é preciso notar que é enganador o apoio popular, esta maioria engana um pouco quanto ao apoio popular. Eu lembro que os trabalhistas tiveram apenas mais 1,6% do que nas últimas eleições e num contexto de maior abstenção, tiveram menor adesão popular do que nas eleições de 2019 e nas eleições de 2017. Quanto a 2017, por exemplo, há uma perda de 3 milhões de votos Portanto, com um apoio total de 33,8% dos votos, não podemos dizer que seja uma adesão popular muito significativa. O que deu esta grande maioria aos trabalhistas foi a catastrófica perda de apoio dos conservadores. Mas enfim, são as regras de cada sistema político. O que isto quer dizer? Isto quer dizer que pode ter essa grande maioria parlamentar, mas o apoio popular não segue essa grande maioria parlamentar e, portanto, eu julgo que vai ser preciso provar nos factos, provar ao eleitorado, à sociedade britânica no plano dos factos, o que são as medidas concretas de recuperação de mudança britânica naquelas linhas que foram estabelecidas no programa, na saúde, na educação, na política migratória, mas também nas infraestruturas, designadamente nos transportes, nos comboios. E, portanto, é aqui no plano da prática que este governo vai ter que provar. O que eu estou a querer dizer com isto é que não há propriamente um abraçar incondicional deste primeiro-ministro ou deste programa. Eu julgo que é uma vitória incontestável, os números de deputados dizem-no, mas eu julgo que a sociedade britânica vai estar muito atenta para ver se essas promessas de mudança têm resultados palpáveis ou se este novo governo não vai a par e passo procurar justificações, desculpas para não fazer a mudança que proclamou. Aliás, nós temos visto em sucessivos governos na Europa continental, mas também nos Estados Unidos, como essas promessas eleitorais são sucessivamente afastadas, adiadas ou até incumpridas por governos de esquerda e de direita, de esquerda, sociais-democratas, de direita, mais conservadores, mais liberais, que aliás, é um dos motivos para o crescimento da extrema-direita.