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Doutor Ricardo Marques, analista dos mercados da energia. Hoje a OPEP e a Rússia, OPEP+, estão reunidos para discutir o aumento da produção dos barris de petróleo. Uma reunião que até já começou, mas que só deve dar alguma conclusão daqui a algumas horas. No entanto, já tinha sido anunciado que poderiam aumentar novamente a produção dos barris para os 400 mil barris por dia. Doutor Ricardo Marques, se esta decisão realmente se verificar, que impacto é que isso pode ter no mercado energético?
O impacto não é muito, uma vez que é algo que já está esperado, ou seja, já está incorporado esse aumento. Poderá ter, sim, impacto se houver alguma indicação que venham a subir mais do que essa produção. Por exemplo, para compensar aquilo que a Rússia pode ou não estar a exportar, mas não é de se esperar que isso aconteça.
Portanto, os preços dos combustíveis, temos visto que têm estado a subir nos últimos tempos, é uma tendência que ainda se pode manter?
Não. Os preços do petróleo hoje estão a cair mais de $6, ou seja, cerca de 6%. E o dólar está a cair. Esta semana é uma semana claramente de baixa de preço. Se não houver nenhuma alteração significativa até amanhã, estamos a falar numa semana de baixa de preço, à partida. Mas essa baixa de preço tem mais a ver com o anúncio por parte de Joe Biden de que vai aumentar a libertação de reservas estratégicas. Já têm estado a libertar essas reservas, mas, pelos vistos, há planos para aumentarem essa libertação de reservas estratégicas pro mercado. Isso está a fazer com que o preço nos Estados Unidos já esteja muito perto dos $100 e o Brent esteja a negociar nos 106, quando ontem fechou a 112.
E, portanto, essa decisão de Joe Biden é que pode ajudar a baixar os preços do petróleo. É isso? Do petróleo e depois, consequentemente, os combustíveis.
É a principal razão pela qual os preços estão a baixar.
E é esperada, se os Estados Unidos continuarem a libertar barris, mantendo essa tendência, podemos regressar aos preços que tínhamos antes da guerra na Ucrânia?
Nesta fase parece-me difícil, tendo em conta a redução das exportações por parte da Rússia. Parece-me complicado e também o fato de, apesar da OPEP ter estado a decidir estes aumentos de 400 mil barris diários em cada mês, o que se tem verificado na prática é que aquilo que a OPEP produz tem estado muito abaixo daquilo que eles dizem que vão produzir. Enquanto isso não tiver reposto, não esperaria que os preços tão depressa regressassem aos valores que víamos antes de fevereiro.
E Ricardo Marques, não há a possibilidade de outros países seguirem este exemplo dos Estados Unidos e também aumentar essa libertação de barris?
Há, mas isso é petróleo que já está armazenado e é a redução de reserva, ou seja, não é a oferta adicional que está a vir pro mercado. Eu penso que é complicado. Acredito que isso possa ajudar que os preços não subam. Tenho muitas dúvidas que os preços desçam, até porque não é sustentável ser uma situação de longo prazo. Ou seja, às duas por três, as reservas acabam e não me parece que haja nenhum país que queira ficar sem reservas estratégicas, completamente.
Já no início do mês-
É só um alcance de curto prazo, não é um alcance de médio e longo prazo, esse tipo de medida
Estava eu a dizer, já no início do mês a OPEP tinha dito que esta variação nos preços não se devia a uma questão da oferta, mas antes a esta questão geopolítica. Isso era uma referência clara à guerra na Ucrânia. Portanto, aqui podemos dizer que os preços da energia só vão mesmo voltar ao normal quando esta invasão da Rússia terminar. É essa a previsão.
Isso por um lado e, por outro lado, também ainda falta ver qual é que é a reação do consumo a esta subida de preços, do consumo mundial. Ainda hoje saíram dados da China em que em março, quer a atividade industrial, quer a atividade de serviços, estão em contração. Portanto, estes preços elevados do petróleo podem levar a que se consuma menos nalgumas regiões e nalgumas atividades. Mas ainda não há dados que apontem pra aí, mas pode ser uma das razões pela qual os preços podem deixar de subir ou mesmo baixar. Mas enquanto houver esta incerteza toda associada à guerra, eu tenho muitas dúvidas que os preços regressem aos valores que estávamos habituados até janeiro.