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Professor José Silva Nunes, estamos na véspera do Dia Mundial da Obesidade. O professor e a associação que preside vão lançar um manifesto sobre o tema. Queria perguntar que manifesto é este de que estamos a falar e o que fez juntar estes cinco subscritores de diferentes associações em torno desta temática que é a obesidade.
Amanhã, dia 4 de março, comemora-se o Dia Mundial da Obesidade. A obesidade foi, de forma pioneira, reconhecida em Portugal como doença há 21 anos. Portugal foi um dos primeiros países no mundo a reconhecer, e bem, que a obesidade é uma doença. É uma doença por si só, mas também é uma doença que comporta um fator de risco para múltiplas outras doenças. À cabeça, diabetes tipo 2 e as doenças cardio e cerebrovasculares. E assim, neste ano, decidimos alargar a plataforma Recalibrar a Balança, que foi criada em 2021 pela Sociedade Portuguesa para o Estudo da Obesidade, em conjunto com a Associação de Doentes que Vivem com Obesidade, portanto, com a ADEXO, a que logo depois se juntou também a Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo. Sendo a diabetes e as doenças cardio e cerebrovasculares as principais doenças para as quais a obesidade é um fator de risco, decidimos este ano lançar o repto às duas sociedades, a Sociedade Portuguesa de Diabetologia e a Sociedade Portuguesa de Cardiologia, para se juntarem neste manifesto. E o manifesto, no fundo, é o seguinte: há mais de 20 anos que Portugal reconheceu que a obesidade é uma doença, mas no papel. Na prática, ainda há muito que fazer. Nomeadamente, e em primeiro lugar, que seja publicado o processo assistencial integrado, que é um documento que foi elaborado em sede da Direção-Geral da Saúde, no qual, entre outras pessoas, eu também fiz parte, e que já foi construído há bastante tempo e não há meio de ver a luz do dia. Em segundo lugar, também lançar o repto para que haja uma adequada gestão da obesidade dentro do Serviço Nacional de Saúde, nomeadamente com uma monitorização adequada da pessoa com obesidade e eventuais incentivos para um correto seguimento das pessoas com obesidade. Em terceiro lugar, a questão do acesso, um acesso que seja atempado, mas também que seja equitativo da pessoa com obesidade, porque, na realidade, a pessoa com esta doença tem dificuldade em ter acesso aos cuidados de saúde adequados. E recordo que a obesidade, sendo uma doença crônica, complexa e multifatorial, necessita de um acompanhamento multidisciplinar. E o acesso a esse acompanhamento multidisciplinar ainda não é oferecido à maior parte das pessoas que têm essa doença. Mas atualmente, também há a questão da não comparticipação dos fármacos, e o tratamento farmacológico da pessoa com obesidade é um dos pilares essenciais para o tratamento desta doença. Atualmente, reconhece-se que os três pilares essenciais do tratamento são: a intervenção cognitivo-comportamental, o tratamento farmacológico e, nos casos elegíveis, o tratamento cirúrgico. Dieta e exercício, ao contrário do que era defendido no passado, atualmente reconhece-se que não são um tratamento efetivo para a maioria das pessoas a longo prazo. Depois, também a questão do acesso às cirurgias bariátricas, à cirurgia para tratamento da obesidade. Embora o Serviço Nacional de Saúde ofereça essa opção e essa resposta, oferece, mas não atempadamente. As pessoas ainda têm que esperar alguns anos para que consigam esse tratamento. E em quarto e último lugar, que houvesse uma operacionalização do programa prioritário de combate e controle da obesidade, que foi explanado no Plano de Emergência e Transformação da Saúde, elaborado pelo atual governo, em que a obesidade era reconhecida como um dos quatro vetores de ação prioritária dentro deste plano de emergência e transformação da saúde. Mas, na realidade, até a atualidade, ainda não se Procedeu à sua operacionalização e, portanto, é o quarto call to action, o quarto vetor do call to action que nós queremos lançar neste manifesto das quatro sociedades científicas, em conjunto com a associação dos doentes que vivem com obesidade.
Professor, no dia de hoje, a Sociedade Portuguesa de Gastroenterologia fez um pedido, através de um comunicado, também na véspera da data que se assinala amanhã, a pedir que o Ozempic fosse um medicamento comparticipado para o combate à obesidade. Este medicamento é usado na questão da diabetes. Queria lhe perguntar se concorda com este pedido, também tendo em conta o que falou há pouco.
Eu queria só salientar uma coisa: que o Ozempic é um fármaco para tratamento da diabetes tipo 2, não é um fármaco para tratamento da obesidade. O princípio ativo, que é o semaglutido, existe para tratamento da obesidade, mas na dose de 2,4 miligramas, e é um fármaco cujo nome comercial é o Wegovy e que ainda não existe em Portugal. Portanto, o princípio ativo é o mesmo do Ozempic, mas com dosagens muitíssimo superiores. Ou seja, o Ozempic, que tem o semaglutido na dose de um miligrama e 0,5 miligrama, não é para tratamento da obesidade. Pertence a um grupo farmacológico que, em doses diferentes, é utilizado para tratamento da obesidade. Neste momento, para tratamento da obesidade, só existem quatro fármacos. O Xenical, que já foi lançado há 20 e tal anos, cujo princípio ativo é o orlistate. Depois, em 2017, tivemos a introdução do Saxenda, que é o liraglutido 3.0 miligrama. Um ou dois anos depois, tivemos a introdução de um outro fármaco com o nome comercial de Mysimba, que é a associação da naltrexona com o bupropiona. E, mais recentemente, no final de 2024, tivemos a introdução do Mounjaro. E estes são os quatro fármacos para tratamento da obesidade que realmente a Sociedade Portuguesa para o Estudo da Obesidade gostaria de ver comparticipados. O Ozempic não é um fármaco para tratamento da obesidade e já é comparticipado a 90%, mas para tratamento da diabetes tipo 2.
No comunicado falava na questão de que o Ozempic é um medicamento que se fosse utilizado na questão da obesidade, sendo, como já me referiu, para a questão da diabetes tipo 2, iria proporcionar uma melhor qualidade de vida e um pouco o combate à obesidade, se podemos assim dizer, aos doentes da obesidade, se fosse equilibrado com uma prática desportiva, com uma alimentação equilibrada, com plano integrado. Concorda que poderia ser a aplicação correta do fármaco, digamos assim?
Não. É reconhecido que o Ozempic, portanto, o semaglutido 0,5 ou um miligrama, quando utilizado para tratamento da pessoa com diabetes, pode induzir alguma perda de peso, mas nada comparado com a perda de peso que se consegue utilizando o mesmo princípio ativo nas doses recomendadas para tratamento da pessoa com obesidade. Portanto, realço mais uma vez que o Ozempic é o semaglutido na dose de 0,5 ou um miligrama. Para tratamento da pessoa com obesidade, a dose preconizada é 2,4 miligrama e que atualmente ainda não existe comercializado no nosso país. E no futuro, iremos ter doses ainda superiores para tratamento da pessoa com obesidade. Doses de 7,2 miligrama, ou seja, mais de sete vezes a dose que o Ozempic para tratamento da diabetes comporta.
Professor, estamos aqui a falar muito também na questão da véspera do Dia Mundial da Obesidade e no seu próprio manifesto fala muito na questão de pedir a mobilização por parte dos decisores políticos, de organizações de saúde e da sociedade civil para a temática da obesidade. Queria lhe perguntar se sente que existe alguma falta de estratégia no tratamento integrado no combate a esta doença.
Sim, claramente. É que, no fundo, há que reconhecer que a obesidade não é uma escolha individual, não é uma questão de falta de motivação ou falta de força de vontade por parte da pessoa afetada pela doença Há uma questão de balanço energético que é desfavorável, mas que é grandemente determinado por questões genéticas. Portanto, no fundo, o fator genético contribui para até 70% do risco da pessoa desenvolver obesidade. Mesmo que a pessoa passe a vida toda a tentar não desenvolver obesidade, está a lutar contra a natureza com a qual nasceu. É uma luta inglória. E é verdade que é muito importante, em termos de prevenção, a adoção de um estilo de vida apropriado, mas ninguém questiona que se trate outras doenças de forma sistematizada e integrada, doenças para as quais o estilo de vida também é muito importante. Ninguém questiona que se trate uma pessoa com hipertensão, com comparticipação dos fármacos, ninguém questiona a comparticipação de fármacos para tratamento da dislipidemia, portanto, o aumento dos níveis de colesterol no sangue. Também ninguém questiona que se trate, ou que se comparticipe os fármacos para tratamento da diabetes. Por que é que há esta discriminação relativamente à doença obesidade? Isso é que não se compreende.
Professor, para terminarmos, hoje saiu um estudo do INE, não sei se já teve a oportunidade de ver, ou de ler em profundidade, que falava que mais de 50% da população adulta em Portugal tinha excesso de peso e sofria de obesidade. Juntavam estes dois fatores. Queria lhe pedir uma análise desses dados e se o surpreende este valor.
Não, não surpreende de todo. Já no último levantamento, que foi publicado em 2017, e que foi desenvolvido pela Direção-Geral de Saúde, com colheita dos dados reportando ao ano 2015 e 2016, o Inquérito Alimentar Nacional e da Atividade Física, se encontrou uma prevalência de obesidade na ordem dos 22,3%. E somando obesidade com pré-obesidade, o chamado excesso de peso, já era mais da metade da população portuguesa. Portanto, esses dados confirmam a realidade de há 10 anos. Ou seja, confirma que apesar das estratégias que eventualmente tenham vindo a ser desenvolvidas, e em Portugal, em termos de prevenção, alguma coisa foi feita, nomeadamente em sede da Direção-Geral da Saúde, com a criação de dois programas prioritários, o da alimentação saudável e o da promoção da atividade física. Em termos de prevenção do desenvolvimento da obesidade, algo tem vindo a ser trabalhado. O problema é que o sucesso desses programas não é de 100%. Há um número significativo de pessoas que desenvolvem a doença e quando desenvolvem a doença, o Estado tem a obrigação de tratar essas pessoas, porque são pessoas para as quais a prevenção falhou. E falhou por quê? Porque há esse fundo genético que torna esta luta extremamente inglória.
Professor, para terminar, o mesmo estudo dizia que os principais afetados por esta questão do excesso de peso e da obesidade, eram pessoas acima dos 45 anos e muitos deles com uma escolaridade até ao ensino básico. Como é que se explica este parâmetro em relação à escolaridade e até à idade, apesar destes valores falarem que afetava tanto o sexo masculino como o sexo feminino?
Esta realidade não é diferente da realidade em outros países. Isto é um dado epidemiológico de que a prevalência de obesidade tende a aumentar à medida que a idade avança, e também desde há muito se reconhece que a prevalência da obesidade é maior nos grupos socioeconômicos mais desfavorecidos do que naqueles mais elevados. Há várias explicações para esta última constatação, nomeadamente a questão, não só do tratamento da pessoa que desenvolve a obesidade, porque se a pessoa com maior status socioeconômico desenvolver obesidade, no fundo, está munido de mais armas ou pode ter acesso a mais armas para tratamento da sua doença, enquanto a pessoa sem esse recurso econômico, não consegue fazer uso de todos os pilares que são reconhecidos no tratamento da doença. E depois também tem a questão das escolhas alimentares. Que pessoas com maior dificuldade na aquisição de produtos mais saudáveis, acabem por optar por escolhas alimentares menos apropriadas e que favoreçam o aumento do seu peso corporal. Essas são as duas principais explicações, e isso é reconhecido, não só cá em Portugal, mas é transversal aos vários países por esse mundo afora.
Professor José Silvano Nunes, muito obrigado pela sua entrevista, pelo seu depoimento. Muito obrigado.
Obrigado eu