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Samuel Úria, qual foi a importância de Sara Tavares para a música portuguesa, na sua opinião?

A Sara, fora do enquadramento do fado, acaba por ser determinante, de repente, numa espécie de identidade do world music. Acho que é o primeiro nome de uma portuguesa, claro, com a sua ancestralidade, com a sua origem cabo-verdiana, mas era uma portuguesa e levou a língua portuguesa a muito lado e era muito admirada internacionalmente e admirada também por quem a conhecia.

O Samuel gravou uma versão de uma das músicas de Sara Tavares, correto?

Sim, gravei e até a minha base de amizade com a Sara acaba por partir desta canção. Claro que era natural, sendo ela uma pessoa tão doce, conhecendo, era muito fácil ficarmos amigos e ficarmos a gostar muito dela. Mas a primeira vez que nós travámos conhecimento foi muito pouco tempo depois de eu ter gravado uma versão de "Chamar a Música", e ela confessou-me, e isto não é nenhuma inconfidência, porque isto até foi feito num programa de rádio, que se tinha pacificado com uma canção, que por ter sido um sucesso tão absoluto e ela sendo tão nova, não se revia muito, pelo menos na interpretação que tinha dado. Nem sabia que palavras é que estava a cantar algumas delas. E ela confessou que se tinha pacificado com a canção depois de ter ouvido a minha versão, que era uma versão bastante simples, despojada, mal cantada e troculenta, mas fiquei muito feliz desse elogio da parte dela.

O que é que o levou a fazer este tributo, podemos chamar assim, esta versão? O que o inspirou em Sara Tavares que o levou a reproduzir uma das suas músicas?

Tem de facto a ver com a Sara, porque a canção tornou-se quase um mantra nacional, como muitas das canções que na altura chegavam ao Festival da Canção se tornavam. Tornou-se muito rapidamente do domínio público, qualquer pessoa a poderia trautear. E eu quis fazer uma versão um bocadinho mais despojada, instrumental, mas também apelar à nostalgia que a canção provocaria na minha geração, torná-la também um bocadinho mais sentimental nesse aspecto. Não naquela sentimentalidade muito fogosa e só que a Sara tinha, mas se calhar numa sentimentalidade mais contemplativa. E então foi a canção em que eu quis agarrar, porque de facto a Sara tornou essa canção uma canção especial e todo o país esteve a torcer pela Sara nesse ano em que ela concorreu e em que o Festival da Canção, na altura, ainda tinha alguma preponderância.

Pode partilhar conosco alguma história que lhe venha agora à cabeça de um dos momentos de convivência com Sara Tavares?

Os momentos de convivência com a Sara eram sempre de grande pacificação. Os interlocutores da Sara, eu acho que podiam ir muito exaltados, mas bastava trocarmos umas palavras com ela e aquela voz muito serena da Sara deixava-nos quase a andar nas nuvens. Então eu não tenho nenhuma peripécia nos meus encontros com ela. Tenho quase o contrário de peripécias, é como se entrássemos numa dimensão em que tudo era bucólico.

Samuel Úria, agora é a altura de ouvir esta "Chamar a Música". Calculo que seja isso que vai fazer agora em homenagem a Sara Tavares.

Sim, é uma canção que eu nunca descarto dos meus alinhamentos, sobretudo quando estou a furar em alguns sítios do país, em que eu sei que a partir daí há muitas pessoas que vão ver com curiosidade, mas não conhecem assim tão bem o meu trabalho. Normalmente, dou esse docinho para as pessoas terem a oportunidade de pelo menos cantarem uma canção que conhecem. Então nunca desapareceu completamente dos meus alinhamentos. E sim, seguramente terei a oportunidade num concerto futuro de fazer homenagem a uma pessoa tão especial como a Sara.