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Rita Dias é presidente da ESN, Erasmus Social Network em Portugal. Nós falamos hoje no dia em que o programa Erasmus faz precisamente 35 anos desde que foi criado. Já há 35 anos que os alunos da União Europeia têm esta possibilidade de fazer mobilidade entre os países. Rita Dias, eu queria começar precisamente por olhar para trás e tentar perceber como é que podemos comparar o programa de Erasmus de há 35 anos, agora com o Erasmus que os alunos podem fazer em 2022. Que mudanças é que conseguimos apontar neste programa?
Antes de mais, agradeço o convite. É ótimo estar aqui a falar convosco na celebração dos 35 anos do programa Erasmus. Sem dúvida que é um programa que tem sofrido imensas alterações ao longo destes 35 anos e talvez a maior alteração que eu gostasse de fomentar é realmente o aumento da participação ao longo destes 35 anos. Atualmente, este programa é o segundo programa que a Comissão Europeia vê com bons olhos, é o segundo programa a nível europeu mais conhecido. E por isso foi um programa que levou a um grande aumento de orçamento na última orçamentação que teve para esta edição de 2022/2027, o que levou a que houvesse mais oportunidades de participação dos estudantes e um aumento de bolsas para os estudantes, o que é uma ótima novidade, porque antigamente uma das principais críticas do programa é que só alguns estudantes é que conseguiam participar. Nós deste lado da ESN estamos muito contentes por ver que teve um esforço conjunto para que haja um aumento dos fundos europeus à participação ao programa, inclusive para pessoas com poucas oportunidades e também para o aumento das viagens a nível de sustentabilidade, que também são estas preocupações a nível europeu.
E mesmo dentro da própria Europa há uma maior abertura, não é? Se calhar antes a visão em cada um dos países era mais nacionalista, agora, para além da procura dos alunos ter aumentado, também há mesmo uma maior abertura dos próprios países para os receber.
Sim, digamos que Bolonha também foi aqui um grande impulsionador e também todas as medidas que têm havido aqui com a questão da globalização, têm sido grandes impulsionadoras para que esse programa resulte. E nós costumamos dizer na ESN que um estudante é sempre um embaixador do programa, portanto, quanto mais estudantes participem, mais embaixadores vamos ter do programa. Acaba por ter aqui um efeito multiplicador da vontade que existe atualmente de participar no Erasmus.
E acabam também por tentar chamar mais alunos, não é, partilhando também a própria experiência.
Exato. Acabam por ser embaixadores do próprio programa e por divulgar a própria experiência, que por norma costuma ser sempre bastante boa, tanto a nível académico, profissional e também pessoal.
Rita Dias, falava também da maior disponibilidade de bolsas, não é? E presumo também de um maior montante depois para ser distribuído pelos alunos. Eu queria também perguntar sobre isso. Que ajudas, que apoios, neste caso a nível financeiro, é que os alunos podem ter para fazer o Erasmus?
O apoio é definido por cada universidade. Existem três escalões associados de acordo com o país que os estudantes têm disponível para participar, porque existem acordos entre universidades e dependendo desses acordos, os estudantes podem participar em mobilidade. Para além desse apoio, que normalmente é o apoio usual que os estudantes recebem, os estudantes que são considerados com poucas oportunidades recebem um apoio adicional à participação em mobilidade. Portanto, estudantes com incapacidades motoras, estudantes com incapacidades económicas, ou seja, há toda uma lista completa, podem sim pedir à universidade um complemento à bolsa para ir em mobilidade e assim conseguirem ter mais oportunidades. E inclusive, a Comissão Europeia tem estado a trabalhar no aumento, ou seja, num top up da bolsa a nível de sustentabilidade, que neste momento são 50 €, que nós consideramos ser um bocadinho baixo, mas para que os estudantes comecem cada vez mais a fazer viagens sustentáveis ao longo da Europa e que usem cada vez menos outros tipos de transportes menos sustentáveis.
E depois de chegar a este novo país onde vão fazer o programa de Erasmus, dá-se a outra parte que é conhecer pessoas novas, não é? Porque vão para países muitas vezes onde não conhecem ninguém, vão completamente sozinhos. E é aqui que entra o papel de organizações como a ESN.
Exato. A ESN neste momento está presente em 41 países. Temos atualmente 507 secções, estamos espalhados ao longo de toda a União Europeia e não só, também temos secções na Europa. Estamos neste momento a expandir para o Médio Oriente, temos aqui um plano de expansão a ocorrer. E o nosso objetivo realmente é dar um apoio a nível local, ou seja, o que as nossas secções, os nossos voluntários a nível local fazem, é apoiar na integração na comunidade local, porque todos sabemos que é um bocadinho assustador ir para um país que não conhecemos, com pessoas diferentes. Portanto, o que os voluntários da ESN fazem é que essa experiência seja o melhor possível e que eles consigam usufruir e tirar o máximo possível do Erasmus deles.
Há quem tenha a ideia, e eu aqui recordo-me também nos meus tempos de estudante, que havia muito este comentário, de que este tipo de organizações servia só para fazer festas, as pessoas conheciam-se em eventos noturnos e pouco mais. Mas na verdade, há aqui toda uma série de atividades que são organizadas pela ESN que vão para além deste caráter mais festivaleiro, não é?
Posso garantir que as festas são muito boas, mas nós fazemos mais coisas do que festas. Fazemos eventos a nível social, fazemos eventos a nível cultural, fazemos eventos que estão disponíveis para todos os gostos, todos os estudantes internacionais. Focando aqui um pouquinho nos eventos a nível social, nós tentamos sempre que os estudantes sejam activos na sociedade e que dê um pouco da sociedade quando vão em mobilidade. Nós temos o programa que é o Social Erasmus, que pretende que os estudantes ajudem a comunidade local através de actividades de voluntariado. Muito por aí também.
Nem sequer se prende apenas com a questão académica, nem a questão social, mas dentro da universidade ou dentro do sítio para onde vão estudar.
Exato. O Erasmus é muito mais do que a vida académica, claro que é muito importante e também nós tentamos fortificar essa mensagem, que os estudantes devem tirar o melhor da sua experiência também ao nível académico, e também para depois conseguir ter uma melhor experiência a nível profissional, que é neste momento uma das coisas que o mercado de trabalho mais pede. Mas o Erasmus também é uma troca de culturas, é uma troca de experiências entre pessoas de vários pontos do mundo que não se conhecem e acabam por se encontrar num sítio.
Rita, para terminar, isto parece tudo muito bonito, parece que não há realmente desculpa nenhuma para fazer Erasmus, para fazer este programa de mobilidade pela Europa, mas há aqui obstáculos que ainda se põem aos alunos, que dificultam, não necessariamente todos, mas que dificultam a viagem para alguns alunos, ou realmente este cenário ideal não tem aqui nenhuma falha a apontar?
Claro que apesar de termos ido tendo assim com as lutas, ainda existem diversas coisas que temos que lutar e apesar de existirem bolsas, realmente agora muito mais elevadas do que existiam há três, cinco anos atrás, um dos principais problemas que neste momento a ESN está a tentar lutar é quando é que essas bolsas chegam. Neste momento, as bolsas chegam aos estudantes quando eles estão em mobilidade ou mesmo depois, quando eles já voltam da mobilidade. Nós estamos neste momento a tentar que as universidades a nível europeu disponibilizem as bolsas antes dos estudantes irem em mobilidade. Neste momento, é a nossa maior preocupação formar casos de disponibilidade financeira para participar em mobilidade.
Tem sido um objetivo que tem enfrentado vários obstáculos ou será que realmente vamos conseguir atingi-lo de forma mais ou menos rápida?
Estamos com a esperança que sim. Temos tido várias reuniões com a Comissão Europeia e com as agências nacionais, que são o organismo em Portugal responsável a nível do Governo para implementar o programa. E estamos com a esperança que sim, que será um objetivo que será implementado a curto prazo.