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Começo por lhe perguntar se estamos perante uma escalada do conflito.
Boa noite. Eu acho que não é possível dizermos que não estamos perante uma escalada, tendo em conta que dois actores muito poderosos, que estavam numa fase defensiva, digamos assim, passaram à ofensiva e de uma forma muito musculada. Portanto, a sensação que nós temos é precisamente que o que os Estados Unidos e o Reino Unido querem é praticamente aniquilar esta força para que não só volte a navegabilidade ao mar Vermelho à sua normalidade, como que os Houthis não continuem a ser um problema relativamente ao próprio conflito do Médio Oriente. Portanto, há aqui uma escalada, poderá ou não ter uma resposta, os Houthis prometem que sim, mas teremos que ver o que é que acontece verdadeiramente.
Por que é importante o mar Vermelho? Por que as forças ocidentais decidem levar a cabo ataques?
Porque cerca de 15% do comércio internacional passa pelo mar Vermelho. Esta é a primeira razão. A segunda razão é porque o Irão tem usado as suas variadas proxies para tentar criar instabilidade no Médio Oriente e para tentar escalar, digamos assim, o conflito. E, portanto, os Estados Unidos e o Reino Unido em conjunto terão decidido que era possível travar esta ameaça de uma vez por todas, através de um ataque provavelmente massivo. Os Houthis não são uma força extraordinariamente grande e os Estados Unidos e o Reino Unido devem acreditar que são capazes de os neutralizar com este ataque.
Isto pode levar ao alastrar da guerra no Médio Oriente?
Pode, certamente, até porque, como estava a dizer, os Houthis prometeram que vão queimar todas as bases americanas, quer dizer, já fizeram declarações muito intempestivas. Não sabemos se têm meios para cumprir ou não aquilo que estão a dizer, mas há sempre uma possibilidade de cumprirem. E aí, vamos assistir pelo menos a alguns dias de tensão e conflitualidade. Agora, tendo em conta, digamos assim, toda a retórica norte-americana e toda a diplomacia norte-americana nos últimos três meses, precisamente no sentido de não escalar o conflito, é de imaginar, por um lado, que esta operação foi muito bem planeada, precisamente para que a retaliação à operação não possa ser de monta, digamos assim, e, portanto, não possa escalar o conflito em termos latos. Mas isto é um ato de guerra, não é? Aliás, o que os Houthis estavam a fazer era um ato de guerra. Isto é um ato de resposta dos Estados Unidos ao ato de guerra dos Houthis. Portanto, são dois atos de guerra, digamos assim, consequentes e nunca poderemos afirmar com toda a exatidão e com toda a certeza que, por muito bem que tenham sido feitos os cálculos, que não vai haver escalada de todo. Agora, penso que é importante referir e frisar este ponto, que é: não me parece que os Estados Unidos e o Reino Unido tivessem entrado nesta demonstração massiva de força e neste ataque massivo de força contra os Houthis, além de meios aéreos, já se sabe que também foram usados vasos de guerra e eventualmente também submarinos, se não acreditassem verdadeiramente que isto é uma forma, digamos assim, de anular a capacidade Houthi de continuar a bloquear o mar Vermelho e de continuar a ser uma força mais residual do que propriamente que pusesse uma ameaça a Israel. Mas penso que acreditam verdadeiramente que isto é uma forma de travar precisamente este tipo de provocações permanentes que têm sido feitas à própria Europa e aos Estados Unidos, porque sabemos que tem havido vários navios comerciais desses países que têm sido atingidos.
Adriana Solero fala de uma resposta por parte dos Estados Unidos e do Reino Unido, de uma defesa. O grupo Houthi é do Iémen, mas é apoiado pelo Irão. Esta ação vai ser tolerada pelo país?
Eu acho que o Irão, na realidade, não tem alternativa. Essa é a minha posição já há algum tempo. Repare, o Irão tem aqui duas ou três questões com que tem que se preocupar verdadeiramente. A primeira é a questão nucleares. Nós sabemos, neste momento, que o Irão está a tentar desenvolver, e parece que a um ritmo acelerado, a sua capacidade nuclear. E, portanto, devido a essa necessidade de continuar a desenvolver esse meio, está muito pouco interessado em envolver-se numa guerra. Em segundo lugar, não me parece que do ponto de vista convencional, o Irão tenha propriamente forças militares com capacidade para atingir quer Israel, quer os Estados Unidos ou o Reino Unido. Eu vou dar um exemplo: há quatro anos, precisamente, há muito pouco mais de quatro anos, os Estados Unidos fizeram um ataque que resultou propositadamente na morte Do General Soleimani, da força Quds, que é uma força irregular iraniana, que era responsável por supervisionar os ataques irregulares precisamente aos Estados Unidos. E o Irão disse que ia retaliar a morte de Soleimani e, na verdade, a única retaliação que o Irão foi capaz de fazer foi avisar, através da Rússia ou dos Estados Unidos, que ia bombardear uma base militar americana a tempo dos soldados norte-americanos serem todos retirados. Portanto, isso também nos mostra que há pouca capacidade, efetivamente, da parte do Irão para retaliar. E em terceiro lugar, parece-me que o Irão está, acima de tudo, interessado, através das suas proxies e por ordem, eu diria, primeiro o Hamas, depois o Hezbollah e os Houthis, em paralelo, de desestabilizar a zona do Médio Oriente. Aquilo que interessa verdadeiramente ao Irão neste momento são duas coisas: transformar o Estado de Israel, até com uma certa conivência, ainda que espero que não, consciente do Ocidente, num Estado pária internacional, sem apoios internacionais, para fragilizar profundamente Israel, porque o Irão não reconhece a existência de Israel e desde que o conflito começou, e já antes, muito antes, dizia que era seu objetivo fazer com que Israel desaparecesse do mapa. Portanto, tem usado as suas proxies com muita habilidade nos últimos três meses, no sentido de fazer precisamente isso, transformar Israel num Estado que nenhum outro Estado, do ponto de vista internacional, vai querer apoiar, seja de que forma for, porque é visto como um Estado pária, como um Estado que não respeita o direito internacional, como um Estado que fica marcado pela carnificina da Palestina, etc. Não há propriamente interesse do Irão em retaliar neste momento. Não há sequer interesse, do meu ponto de vista, do Irão de escalar o conflito. O que há interesse é de manter Israel em guerra, o mais tempo possível, e manter Israel o mais tempo possível em guerra da forma que Israel está a responder. E nesse aspecto, o Irão tem conseguido as suas pretensões. E por estas três razões, não me parece que o Irão vá retaliar diretamente, nem contra os Estados Unidos, nem contra o Reino Unido e muito menos contra Israel, porque, na verdade, Israel está a reagir da forma que o Hamas e que o Irão acharam que Israel ia reagir. Senão não tinham montado tão bem uma campanha de comunicação que está a resultar no que está a resultar.
Diana, uma última pergunta. Esta noite, em resposta à notícia da luz verde dada aos ataques por parte de Rishi Sunak, um dirigente Houthi, citado pela Al Jazeera, afirma que iriam cumprir a sua responsabilidade de apoio a Gaza. A que responsabilidade é que se está a referir? É uma responsabilidade para com o Hamas?
Eu não sei se é propriamente uma responsabilidade com o Hamas. Repara, há um grupo de países e grupos irregulares que fazem parte de um grupo que foi fundado por volta dos anos 2000, 2003, salvo erro, que é o Eixo da Resistência, que é composto precisamente pelo Irão, pelo Iraque, pela Síria e pelas proxies do Irão. Tornou-se claro desde o princípio, até porque um dos primeiros atos políticos do Irão a seguir ao 7 de outubro, foi reunir a resistência ao Eixo da Resistência. O Hamas está permanentemente a falar do Eixo da Resistência e, no fundo, todos estes grupos e Estados estão envolvidos numa mesma causa, que é, por um lado, a causa que já tinha falado, que é destruir o Estado de Israel. Até parece que estão a fazê-lo através da destruição da legitimidade de Israel enquanto Estado. Enquanto o Hamas e os outros actores saem praticamente incólumes, como se não tivessem qualquer tipo de responsabilidade naquilo que está a acontecer na Palestina. Eu penso que essa ideia de obrigação com Gaza está relacionada com esse todo mais vasto, que é, no fundo, a tentativa de, por todos os meios possíveis, nomeadamente pelo corte, pela deslegitimação de Israel enquanto Estado, serem capazes efetivamente de criar um grande embaraço ao Estado de Israel, de forma a que o Estado de Israel possa ser posto em questão por outros atores internacionais e possa ser abandonado do ponto de vista do apoio por outros atores internacionais. Eu penso que é isso que os Houthis querem dizer.
Agradeço desde já a Diana Saleiro por ter aceitado o nosso convite. Boa noite, especialista em relações internacionais.
Boa noite, muito obrigada.
Especialista em relações internacionais. Esteve conosco a olhar para os ataques norte-americanos e britânicos aos Houthis, grupo rebelde do Iémen