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Não foi preciso esperar pelo fim da noite eleitoral na Alemanha para ouvir a reação de Friedrich Merz à derrota dupla do partido que lidera. Pelo contrário, minutos depois de as urnas fecharem às 18h locais (17h em Lisboa) já o chanceler alemão falava aos jornalistas. As primeiras projeções, publicadas a essa hora, não deixavam margem para dúvidas: a CDU perdera a Câmara de Berlim para a esquerda radical e obtivera o pior resultado do partido a nível nacional desde a II Guerra Mundial em Meclemburgo-Pomerânia Ocidental, onde a extrema-direita saiu vitoriosa.
Sem rodeios, Merz admitiu que “o resultado em Meclemburgo-Pomerânia Ocidental não pode ser ignorado” e que “foi um desastre“. Porém, voltou a recusar apresentar a demissão. A posição já tinha sido deixada no início do mês, depois da vitória da Alternativa para a Alemanha (AfD) nas eleições de Saxónia-Anhalt. Duas semanas — e uma nova vitória deste partido no leste do país — depois, o líder conservador tornou a assumir responsabilidade, mas insistiu numa abordagem reformista.
“A resposta tem de ser tornar este país capaz para o futuro, reformas têm de acontecer. A Alemanha é capaz de reformas. Vou assumir a responsabilidade, porque eu quero que o país avance”, declarou aos jornalistas a partir de Berlim. A conferência de imprensa na Casa Adenauer, onde desde o meio da tarde, Merz estivera reunido com a liderança conservadora, a traçar o plano para a noite eleitoral. A reunião ajudou ainda a transmitir um sentimento de união do partido em torno do líder que já vinha a ser construído.
▲ Os líderes dos conservadores reforçaram o voto de confiança em Merz
AFP via Getty Images
Este domingo, ainda antes de o “desastre” se confirmar, o apoio foi declarado e a promessa foi feita: os líderes regionais da CDU não vão deixar Merz cair. O relato foi feito à emissora pública ZDF pela secretária-geral dos conservadores, Franziska Hoppermann, que garantiu: “É seguro assumir que o Chanceler Federal permanecerá à frente do Governo da República Federal da Alemanha!“.
Todavia, as eleições regionais deste domingo não podem ser dadas como terminadas depois de terem reagido todos os líderes ou terem sido contados todos os votos. A distribuição de votos não resultou em nenhuma maioria absoluta e obriga agora os partidos de todos os espectros a seguir para negociações, a debater possíveis coligações e a repensar abordagens políticas.
Meclemburgo-Pomerânia Ocidental. Uma “catástrofe” para a CDU, uma “volta por cima” para o SPD, uma vitória que pode não chegar para a AfD
A comissão eleitoral alemã detalhou que a contagem dos votos só ficará concluída na segunda-feira ao início da tarde. Mas os resultados provisórios permitem identificar a AfD como vencedora das eleições em Meclemburgo-Pomerânia Ocidental, com um resultado na casa dos 38%, mais do dobro dos votos conquistados nas últimas eleições regionais. As projeções foram suficientes para levar os líderes da extrema-direita a reclamar um “mandato para governar”, nas palavras de Tino Chrupalla, um dos líderes da AfD a nível federal que rumou a Schwerin para a festa em tons de azul.
Em Berlim, a líder do partido, Alice Weidel, reagiu aos resultados de forma mais pragmática. Afinal, apesar da vitória histórica na região, a percentagem traduz-se em 28 a 30 deputados regionais, número insuficiente para os 36 lugares necessários para governar Meclemburgo-Pomerânia Ocidental. Por isso, Weidel apelou à CDU que dialogue com a AfD.
▲ A partir de Berlim, Alice Weidel celebrou o crescimento da AfD
CLEMENS BILAN/EPA
“Os eleitores têm votado de forma consistente no centro-direita. O nosso objetivo é, claro, falar sobre coligações com a CDU a longo prazo, mas em nenhuma circunstância vamos abdicar das nossas posições”, elaborou Weidel, apontando os maus resultados que os conservadores têm tido como uma consequência, em parte, da aplicação de um “cordão sanitário” ao partido mais à direita.
Daniel Peters, o cabeça de lista da CDU na região, não fugiu, tal como Merz, aos números. As primeiras projeções davam aos conservadores apenas 5,5% dos votos, meio ponto percentual acima da margem mínima necessária para eleger. “É uma noite muito amarga para a CDU, um resultado catastrófico. Estamos a lutar pela sobrevivência”, declarou o líder, que falou aos apoiantes, “claramente abalado”, descreve a ZDF. Por volta das 23h locais, as projeções atualizadas com base nos votos já contados tinham atirado a CDU para os 4,9% e, portanto, para fora da assembleia.
A confirmação sobre se a CDU terá lugar na assembleia só deve chegar já na segunda-feira, mas o desfecho já é histórico, uma vez que ultrapassa o pior resultado alguma vez registado pelos conservadores. O título, até aqui, pertencia aos 9% conquistados nas eleições regionais de Bremen em outubro de 1951.
Contudo, nem o resultado “catastrófico” foi suficiente para levar a CDU a abandonar o “cordão sanitário” à extrema-direita, reafirmado por todos os partidos. As negas dos possíveis parceiros de coligação motivaram diferentes reações dos líderes da AfD. O cabeça de lista Enrico Schult exigiu “respeito e humildade” para negociar, enquanto o líder adjunto do partido na região, Thore Stein, atirou de volta: “não queremos governar com a CDU de todo”, gritou do púlpito montado em Schwerin, em pleno clima de festa.
▲ Manuela Schwesig celebrou o segundo lugar do SPD em Meclemburgo-Pomerânia Ocidental
FILIP SINGER/EPA
A vontade de governar dos líderes da AfD é ameaçada por uma coligação negativa, liderada pelo SPD, que deverá conseguir entre 27 e 29 deputados na assembleia regional, e com a participação dos cinco deputados dos Verdes e dos cinco do Die Linke (coligação que permitiria alcançar 39 mandatos). Estes resultados são “uma reviravolta por cima”, quando comparados com as sondagens no início da campanha, celebrou Manuela Schwesig, cabeça de lista dos sociais-democratas. Mas a corrida a dois entre a AfD e o SPD acabou por remeter todos os outros partidos para resultados tímidos entre os 5% e os 7%.
Berlim. Os novos eleitores catapultaram o Die Linke, que ainda espera o “sim” do SPD a uma coligação
As duas eleições regionais destacam-se pelo facto de, pela primeira vez, a idade de voto ter sido baixada para os 16 anos. Em Berlim, a geração mais nova votou de forma esmagadora no Die Linke (47% dos eleitores entre os 16 e os 24 anos, 55% nas mulheres com menos de 30 anos). Com o apoio da geração mais nova, o partido da esquerda radical conquistou um resultado na ordem dos 25%, que se traduz em 36 lugares na assembleia da cidade-estado. É um crescimento de oito pontos percentuais em relação às últimas eleições locais, conquistado graças aos novos eleitores — quer abstencionistas, quer jovens que votam pela primeira vez —, que representam 33% dos eleitores do partido mais à esquerda.
Os resultados lançaram a festa à esquerda, onde a cabeça de lista, Elif Eralp, prometeu uma “Berlim mais acessível”, em que “o amor e a justiça triunfaram sobre o ódio”. “A partir de hoje, vamos mudar Berlim juntos”, declarou. Também os Verdes celebraram os resultados em Berlim, apesar de uma ligeira queda de quatro pontos percentuais em relação aos 18% conquistados nas últimas eleições. “Queremos assumir a responsabilidade e forjar uma aliança progressiva para Berlim em conjunto com o SPD e o Die Linke”, disseram os representantes dos Verdes, que assinalaram o voto dos berlinenses a favor da “mudança política”.
▲ O Die Linke cresceu graças ao voto dos jovens e celebrou em Berlim
Getty Images
O ambiente foi menos otimista à direita. Apesar do crescimento acentuado, e dos 13,5% dos votos conquistados, a AfD reconheceu que “Berlim é um sítio difícil”, enquanto o SPD teve uma noite “catastrófica” e ficou-se pelos 12%, o pior resultado de sempre dos sociais-democratas na capital. Também a CDU, apesar do segundo lugar e dos 20% dos votos, saiu a perder. Isto porque registou uma queda de oito pontos percentuais e perdeu a liderança da cidade. “Perdemos, mas conseguimos inverter a tendência negativa. Acho que alcançámos um bom resultado, tendo em conta o ponto de partida”, ponderou o cabeça de lista, Stefan Evers.
À semelhança de Meclemburgo-Pomerânia Ocidental, também as contas em Berlim não estão fechadas. Verdes e Die Linke estão disponíveis para governar em coligação, mas precisam do SPD para alcançar uma maioria. Todavia, Steffen Krach recusou discutir o tema ainda durante a noite eleitoral.
“É muito cedo para falar de opções de coligações”, respondeu em entrevista à emissora pública ARD, questionado sobre se preferia aliar-se à CDU ou ao Die Linke — uma aliança a três entre CDU, Verdes e SPD também seria suficiente para governar a cidade, mas é vista de forma negativa por 66% dos eleitores. A isto soma-se o facto de os Verdes já se terem mostrado mais inclinados para governar à esquerda.
▲ O SPD teve o pior resultado de sempre em Berlim, onde diz ter sido "castigado"
HANNIBAL HANSCHKE/EPA
Liderança conservadora fala a uma só voz, a de Merz, que promete mais reformas a piscar o olho aos jovens
Steffen Krach não foi o único a recusar falar sobre o futuro. Em Berlim, a reunião dos líderes conservadores terminou apenas com as declarações do chanceler. Os outros membros da CDU abandonaram a Casa Adenauer a partir das 20h com meros acenos de cabeça, sorrisos e um “hoje não” ou “falamos amanhã”, descreveu o repórter da ZDF no local. “Claramente, todos no topo combinaram permanecer em silêncio”, concluiu. Ao canal, Karl-Josef Laumann, ministro do executivo regional de Renânia do Norte-Vestfália e membro do comité executivo da CDU, disse que “todos tinham achado a declaração de Merz correta e excelente”.
Na verdade, a abordagem de Merz já era esperada. Os líderes que este domingo se reuniram em Berlim já tinham deixado claro que não estavam disponíveis para um golpe contra o chanceler e o próprio chefe do Executivo tinha repetido uma e outra vez que não se iria demitir e que tinha mandato para um Governo de quatro anos. Com a demissão fora da mesa e sendo a moção de censura uma figura legislativa muito mal sucedida na Alemanha — para a aplicar, é necessário ter já um nome aprovado para ocupar a liderança do Governo —, restam a Merz as reformas, um instrumento a que já recorreu esta legislatura, mas com pouco sucesso.
Merz prometeu aplicar as suas reformas com “determinação, firmeza e paciência”, mas deixou de fora uma questão crucial: não detalhou que reformas são essas e se envolvem ou não novas mudanças no seu Executivo. Ainda assim, o chanceler deixou claro que a agenda atual não prevê uma reversão das políticas de austeridade que tem vindo a implementar. Pelo contrário, adotou um tom muito pouco otimista nesta dimensão.
“Nem tudo vai ser recebido com aplausos rápidos. Sei que essas mudanças vão surgir de mão dada com novas incertezas e fardos e, em algumas áreas, só ao fim de algum tempo é que vamos ver os frutos do nosso trabalho”, antecipou. “É precisamente por isso que temos de começar a trabalhar agora”. Ainda que demorados, os frutos tornar-se-ão visíveis, assegurou ainda, tentando imprimir algum otimismo ao seu discurso e falando diretamente para os eleitores que a CDU teve mais dificuldades a conquistar: os jovens.
“Eu quero que o nosso país seja um país que acredita na sua própria força. Eu quero que a promessa de prosperidade e de ascensão também se aplique aos jovens — e especialmente a eles”. Eleitores desta faixa etária ouvidos pela ZDF em Berlim têm, contudo, uma leitura totalmente oposta da realidade atual. Para estes jovens, o resultado deste domingo foi um chumbo às reformas do Governo federal e Merz tem de ouvir o “feedback” dado pelos eleitores: “As reformas têm de ser travadas porque não são socialmente aceitáveis”.