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As declarações de Pedro Proença à RTP. Ouvimos as declarações do presidente da Federação Portuguesa de Futebol, à boleia do canal televisivo RTP. E o que é facto, Filipe Coelho, é que das palavras de Jorge Jesus até às palavras de Pedro Proença, fica de alguma forma a mesma ideia: Cristiano Ronaldo, se quiser, pode regressar à seleção nacional, basta querer que é convocável, foi esta a expressão utilizada por Jorge Jesus. Também Pedro Proença a destacar o símbolo e além de estar satisfeito com o novo ciclo com Jorge Jesus, de alguma forma a deixar também a porta aberta pro capitão. Mas eu retenho a última pergunta feita pela jornalista da RTP a Pedro Proença, se não fica aqui aberto um precedente complicado para futuros capitães e para futuros comportamentos, de alguma forma, e podemos chamar-lhe assim, talvez, tóxicos.
Sim, diria que foi uma pergunta hiperpertinente. Eu percebo que enquadres as declarações de Pedro Proença e de Jorge Jesus na mesma gaveta, mas eu não o faço. Acho que JJ tentou abrir a porta, foi apesar tudo algo cauteloso, porque disse que não pedia desculpa a ninguém.
Exatamente. E quando foi na altura de dizer que pedia desculpa, já revelou um pouquinho mais.
Exatamente. Disse que não pedia desculpa, não havia nenhum motivo para pedir desculpa. Pedro Proença não faz nada disso. O que Pedro Proença faz aqui, e passo a citar, Pedro Proença diz: "Prestar vênia a Ronaldo, Ronaldo vai sempre fazer parte deste grupo e Ronaldo é o atual capitão da equipe."
Fará sempre parte do nosso patrimônio, também foi uma expressão utilizada.
Certo. Cristiano Ronaldo há uns dias estava convocado para representar o país, estava no hotel da seleção, viajou com os seus companheiros para treinar e depois de ver a conferência de imprensa do selecionador nacional, decidiu que não treinava porque não tinha gostado de ouvir Jorge Jesus. Não treinava, pegou na mala, foi-se embora, meteu-se no avião e foi para Madrid. Não percebo que mensagem é que Pedro Proença quer fazer passar com este tipo de passagem de pano em relação à atitude de Cristiano Ronaldo, porque é o que Pedro Proença acaba de fazer e a pergunta da jornalista é obviamente pertinente. A partir daqui, todo e qualquer jogador pode decidir fazer o que bem entender. Sabemos que não é assim. Sabemos que não é assim, porque o estatuto de Cristiano Ronaldo parece estar para durar e está para durar, porque há quem legitime este tipo de comportamento e não deveria ser o presidente da Federação Portuguesa de Futebol, bem pelo contrário, a fazê-lo. Portanto, em suma, diria que é uma declaração absolutamente lamentável de Pedro Proença.
Luís Pinto Coelho, tivemos aqui muitas vezes a expressão "mal entendido". Acredito aqui que não haja muitas dificuldades pra entender o que se passou, porque a verdade é que houve um capitão a abandonar o estágio da seleção nacional. Independentemente do que aconteceu, aqui acho que não há nada pra mal entender. Foi exatamente o que aconteceu e acaba por ficar aqui a porta aberta pra Cristiano Ronaldo. Concordas com esta abordagem? Poderá o capitão retornar na lógica do ativo? Fará sentido do ponto de vista desportivo? Há aqui uma realidade que é muito difícil de gerir pra federação, tendo em conta o peso de Ronaldo, diria até financeiro e daquilo que vale em termos de contratos e afins.
Sim, eu até tenho dificuldade em comentar isto, porque parece-me que só havia uma solução pra isto ter minimamente uma solução final que pudesse agradar a toda a gente. Era Cristiano Ronaldo pedir desculpa.
E temo que aqui esteja a ser dado tanto poder a Cristiano Ronaldo, mais do que aquele que já tem, que acabará por sair, de alguma forma, com o efeito contrário àquele que é pretendido.
Acho que sim, e acho que pode matar algo que está a ser criado com uma nova equipe técnica, que agora fez um ciclo de quatro jogos, isto não tem sentido. Se Cristiano Ronaldo dissesse: "Eu precipitei-me, agi de cabeça quente". Isso ainda conseguia perceber. Pronto, ele tem o estatuto que tem, também o conquistou na sua carreira e os jogadores acredito que também não se iam opor a um regresso. Agora, o que Jorge Jesus diz é: "Ele volta se quiser". E Pedro Proença põe-se, desculpem a expressão, quase de gatas. E eu depois pergunto: Ok, temos jogos pro próximo mês. Ele volta e como é? Vai ser titular?
E a questão também é-
Olha pra isto como, por exemplo?
Claro.
Olha pra isto como?
E aqui também a questão da liderança, mais do que a titularidade ou não, é no fundo dizer à equipe que um capitão de equipe, se alcançar determinado estatuto, pode não cumprir com aquilo que é fundamental pro papel do capitão de equipe, que é unir a equipe e não afastar-se dela.
Eu já passo ao Luís, mas só uma nota. Eu não sei se Cristiano Ronaldo sente necessidade de pedir desculpa depois de ouvir o presidente da Federação Portuguesa de Futebol.
Sim, quase que nem é preciso, não é? É só dizer que está pronto pra ser convocado. Eu não consigo perceber, e também já tenho alguma dificuldade em perceber o constante falar da questão econômica. Hoje em dia já não há jogos particulares, praticamente. As grandes receitas da federação estão fechadas até 2030. Podemos falar de merchandising.
Será esse o peso fundamental aqui.
Sim, mas também é interessante olhar pro lado desportivo, porque as receitas desportivas, por exemplo, chegar a uma final de um campeonato do mundo, é diferente do que ser eliminado nos oitavos de final ou nos quartos. Isso também é uma diferença de 30 ou 40 milhões de euros. Por isso, o estar sempre constantemente a falar no lado financeiro, daqui a 10 anos continuaremos a falar disso, porque Ronaldo daqui a 10 anos vai continuar a ser a pessoa, se calhar, mais seguida nas redes sociais em todo o mundo E vamos continuar a falar que ele deveria vir.
E a ideia é que esse patrimônio tem mais a ver com o Ronaldo do que com qualquer dos lugares que o Ronaldo passe. Tem um valor próprio, as receitas de publicidade e marketing vão pro Ronaldo, não vão pra seleção.
Claro, porque a federação é uma entidade pra questão desportiva, não é nenhuma empresa para gerar lucros e com isso poder-se pagar salários milionários a muitos dos seus funcionários. Por isso, acho que se está a pôr o lado desportivo em segundo lugar. E o futebol de alta competição é rendimento. É isto que eu não consigo perceber. E o Ronaldo, neste momento, se calhar, não tem rendimento. Isso parece-me óbvio, para ser titular da seleção e para ir para o banco, vai ser para criar problemas, porque já se percebeu qual é o cenário que vamos ter outra vez. Vai para o banco e depois como é? Não aquece, porque se aquece mais de 10 minutos ou 15, fica chateado, e se não entra. Ninguém gere uma equipa desta forma, isto parece-me surreal.
E de alguma forma, Pedro Henriques, se esta mensagem de Pedro Proença e a forma como Jorge Jesus reagiu também, não está a passar mensagem errada para os outros jogadores da equipe, de alguma forma, uma certa ideia de que o crime compensa? Bem sabemos que falamos de um jogador com proporções difíceis de quantificar, mas ainda assim, do ponto de vista da gestão de um balneário, pode um treinador, pode um presidente de federação dar este peso, este poder, a um jogador, independentemente do valor de mercado e do que o jogador vale também midiaticamente?
Sim, estamos a falar de um jogador que obviamente, já foi dito várias vezes a questão do estatuto. Há aqui uma questão que acho que todos estamos de acordo, Cristiano Ronaldo, independentemente das razões, porque ainda não ouvimos o Cristiano Ronaldo, que possam estar na base do que ele fez, porque nós sabemos que para o Jorge Jesus houve apenas um mal-entendido, por causa da questão do aquecimento e ter lá ficado, que para ele é normal, embora compreenda que para o Cristiano Ronaldo podia ser diferente, e que houve pessoas que eventualmente se meteram pelo meio, palavras de Jorge Jesus, e que podem ter empolgado aqui um bocadinho a situação. Falta-nos agora ouvir aqui a versão daquilo que o Cristiano Ronaldo disse a dado momento, depois do que ele possa dizer, que havia coisas para dizer e que os portugueses iam saber. Portanto, pode estar a haver outra coisa ou a dizer outra coisa. Também houve uma pergunta que eu acho que é importante, que ninguém aqui referenciou isso, que é a dado momento perguntaram-lhe se ficou prometido ou não um pedido de desculpa, que era uma das teorias que estava na base de que o Cristiano Ronaldo podia ter abandonado a seleção é porque teriam lhe prometido pedir desculpas, que não houve, se é que havia alguma desculpa para pedir. E ele, Jorge Jesus, disse claramente, respondeu, já um bocadinho até irritado, acho que foi até com a RTP que disse: "Não, isso é mentira, não é verdade e, portanto, não está isso em questão". E depois também sabemos que quando um jogador abandona um estágio, eu penso que agora já não tenho aqui de cabeça, acho que é o artigo 106, que pode levar um mês a seis meses de suspensão e pode inclusivamente levar a uma multa financeira, isso é o menos importante, de €500 a €1.000. E portanto, há aqui uma situação, que foi essa a última pergunta que a jornalista da RTP fez ao Pedro Proença, que já não respondeu, fez um bocadinho o que o Cristiano Ronaldo fez, bazou, e portanto ele já nem respondeu, que é no fundo essa a questão, que é então, mas agora está aberto aqui um precedente e se alguém abandonar o estágio, o que é que vai acontecer? Ou dito de outra maneira, vai acontecer alguma punição para o Cristiano Ronaldo por ter abandonado? E essa é que é a questão, porque acho que neste momento, pelo tal estatuto, pela tal grandeza, por tudo aquilo que toda a gente quer, que é que ele abandone de forma diferente, que saia de bem com Portugal, com a seleção portuguesa, no fundo, está-se a tentar passar uma esponja por isso. Agora, há um aspecto que é importante. O Jorge Jesus, quando abre a porta ao Cristiano Ronaldo, não está a abrir a porta porque no género perdoa-me, está a abrir a porta no sentido de que desportivamente, para ele, vale o que vale, até porque ele disse que falou com o Cristiano Ronaldo, já sabemos isso, a tal reunião em agosto, e que contava com ele desportivamente. Não é contar com ele pra titular, contava com ele desportivamente. Até disse, mesmo que não fosse para jogar, contava com ele. E disse mais, que este jogo hoje era a titularidade dele, que já sabíamos, era o primeiro e o quarto jogo. Portanto, quando ele abre a porta, ele, Jorge Jesus, não está a abrir a porta por caridade, está a abrir porque no entender dele, o Cristiano Ronaldo tem lugar nos selecionáveis. A parte do Pedro Proença, que eu acho que não esteve bem. Uma coisa é falar, sim, senhor, 25 jogadores, quatro jogos, 14 dias, o sucesso temos de ser a primeira seleção europeia, mas depois não respondeu ao essencial. Diz que vai resolver entre portas, que estão a fazer tudo para tentar criar o tal consenso tripartido. Federação, selecionador e neste caso qualquer que seja os jogadores, neste caso o Cristiano Ronaldo, mas abre-se aqui um precedente também sob o ponto de vista disciplinar. Vamos ver o que vai dar. Eu acho que o ideal seria que efetivamente houvesse aqui uma resolução, pelo menos para a despedida do Cristiano Ronaldo. Tenho muitas dúvidas que o Cristiano Ronaldo, mesmo com esta convocatória pré-anunciada para os dois jogos de novembro, queira voltar à seleção também.
E de facto vai nos próximos tempos ficar do lado do Ronaldo uma resposta, que situação é que pode ou não regressar à seleção nacional. Já daqui a pouco vamos ter o Sem Falta para fechar esta emissão especial de esporte com o Pedro Henriques. Antes disso, para fechar, Luís Pinto Coelho, aqui depois desta seleção nacional que venceu quatro jogos, nenhum deles sem Cristiano Ronaldo, se na tua opinião o regresso do Cristiano Ronaldo não poderá provocar aqui também, de alguma forma, uma espécie de descalabro no balneário, trazer para aqui um ambiente que parece que ficou afastado, pelo menos nestes três jogos.
Acho que há um risco muito grande disso acontecer. Porque eu acho que, como o Pedro referiu, foi isso que o Jorge Jesus disse. Que o trazia pelo lado desportivo e que na opinião dele, merecia estar no elenco. Mas eu mesmo isso já tenho muitas dúvidas que o Jorge Jesus acredite mesmo piamente nisso. E acho que, obviamente, que é o peso do Ronaldo que está em causa também. E parece-me claramente também que o Jorge Jesus está incomodado com tudo isto. E há outra coisa que eu vou dizer e que vocês se vão aperceber, se calhar, nos próximos tempos, que é: se Pedro Proença abrir a porta O Jorge Jesus vai ser queimado em lumbrando na comunicação social. Nos próximos tempos, as pessoas vão se aperceber disso, do que está sendo preparado e se calhar, se o Pedro Proença não estiver atento, se não se puser rapidamente ao lado de Jorge Jesus, vai ser muito complicado, porque o Jorge Jesus vai ser queimado em lumbrando. Por isso eu acho que o Pedro Proença aqui teve uma atitude complicada e eu acho que tem que estar ao lado do treinador, do grupo, e se não tiver, isto pode descambar e o mal depois é a seleção e o seu rendimento e depois gerir toda a situação e todo o balneário. Por isso é já aqui um alerta que deixo, estejam atentos, se calhar, nos próximos tempos, no grupo de comunicação social, em concreto, vão começar a notar certas coisas.
Filipe Coelho, daqui podemos depreender a situação que temos um treinador que apesar de estar a tentar ser um pouco mais político nesta questão, continua a ter o seu ego, nomeadamente na questão de quando lhe disseram que ele tinha pedido desculpas, tomou algum calor. Mas temos também um presidente que foge um pouco às responsabilidades e a falar. Será que neste estágio não perdemos só um capitão, perdemos também, de alguma forma, confiança na presidência da Federação Portuguesa de Futebol?
Eu diria que sim.
Não só por este episódio, talvez, mas aqui culmina depois também daqueles áudios que vazaram no início do ano. Do início da época, quero dizer.
Sim, ajuda um pouco à missa, por assim dizer. É curioso que Pedro Proença, por um lado, coloca-se numa posição quase de espetador, o presidente da federação até nem se mete nestas coisas, mas é público que viajou para Copenhague mais cedo para tentar, aparentemente, amenizar a situação. Enfim, tenho muita dificuldade em comentar esta declaração de Pedro Proença, porque acho que é de uma falta de amor-próprio, de uma falta de autoridade absolutamente lamentáveis e que eu creio que só penaliza a seleção nacional. Em relação a Jorge Jesus, parece-me que, por um lado, quanto mais puxarem por ele, pior para a comunicação institucional, porque a partir do momento em que lhe perguntaram se ele ia pedir desculpa ou se tinha pedido desculpa, JJ foi completamente perentório e disse que não havia motivo para pedir desculpa. E parece-me outra coisa. Jorge Jesus tem uma dificuldade gritante em explicar esta situação. Ele resume tudo a: o jogador não entrou, aqueceu, não entrou. Foi isto, porque JJ, aparentemente, não encontra outro motivo para tal. E se é esta a origem da situação, não pode ser simplesmente encarado dessa forma. Enfim, para terminar, eu reitero esta posição. É um capitão da seleção nacional que na véspera de uma partida oficial abandona o estágio, abandona o treino, abandona a seleção, abandona os seus companheiros e vai embora num avião particular. É só isto. É só isto e creio que a Federação Portuguesa de Futebol continua sem conseguir gerir o dossiê Cristiano Ronaldo, desde há uns anos a esta parte e hoje novamente com um capítulo pouco digno desta feita, assinada por Pedro Proença.
Filipe Coelho, Luís Pedro Coelho também, obrigado pelos vossos comentários. Os relatórios de jogo vão ficar disponíveis em observador.pt já daqui a pouco, depois da vitória de Portugal frente à Noruega, até parece que esquecemos aqui de alguma forma que Portugal venceu hoje, está nos quartos de final da Liga das Nações