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Continuamos a falar da morte do Papa Francisco e temos conosco em linha o Ministro dos Negócios Estrangeiros português, Paulo Rangel. Muito boa tarde. Obrigado por estar conosco na "Rádio Observador". Esteve em janeiro numa audiência com o Papa Francisco. Que memórias ficam desse encontro ainda neste ano de 2025?
Em primeiro lugar, deixe-me só dizer que, obviamente, em nome do Estado português, apresentamos condolências ao Estado Vaticano, à Igreja Católica e a todos os católicos portugueses, e também do mundo inteiro, e aos crentes e não crentes que têm no Papa Francisco uma referência moral. Justamente, desse meu encontro a 26 de janeiro, nessa manhã, tive realmente essa honra de ter 35 minutos a sós com o Papa Francisco. Falamos muito sobre a situação internacional. Eu chamo a atenção para esse ponto da referência moral. Quer dizer, de facto, houve tempos em que nós tínhamos muitas vozes no plano internacional com visibilidade mundial, que mostravam um grande empenho nas causas da paz, da justiça e dos direitos humanos. Hoje, de facto, neste tempo de complicação e agravamento da situação internacional, uma subida grande das tensões geopolíticas, a existência de vários conflitos altamente sangrentos em curso, na verdade, era uma voz que clamava no deserto. Eu recordo, por exemplo, nos anos 60, tínhamos Martin Luther King, Madre Teresa de Calcutá, o Papa Paulo VI, o Dalai Lama, todo um conjunto de figuras de reconhecimento universal. E hoje, de facto, numa situação de grande tensão internacional, das únicas vozes que se faz ouvir, com certeza que há muita gente no terreno a ajudar e a trabalhar pela paz em concreto nos sítios mais complexos, mas de facto, uma voz com esta capacidade de ser ouvida à escala universal, só estou a ver o Papa Francisco, não estou a ver mais nenhuma. E de facto, a sua perda é, por isso, obviamente, algo que torna ainda mais difícil a situação em que vivemos, porque ele tinha essa capacidade de falar com todos, mesmo com aqueles que estão contra o direito internacional e são promotores da guerra, mas com os quais, obviamente, figuras como o Papa, como um secretário-geral das Nações Unidas, têm sempre de manter pontes de diálogo, no sentido de os trazer para o lado do fim dos conflitos. Na verdade, eu penso que é uma perda muito grande. E essa personalidade apareceu e transpareceu nessa conversa, a sua preocupação, por exemplo, com os conflitos em África e com o papel que Portugal aí poderia desempenhar. Estou a pensar no Sudão, estou a pensar no Congo, que são as feridas mais expostas neste momento. O Sudão claramente o conflito mais terrível daqueles que estamos a viver, mesmo mais que Gaza, mais que a Ucrânia, em termos de perdas humanitárias e de situações de fome e de risco de vida, é de longe já o mais catastrófico que estamos a viver. E essa sua preocupação constante. Mas depois também uma figura desconcertante pela sua proximidade. Talvez um episódio anedótico, mas quando eu entrei e combinamos que falaríamos em espanhol, o Papa disse: "Sabe que há duas coisas que gosto muito em Portugal. A primeira, que estou muito ligado, é Fátima. E a segunda são os pastéis de nata." De facto, para dizer que tinha este sentido de humor, estava já debilitado fisicamente, embora nada que se compare com aquilo que vimos nos últimos dias, mas estava claramente, perfeitamente a acompanhar a situação internacional, um grande conhecimento da situação portuguesa e do papel que Portugal poderia desempenhar. E há uma exigência sobre essa nossa condição.
Queria pegar precisamente nesse aspecto. Primeiro, perceber, creio que estava a dizer isso no início, acabou por não ser percetível. Já houve um contacto do Ministro dos Negócios Estrangeiros português com o Vaticano, como acontece neste tipo de situações. Era uma boa relação de Portugal com o Vaticano, uma boa relação do Papa também com Portugal. Há uma ligação direta desta liderança do Papa Francisco com Portugal, uma vez que em 12 anos esteve duas vezes no nosso país, sendo que uma foi a Jornada Mundial da Juventude. Fica, de facto, Portugal com uma marca também daquilo que foi a liderança do Papa Francisco na Igreja Católica?
Sem dúvida, até por causa da nomeação de cardeais. Repare, o facto de Portugal ter neste momento seis cardeais, quatro dos quais eleitores, representa uma atenção a Portugal e à Igreja portuguesa sem paralelo. Isto não tem paralelo na história, nem a dimensão do país justifica a existência de seis cardeais e quatro eleitores. Por outro lado, se repararmos que ele não foi aos grandes países católicos, não foi à Argentina, que era a sua terra natal, não foi à Espanha, à França foi apenas a Marselha numa circunstância muito especial. Isto tem um significado profundo de uma relação com Portugal. E, evidentemente, o facto de haver cardeais que estão sempre próximos do Papa, de nacionalidade portuguesa, vários, incluindo um a trabalhar diretamente no Vaticano e com um cargo muito importante, porque é o prefeito para a Educação e para a Cultura, que é o cardeal José Tolentino de Mendonça, evidentemente que isso também cria uma grande proximidade ao país. Sobre isso não há dúvidas nenhumas. E as suas viagens, como disse, porque se compararmos com outros países de tradição católica, equiparada à portuguesa e até com um peso muito maior na Cúria Romana e na história da Igreja, pela sua dimensão demográfica, de facto, Portugal teve aqui uma espécie de atenção privilegiada do Papa Francisco. Sobre isso não há dúvidas nenhumas.