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Tudo o que contribua para minorar o sofrimento infligido ao povo palestino, em particular na Faixa de Gaza, é naturalmente uma boa notícia. É uma notícia que se saúda. Lamenta-se que tenha sido necessário tantas mortes, tanto sofrimento, tanta dor e tanta violência, mas que esse acordo tenha sido alcançado é, em si mesmo, um dado positivo. O que importa agora é que ele seja respeitado e a ver pelas centenas de violações do cessar-fogo assinadas entre Israel e o Líbano, há que ser prudente, porque Israel já mostrou por várias vezes, continua a mostrá-lo todos os dias, que não é uma pessoa de bem. Portanto, o que importa é que o cessar-fogo seja respeitado, que a ajuda humanitária chegue e seja distribuída sem restrições pelas agências das Nações Unidas, desde logo pela UNRWA, que as pessoas em Gaza se possam deslocar, que Israel se abstenha de atos provocatórios e que os reféns de um lado e do outro sejam libertados.
Queria lhe perguntar, analisando o acordo, o que lhe parece este acordo?
Nós conhecemos ainda pouco o acordo. Conhecemos alguns detalhes da primeira fase, mas não conhecemos os detalhes da fase dois e da fase três, que tanto quanto se percebe, irão começar a ser negociados durante a fase um. O que se sabe é que este acordo são, no fundamental, os termos de uma proposta apresentada em maio pelo presidente americano, que as forças da resistência palestina disseram que aceitavam e que Netanyahu e o governo de Israel se recusou a aceitar. Portanto, a pergunta que se deve fazer é justamente por que foi necessário tantos mais milhares de mortos, desde maio até agora, para chegarmos finalmente a este acordo. Mas se me permite, é importante ter presente o seguinte: nós estamos a falar de um cessar-fogo na Faixa de Gaza, não estamos a falar de paz. Ainda hoje Israel bombardeou o campo de refugiados de Jenin. A Palestina é só uma, a Palestina é mais ocidental. A Palestina é só uma. Portanto, ao mesmo tempo que estamos a falar desta notícia de cessar-fogo, que repito, é muito importante, é fundamental para a população palestina na Faixa de Gaza, é importante ter presente que o projeto de anexação e de colonização da margem ocidental está a desenvolver-se todos os dias, que a repressão está a intensificar-se na margem ocidental do rio Jordão e que isto significa a continuação das razões que nos trouxeram até aqui.
Durante a tarde, quando foi confirmado o cessar-fogo, o Donald Trump falou de ser uma grande vitória da eleição dele. Queria perguntar se tinha algum comentário sobre essa opinião e sobre a posição norte-americana.
Sim, as posições divulgadas, quer pelo presidente eleito, quer pelo presidente que está em final de mandato, Trump e Biden, mostram duas coisas. A primeira é que existe uma convergência estratégica fundamental das presidências Biden e das presidências Trump relativamente à questão Palestina, ou seja, todo o apoio à política de segregação, colonização, ocupação da Palestina, em desafio à legalidade internacional e às resoluções das Nações Unidas, a reafirmação agora feita dos acordos de Abraão significam justamente isso. Se nos recordarmos, foi à luz dos ditos acordos de Abraão que Trump reconheceu Jerusalém como capital do Estado de Israel, aceitou os colonatos como legais e Biden não alterou nada disto, manteve e aprofundou todas estas medidas. Mas o segundo aspeto que eu queria sublinhar é que este acordo com a intervenção de Trump mostra o seguinte: é que quando os Estados Unidos decidem que é para parar, para mesmo. Portanto, tudo aquilo que foi sendo dito por Biden, por Blinken e Kamala era falso. Os Estados Unidos são corresponsáveis pelo crime de genocídio que foi praticado durante estes 467 dias por Israel sobre a população palestina. E é muito importante reafirmar este aspeto. O cessar-fogo é muito importante, mas não absolve o crime. Foi praticado um crime de genocídio e quem o praticou deve ser responsabilizado nas instâncias internacionais, a bem do direito internacional, a bem do sistema das Nações Unidas, a bem da credibilidade do sistema das Nações Unidas. Caso contrário, estaremos no regime do mais forte E, portanto, o direito internacional não valerá. Ficaremos todos a saber, ficará o mundo a saber, que o direito internacional não vale coisa nenhuma e que o que vale é simplesmente a lei da violência e do mais forte.
Para terminarmos, Carlos, queria lhe perguntar sobre qual será o futuro da Palestina daqui para frente.
Estes 467 dias mostram da forma mais trágica que do futuro da Palestina depende a paz no mundo. A paz no mundo está suspensa da paz na Palestina e que só há paz na Palestina quando for respeitado o direito internacional, quando for reconhecido o direito do povo palestino a viver em liberdade e em paz na sua terra, quando for reconhecido, quando for efetivamente praticado o direito, que as resoluções das Nações Unidas já reconhecem, de retorno dos refugiados palestinos às suas terras, às suas casas. E só desse modo a Palestina viverá em paz e, nessa medida, o mundo estará também em paz. O continuado prolongamento da injustiça que é praticada sobre o povo palestino, constitui uma ameaça permanente à paz no mundo e Israel tem-se confirmado como o principal fator de instabilidade por via da sua política expansionista e de ocupação. Recordemos que, para além dos territórios palestinos, Israel ocupa uma parte do Líbano, alargou os territórios que já ocupava na Síria e prossegue uma política de ameaça contra os Estados da região. E, portanto, é fundamental que o direito internacional impere, que as resoluções das Nações Unidas se cumpram, a bem da paz que tão necessária é para esta região e para o mundo.