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João Tunes é director-geral da Médicos Sem Fronteiras Portugal. Muito obrigado por estar connosco na Rádio Observador. Temos recebido vários relatos de médicos nestas últimas horas a descrever a situação desastrosa na Faixa de Gaza. Eu propunha que, antes de começarmos esta conversa, ouvíssemos um desses relatos que nos foi enviado precisamente pela Médicos Sem Fronteiras. Depois pedia-lhe que comentasse. Vamos ouvir aqui um certo áudio que nos foi enviado da Claire Nicolay, coordenadora de emergência da Médicos Sem Fronteiras.
"This night at 2 a.m. we have been awake by the sounds of bombing, heavy bombing. It was absolutely terrifying for 20 minutes, with bombs all over the place. And when we started looking at what is the situation for the whole Gaza Strip, we understood that the massive attack with airstrike, heavy artillery, quadcopters, was for the whole Gaza Strip. After these 20 minutes, we continued to hear all night long some heavy bombing, some airstrikes, some artillery in Rafah, in Khan Yunis, in almost all parts of Gaza."
Face a este testemunho, face a este cenário, João Tunes, eu pergunto-lhe que condições é que as equipas médicas têm para continuar na Faixa de Gaza, tanto a nível de material como de infraestruturas?
Exatamente. Boa tarde, obrigado pelo convite e por nos darmos aqui a oportunidade de mais uma vez falarmos sobre esta situação. Na verdade, aquilo que ocorreu esta madrugada é um cenário que nos volta, que nos traz cerca de 15 meses atrás, o nível de violência da utilização de armamento pesado em áreas que estão fortemente com uma densidade populacional muito elevada, traz-nos outra vez a adjetivos que já estávamos um bocadinho desabituados a usar. Estamos verdadeiramente horrorizados. Eu acho que no seguimento deste testemunho que nos trouxe a nossa coordenadora de emergências que está presente no local, convém dizer que já estamos presentes em cerca de oito estruturas médicas, mais centros de saúde, mais hospitais montados pela Médicos Sem Fronteiras. E esta manhã os primeiros relatos que tínhamos já seriam de números que só nas instalações que estamos a trabalhar, cerca de 75 mortos e vários feridos graves, difíceis de descrever pelas equipas, porque são muitas mulheres, muitas crianças. Isso é uma das notas que nos deixam. No Nasser Hospital, onde estamos presentes, recebemos já cerca de 55 mortos logo pela manhã. Torna-se difícil um bocadinho aceitar estes dados, mas para além deste número, o que tentamos também trazer era o cenário de enorme confusão, de sofrimento, de certa vulnerabilidade até, uma situação onde voltamos a sentir que não estamos seguros em nenhuma parte dentro da Faixa de Gaza, qualquer sítio, qualquer estrutura pode ser atingida, mesmo o centro de saúde onde estamos a trabalhar no sul de Gaza foi atingido. Não tivemos nenhum ferimento nas nossas equipas, mas obviamente é uma sensação de enorme confusão, sofrimento. Nos hospitais, os ferimentos, estamos a falar de queimaduras graves, amputações, tudo num curto espaço de tempo e num espaço muito reduzido. Então famílias em pânico outra vez, depois de dois meses quase de safou. Obviamente estarmos aqui hoje a descrever essa situação é algo que nos deixa muito preocupados.
Ia-lhe perguntar precisamente a nível de estragos, a nível material dos sítios onde trabalham, as estruturas montadas até pelos Médicos Sem Fronteiras, há relato do nível desses estragos?
Podemos depreender por tudo aquilo que fomos ouvindo a nível de bombas, de bombardeamentos, algo que já tem sido utilizado. Da nossa parte importa muito também especificar alguma outra coisa, talvez um bocadinho mais para percebermos como é que trabalhamos. Obviamente, depois do safogo, deixou de haver essa notificação às ambas as partes beligerantes no conflito, onde uma equipa de Médicos Sem Fronteiras está a trabalhar no sítio X e vai sair da base Y e vai fazer esse percurso com o qual informamos que estamos a fazer esta deslocação ao terreno e obviamente temos a garantia da segurança. Obviamente, quando isto acontece, não houve qualquer tipo de notificação, há um safogo, uma trégua que está em vigor. Obviamente, não temos esse sistema de notificação e a primeira instrução que temos para também salvaguardar a segurança das nossas próprias equipas é que toda a gente está neste momento nas bases, não há deslocações nem movimentos de equipas das Médicos Sem Fronteiras. Os relatos que temos são das equipas que estão a trabalhar no turno da noite, porque obviamente são 24 horas no hospital, e que nos estão a trazer estes relatos, com o qual hoje em dia e esta manhã, há falta de maior informação e claridade sobre todo o processo que está a decorrer agora. Não temos essa capacidade, por razões de segurança, de movimentarmo-nos e percebermos um bocadinho em viva voz o alcance dos estragos. Mas respondendo à pergunta e contextualizar um bocadinho a metodologia de trabalho
E há relatos ou registo de feridos, até perdas humanas dentro do pessoal Médicos Sem Fronteiras?
Já tivemos a lamentar. Nove dos nossos colegas perderam a vida durante estes 15 meses de conflito. E lembramos que para a Médicos Sem Fronteiras estar a trabalhar em qualquer contexto, não é só dentro da Faixa de Gaza, que temos um acordo tácito, explícito de ambas as partes, com coordenadas GPS, informação diária, muito regularmente partilhada com todas as partes em que estamos a trabalhar neste sítio, vamos fazer este movimento, temos a aprovação de todas as partes para estar a trabalhar aqui e com o qual torna-se muito difícil de aceitar que tenhamos que, ainda assim, lamentar a perda de vidas dos nossos colegas, mas também de outros trabalhadores humanitários e mesmo do próprio pessoal de saúde. Neste momento, cinco das nossas estruturas, estamos em cerca de 12, 14 estruturas de saúde, dois hospitais, montámos dois hospitais dentro, seis centros de saúde, duas clínicas, uma dela no sul, em Rafah, foi sim atingida, mas sem efeitos, sem perdas ou sem consequências humanas para já.
E há médicos portugueses no terreno?
Somos cerca de mil trabalhadores, entre palestinianos e 40 internacionais. Não somos só médicos, trabalhamos em nome de profissionais da enfermagem, na área da saúde mental. Temos pessoal a entrar e a sair a cada seis, oito semanas, tendo em conta os turnos, é algo que é constante.
E há condições neste momento para a entrada de mais ajuda humanitária, de bens essenciais, tendo em conta este quebrar do cessar-fogo?
Esta é a grande pergunta. Não podemos dissociar que depois do cessar-fogo, a meados de janeiro, havia não só um processo em que teríamos que restabelecer a ordem natural das coisas antes deste conflito, isto é, quando entravam cerca de 500 caminhões por dia e que obviamente durante esses 15 meses nunca entrou o número nem perto disso, as necessidades acumuladas de todo este tempo, havia um bocadinho que restabelecer. E há, obviamente, a natural reconstrução. Imaginemos que está tudo arrasado, pois obviamente restabelecer aquilo que havia antes não é só suficiente, obviamente que havia uma necessidade de ampliar esta ajuda humanitária. Há cerca de uma semana soubemos, mesmo através do Estado israelita, que houve novamente este bloqueio, bloquear a entrada da ajuda humanitária. Por exemplo, a Médicos Sem Fronteiras, a última vez que temos registo de entrada de ajuda humanitária da nossa parte, eram três caminhões em finais de fevereiro e essencialmente material médico, combustível, todos esses bens básicos, pois desde este período já estavam claramente condicionados e agora a partir da situação de hoje em dia, caso, obviamente teremos que ver como é que vai tudo evoluir, obviamente que não vai ajudar em nada a entrada de ajuda humanitária.
Ou seja, nestes últimos dois meses em que esteve efetivado o cessar-fogo, a evolução não foi assim tão diferente para o que tinha sido nos meses anteriores?
Muito resumidamente, até 7 de outubro de 2023, a média, um dia mais, outro dia menos, era uma média de 500 caminhões por dia. Isto é, Gaza era fortemente dependente da ajuda externa. Quando houve o conflito, obviamente que este número nunca foi alcançado durante todos estes dias. Houve períodos onde entrou muito menos que esses materiais. Não é só uma questão de quantidade, é também aquilo que entra, items que possam ser considerados de dupla utilização, material cirúrgico podia ser muitas vezes parado e bloqueado na entrada. Então houve um processo onde entrou muito menos durante este período, até 19 de janeiro de 2025. São estes 13, 14 meses onde o conflito estava a surgir. E a partir deste, em que ao cessar esta trégua, voltou-se a restabelecer o que era anteriormente, cerca de 500, talvez um pouco mais, 600 caminhões por dia, que há uma semana atrás, duas semanas atrás, voltou-se outra vez a ver esta restrição enorme, este bloqueio enorme. Então, a partir de duas semanas atrás, uma semana atrás, voltamos a ter as fortes restrições à entrada de ajuda humanitária.
Ou seja, ainda antes dos desenvolvimentos de hoje, de ontem à noite. Eu propunha que voltássemos a ouvir a Claire Nicole, que dá conta nestes áudios que nos foram enviados, também da situação da extração de doentes da zona da Faixa de Gaza.
"Unfortunately, we also understood that the medevacs, the medical evacuation has stopped for now, which means that normally every day there are a few patients that are going outside Rafah. This will not happen today and we don't know how it will continue."
João, todos os relatos que têm recebido vão neste sentido de que está cada vez mais difícil retirar doentes do enclave.
Exatamente. Quando falamos de medical evacuations, evacuações médicas, seriam pacientes cujo estado está de certa forma estabilizado, mas que estão necessitados de ter cuidados médicos que ou não estão disponíveis ou que neste momento, uma questão de números e de grande número de pacientes graves, pois têm que ser evacuados para outras localizações onde possam ter esses cuidados médicos. O que acontece, obviamente, derivado à situação de hoje em dia, os movimentos, por questões de segurança, também estão Não estão autorizados ou não os poderemos fazer. E tudo aquilo que podia ser uma movimentação de ir de um sítio A para um sítio B, neste caso estamos a falar de evacuações, saída do hospital, de uma ambulância especializada levar esse paciente para fora da Faixa de Gaza, obviamente que será uma consequência direta derivada à instabilidade e à situação de forte insegurança que está a acontecer. É uma consequência óbvia, porque obviamente as pessoas não se vão sentir capazes. Temos de pensar em coisas tão mínimas como o condutor dessa ambulância. As condições em que esse hospital nos possa fazer tudo, como podemos fazer essa evacuação médica. Questões tão simples e do dia a dia que se tornam verdadeiros desafios nesse tipo de atividades.
E sendo assim, sendo quase impossível retirar estes doentes que precisam mesmo de sair do enclave, que consequências é que isso pode ter em termos de perdas humanas, por exemplo?
A nível médico, o que vai acontecer é que se não há o número de camas disponíveis, se não foram libertadas para estes pacientes, se não forem evacuados, o critério médico vai apertar cada vez mais. Quem é que vai ser o paciente mais grave, a vida que tenha a maior probabilidade de ser salva. Todos estes critérios, não só a necessidade do próprio doente, mas a restrição física e de meios, sendo como um principal critério para prestar cuidados de saúde, é algo que é extremamente perverso. Temos que perguntar a um médico, não para fazer o melhor possível para salvar aquela vida, mas em função da situação e do contexto que tem, o que é que poderá fazer, que escolhas difíceis terá que fazer para salvar vidas. E isso obviamente que trará um número direto, impacto direto na mortalidade e não há outra maneira de o dizer. Não dá como fazer as coisas continuarem quando as restrições são imensas.
Recebemos também o relato de que têm chegado às equipes no terreno corpos, partes de corpos. Isto é mesmo assim?
É a tal descrição gráfica que às vezes temos um bocadinho de dificuldade de descrever. Porque imaginemos num bombardeamento com artilharia pesada, tendo em vista que as pessoas estão a viver em contexto familiar, famílias, irmãos, filhos, primos, avós, pais e tudo, muito facilmente tens 15, 20 pessoas a viverem no mesmo aglomerado e obviamente quando há uma bomba e onde há um claro atingir estas pessoas, a consequência direta faz com que esse acervamento faça com que haja estas descrições. As pessoas acabam por ser mortas, acabam por ser mutiladas e tudo aquilo que chega ao hospital é uma consequência direta de tudo isto. Quando dissemos que hoje de manhã recebemos cerca de 55 mortos só no hospital de Nasser e 113 feridos. Num outro hospital, do Al-Aqsa, onde estamos a trabalhar, recebemos 20 pessoas já sem vida e quase 70 feridos graves. Um ferido grave não é só alguém que tem uma ferida, é alguém que está realmente num estado de saúde muito difícil e essas descrições diretas já são claramente uma consequência disso mesmo.
Eu pedia-lhe então, se conseguisse fazer um resumo do que lhe tem chegado nestas últimas horas a nível da sobrecarga das perdas humanas, dos estragos. Consegue fazer um resumo do que tem chegado desde ontem à noite?
Já aqui falámos um bocadinho nas consequências diretas a nível físico. Acho que uma também muito importante e que não pode ser desvalorizada, temos que pensar que há uma população de cerca de dois milhões de habitantes, que esteve a viver durante 15 meses sob bombardeamentos constantes, indiscriminados, não há outra forma de eu dizer, quase 50 mil vidas. A partir do momento em que houve esta trégua, a partir de meados de janeiro, em que muitas destas pessoas, e nós vimos isso todos na televisão, que saíam de uma certa zona, muitos deles para norte de Gaza, tentarem um bocadinho restabelecer a sua vida normal, de repente e de um dia para o outro, encararem este grau de violência e estas palavras que já estão a correr hoje pelos meios de comunicação, é um impacto brutal naquilo que é saúde mental, naquilo que são expectativas, naquilo que é a vida destas pessoas. E isso, mais que palavras que estejam aqui a dizer, isso sente-se muito no terreno. Sente-se este nível de desespero, este nível de ninguém nos pode ajudar. Por mais que as organizações como Médicos Sem Fronteiras estejam presentes, cada vez mais com esta vontade de querer estar e entregar o máximo possível, em muitos contextos é verdadeiramente assustador. E essa desesperança, da minha experiência também, quando trabalhei muitos anos também nesse tipo de contextos, é algo que se sente, é algo que se vive e é algo obviamente que não nos deixa indiferente e isso é uma das consequências que certamente vai predominar nestes próximos dias. Para além de todas aquelas vidas que temos a lamentar, que já se estão a perder durante o dia de hoje, já se fala em algumas centenas, imagine-se. E isso é um efeito devastador na dignidade, até diríamos assim, na vida destas pessoas.
E quando fala em efeitos na saúde mental A esperança de que num futuro breve ou no futuro, simplesmente, a situação possa mudar.
Uma certa desesperança, muitas vezes a testemunhar a perda de vidas de muitas pessoas queridas, familiares, amigos, vizinhos. Um cenário de total destruição, onde já nada quase está de pé, onde os hospitais já são também eles mesmos atingidos, onde mesmo as organizações internacionais não conseguem trabalhar por restrições de segurança, como aquelas que eu falei no princípio desta conversa, mas também porque não conseguem trazer os bens, equipamentos, medicamentos e os combustíveis para trabalhar. Se não houver combustível, não há água, não há água, as pessoas têm que viver de qualquer forma. E tudo isso junto dá este cenário de uma grande crise humanitária que mesmo a própria Médicos Sem Fronteiras, nestas cinco décadas, e temos estado presente nos maiores conflitos armados, custa-nos sempre descrever, mas temos que o fazer por este testemunho e presença no terreno, por estar presentes dia a dia e 24 horas a trabalhar nestas estruturas de saúde, em contato com os nossos colegas e com a população da Faixa de Gaza, temos que o trazer.
E nesse sentido, e para terminar, João Antunes, tem algum apelo que queira deixar a quem é responsável por estes ataques, a quem faz parte deste conflito e também à comunidade internacional?
A população civil nunca pode ser um alvo em qualquer conflito. Eu acho que foi uma das maiores conquistas nas últimas décadas, saber que obviamente uma clara separação daquilo que eram os conflitos armados de uma população civil. Trazer de uma forma tão leviana, outra vez esta punição coletiva, este castigar uma população inteira, custa-nos bastante a aceitar. Daqui que temos obviamente que pedir, que exigir um cessar-fogo, não só ao Estado de Israel, mas todas as forças e os governos que tenham capacidade de influência. Que se acabe esta punição coletiva, que se deixe entrar de uma vez por todas os abastecimentos necessários às vidas destas pessoas e que não se volte a utilizar os mesmos instrumentos e ferramentas de guerra que se utilizaram nestes últimos 15 meses.
Para que as equipes médicas no local possam trabalhar, é essencial um cessar-fogo?
É essencial um cessar-fogo. Não temos condições de segurança para trabalhar em muitos destes sítios. Não conseguimos, muitas vezes. Estivemos sem ir ao norte de Gaza durante meses, onde tínhamos uma clínica a funcionar. Se não conseguimos, temos que racionar medicamentos. Imagine, para este sim, para este não, não em função do estado do paciente, mas em função daquilo que nós temos no armazém e nas farmácias, pois obviamente nós estaremos aqui a trabalhar segundo aquilo que queremos e podemos. Porque isto aqui também convém dizer, uma organização como a Médicos Sem Fronteiras, que é quase totalmente financiada por pessoas, não temos fundos governamentais, uma organização dita independente e que proclamamos essa independência e esse trabalho em função daquilo que encontramos e vemos no terreno, pois que sejamos condicionados por instrumentos de guerra, não faz sentido e não é isso que diz a lei humanitária internacional. E o Estado de Israel, como força ocupante, tem o dever de garantir que as populações civis desta área recebam a melhor atenção e os melhores cuidados possíveis.