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Esteve nas comemorações em memória das vítimas do Holocausto em Auschwitz, na Polónia. Pergunto-lhe uma primeira reacção, como é que foi esta cerimónia e quais é que foram os momentos mais marcantes daquilo que pôde assistir?
Foi extraordinariamente marcante e foi o mais emocional por várias razões, uma das quais foram os três sobreviventes que discursaram e a mensagem deles, sendo que a mensagem é que agora vivemos um tempo em que isso nunca mais não é verdade. Há um ressurgimento enorme do antissemitismo na Europa e no mundo e atendendo a esse ressurgimento, os sobreviventes que estavam lá sentiram que um Holocausto pode voltar a acontecer, porque poderá haver terreno fértil e organização para isso. E é um alerta extraordinariamente forte. Estiveram presentes vários reis e rainhas da Europa. Aliás, creio que todas as famílias reais europeias estiveram representadas. Estiveram lá vários presidentes, vários primeiros-ministros. Nós estivemos representados pelo ministro António Leitão Amaro, a quem agradeço a sua presença, sinceramente. Há cinco anos atrás, o presidente Marcelo esteve nas comemorações em Jerusalem e o ministro dos Negócios Estrangeiros esteve na cerimónia em Auschwitz. Desta vez foi o ministro da Presidência e de Estado que esteve presente. E foi importante ser ele para ouvir os alertas de quem viveu os horrores há 80 anos e de quem se foi libertado há 80 anos, para saber que isso pode voltar a acontecer. E ficava a todos nós e cada um de nós, a título individual e colectivo, combater o ressurgimento do antissemitismo, o discurso de ódio e manter os valores humanos sempre presentes, que é fundamental.
António Guterres também falou hoje, diz que a negação deste tipo de horror aumenta precisamente o risco de uma repetição. Tendo em conta o contexto mundial, nomeadamente o crescimento da extrema-direita e, por exemplo, o apoio de alguns oligarcas, lembro-me agora, por exemplo, do Elon Musk, que manifesta apoio à AFD alemã, tem receio deste tipo de movimentos que estão a crescer, nomeadamente na Europa, que representem um perigo tanto para a Europa como para o resto do mundo, no que toca ao antissemitismo e à repetição de um fenómeno como este?
Eu tenho receio de todas as formas de extremismo, tanto de extrema-direita como de extrema-esquerda. Aquilo que se tem visto mais, de forma mais às claras agora, é o antissemitismo da extrema-esquerda, não da extrema-direita. A extrema-direita também está lá, mas está encapotada. Da extrema-esquerda não está encapotada, está presente e evidente e qualquer um pode ver. Basta não fechar os olhos. É grave, é muito grave.
E que significado é que o dia de hoje, na sua opinião, teve também para a comunidade israelita, mesmo para os mais jovens que já não assistiram aos horrores do Holocausto?
Esta é capaz de ser a última cerimónia onde sobreviventes estiveram vivos, estiveram presentes. Houve um senhor de 98 anos que esteve presente e houve algumas pessoas de 80 e poucos anos, tendo sido libertados há 80 anos, quem era bebê ou criança pequena, já tem 85, 86. São poucos os sobreviventes ainda vivos. E também os guardas que estiveram presentes. E ontem estive a assistir a um documentário onde filmaram guardas do Laurence Rees da BBC, que esteve a falar conosco, e ele a falar dos guardas SS que tinha entrevistados, e nota-se que 80 anos depois não estão arrependidos e voltariam a fazer a mesma coisa. É horrível.
É impensável no século XXI.
Aí é que está o problema, é que é pensável e se nós não tivermos cuidado, pode voltar a existir. A banalização da palavra genocídio que se vive nos dias de hoje é horrível. Existe uma definição. A banalização da palavra é péssima e é o que se está a ver nas notícias diariamente e nos comentários às notícias.
Refere-se à Faixa de Gaza?
Estou-me a referir neste momento à Faixa de Gaza, mas ao banalizar o termo genocídio, estamos a desrespeitar todos os genocídios, não só dos judeus no Holocausto, mas o genocídio dos arménios feito pelos turcos, o genocídio no Ruanda e na antiga Jugoslávia também, além dos iunos. Portanto, não podemos banalizar a palavra. É uma acusação de um termo extraordinariamente sério para se banalizar. É claro que em termos políticos dá jeito usar, mas não se pode, em memória de todas as vítimas de todos os genocídios, banalizar a palavra.
E portanto, para finalizarmos, qual é que é a mensagem que acha que fica desta cerimónia dos 80 anos da libertação destas pessoas que estavam no campo de concentração de Auschwitz? É precisamente esse alerta que fica agora para estes tempos que aí vêm?
A lição que temos que ter é que os extremismos são avessos à humanidade e temos que manter os nossos valores humanos, do ser humano, do respeito mútuo pela outra pessoa, pelas diferenças que existem, é fundamental. Caso contrário, podemos ter outra desgraça destas. E é terrível. E que o antissemitismo está a crescer e que é preciso combater o antissemitismo à semelhança de todas as formas de ódio que existem.
E uma ponderação por parte do governo de Israel acredita que também pode contribuir para combater o antissemitismo? Estou aqui a lançar-lhe uma provocação.
Em primeiro lugar, temos que ser muito objetivos. Não se pode confundir um governo com o primeiro-ministro, misturar aquilo que é um governo com o povo do país e não se pode considerar que todos os judeus são responsáveis pelas ações de Israel, que é o que está a acontecer. E isso, ao abrigo da definição do International Holocaust Remembrance Association, o IHRA, da qual Portugal é signatário, fazer essas confusões é ser antissemita. Está lá explícito. Agora, em relação às políticas do governo de Israel, é um governo democraticamente eleito e certamente nas próximas eleições, quando elas forem, será julgado nas urnas eleitorais