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E junta-se agora a nós o economista Miguel Faria Castro, um dos economistas que ontem esteve reunido com António Costa. Miguel Faria Castro, muito boa tarde.
Olá, boa tarde.
Obrigado por se juntar a nós na Rádio Observador. Depois da reunião de ontem, já é possível começar a pensar na reabertura da economia?
A reunião foi exatamente sobre isso. Ainda não é claro e penso que uma das principais mensagens, apesar de estarem lá vários economistas com escolas diferentes e, em princípio, com ideias muito diferentes, acho que houve algum consenso de que, de facto, não é possível efetivamente reabrir a economia, a menos que haja bastante confiança por parte dos agentes econômicos de que a situação está sob controle. Ou seja, o governo não pode simplesmente reabrir a economia por decreto, porque vamos supor que de repente decidimos reabrir todos os restaurantes e hotéis. Isso não vai necessariamente levar a que o consumo seja reaberto e sem o consumo a funcionar, a economia não vai reabrir.
Mas, Miguel Faria Castro, a ideia generalizada que saiu ontem deste encontro foi de que é preciso continuar a ter prudência e aguardar. Porque parecem ser cada vez maiores as vozes que estão a pedir uma reabertura, ainda que progressiva, desta atividade econômica.
Sim, eu acho que devemos certamente pensar numa reabertura progressiva, mas devemos ter condições técnicas e logísticas para levar a cabo esse tipo de reabertura progressiva. E eu penso que até conseguirmos ter capacidade de fazer test and trace, capacidade de testar em grande escala, vai ser difícil reabrir progressivamente, porque, de facto, não podemos obrigar as pessoas a sair de casa e ir consumir.
Miguel, no final de março, falamos também aqui na Rádio Observador, me disse que tinha a esperança de que conseguíssemos evitar uma crise econômica. Isso, neste momento, já é inevitável, até com as previsões que agora foram surgindo. Já é certo que uma crise vai atingir os países um pouco por todo o mundo.
Eu penso que uma das coisas que eu disse no outro dia aqui é que, de facto, vai haver uma grande recessão, de qualquer das formas. Isso é um dado adquirido. A principal questão é qual é que vai ser a persistência dessa grande recessão, quanto tempo é que isto vai durar. E, naturalmente, quanto mais tempo durar o lockdown e quanto mais tempo durar o fecho da economia, mais permanentes serão as consequências de longo prazo. Mas no curto prazo, a economia tem que fechar, porque a situação de saúde pública tem que ser controlada. Vai tudo depender da persistência e de quanto tempo é que levará até conseguirmos ter a capacidade de, de facto, controlar a situação de saúde pública. Porque se esta não for controlada, e dadas as características e a composição setorial da economia portuguesa, que é muito focada em hotelaria, restauração e turismo no geral, não é claro que a economia se recuperará rapidamente se a situação de saúde pública não estiver controlada.
Era isso que eu ia perguntar. Há setores que são mais urgentes reabrir do que outros, tendo em conta a economia portuguesa? Isto porque tem essa questão, por exemplo, do verão. O primeiro-ministro ontem também aqui entrevistou a Rádio Observador, falou na questão das férias para as pessoas esperarem mais umas semanas. Pode ser que ainda dê. É um sinal de que há setores que são muito mais urgentes, se calhar, do que outros.
Pois, é de facto uma situação complicada, porque a economia portuguesa está muito exposta a setores relacionados com o turismo. E o turismo é uma das indústrias que vai ser mais afetadas pela atual situação de saúde pública. E uma vez mais, não é uma coisa que eu acho que possa ser reaberta por decreto. Não é que o governo possa dizer amanhã: "Olha, vamos reabrir tudo." Isso não vai ajudar o setor. Aliás, a minha opinião é que até pode desajudar se a reabertura for feita demasiado cedo, porque se eu souber que ainda há pessoas por aí com a doença e eu não quero apanhar a doença, eu não vou garantidamente para hotéis nem para restaurantes. Enquanto que se a reabertura for feita de forma mais cuidada e com mais garantias de que, de facto, a situação de saúde pública estiver controlada, eu acho que isso levará a um estímulo muito mais efetivo da procura, principalmente da procura por esse tipo de serviços.
E conseguirá a economia portuguesa, e até com a ajuda agora das linhas de apoio que têm vindo a ser anunciadas, aguardar por esse momento ideal?
Pois, é uma excelente questão e uma vez mais vai ao encontro aquilo que eu disse, que vai depender muito da persistência deste choque, porque no curto prazo acho que é consensual que o principal objetivo das políticas públicas e do governo deverá ser criar condições para manter tanto a oferta como a procura mais ou menos intactas. E por oferta, estou a falar de capacidade produtiva, estou a falar de empresas, e por procura, estou a falar da situação financeira das famílias. Portanto, acho que é consensual que no curto prazo, o objetivo do governo é, de facto, oferecer ajuda às empresas para garantir que elas se conseguem manter líquidas e também oferecer ajuda às famílias, de forma a garantir que ninguém passa fome. Agora, isto é o que o governo tem que fazer no curto prazo. Mas se isto são políticas boas para seguir no médio e no longo prazo, vai depender muito da duração da situação, porque o governo não pode continuar a fazer isto para sempre Principalmente o governo do país, como Portugal, que naturalmente enfrenta várias restrições a nível de finanças públicas, não tem recursos ilimitados para gastar com isto. E outra questão, também mais do médio e longo prazo, também foi discutida ontem, é se de fato não terá de haver uma alteração grande e profunda da estrutura da economia portuguesa, que neste momento é uma economia que está muito virada para o turismo, mas não é claro que a indústria global do turismo vá recuperar alguma vez deste choque. Portanto, há a possibilidade de que a economia tenha que levar a cabo uma reconversão no médio e longo prazo.
Era isso que eu ia perguntar. Essa adaptação terá que ser feita pelas próprias atividades econômicas, por exemplo, os muitos setores que agora estão destinados ao turismo, terão que se reconfigurar para outros setores.
Sim, penso que vai tudo depender, uma vez mais, da duração desta situação e também da evolução global da situação. Porque se continuam a surgir instâncias do Covid-19 por todo o mundo, obviamente vai haver uma contração geral da procura por viagens e por turismo por parte de toda a gente. E naturalmente o país vai sofrer com isto. Penso que um dos desafios principais no médio e no longo prazo, e que nós discutimos bastante ontem, é como levar a cabo essa reconfiguração da economia portuguesa e qual o papel do governo em, por exemplo, reconverter a força de trabalho. Por exemplo, essas pessoas todas que trabalham neste momento em indústrias direta ou indiretamente relacionadas com o turismo, como é que podemos tirar partido das capacidades e das competências dessas pessoas e ajudá-las a alterar a sua carreira e o seu estilo de vida?
Ainda hoje o secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares referiu isso, a possibilidade de alguns trabalhadores do turismo poderem agora, numa primeira fase, ir para outros setores onde seja mais necessária a mão de obra para essa retoma econômica. Miguel Faria Castro, eu perguntava-lhe se agora, e porque o ministro das Finanças também já referiu isso, se Portugal está mais bem preparado para enfrentar uma recuperação que vai ser preciso fazer. Vai ser possível fazê-la mais rápido do que, por exemplo, face à da última crise?
Peço desculpa, pareço um fonostragado.
Porque depende da duração desta, não é? Desta crise.
Exatamente. Eu acho que vai depender muito da duração, porque se a coisa estiver controlada daqui a um mês, digamos, no final do segundo trimestre... Aliás, não sei se viu o inquérito especial que o INE e o Banco de Portugal fizeram às empresas ontem, que foi publicado ontem.
Sobre a liquidez das empresas.
Exatamente. E acho que os resultados são realmente encorajadores, na medida em que não parece haver muitas empresas que foram destruídas e também parece que estão a usar bastante o regime do layoff, em vez de simplesmente levar a cabo despedimentos de longo prazo. Isso quer dizer que, para já, até agora, parece que a economia tem tido algum sucesso em manter a estrutura produtiva intacta. Agora, naturalmente, as empresas não podem viver para sempre assim, com esta situação. E se a coisa for resolvida, digamos, daqui a um mês ou assim, então parece que não houve, de fato, muitos danos permanentes e simplesmente a economia poderia reabrir e voltávamos tudo business as usual. Voltaríamos todos para os nossos empregos, voltaríamos a ir aos restaurantes, ir aos supermercados, etc. Agora, o problema é que se isso se prolongar por mais tempo, então começam a sair mais empresas, começamos a perder capacidade empresarial, começamos a perder capital específico em relações entre trabalhadores e empresas, e isso vai ter, naturalmente, consequências de longo prazo e vai envolver uma recuperação mais lenta. Portanto, eu acho que vai depender muito da duração do choque.
E Miguel Faria Castro, eu queria colocar-lhe agora aqui uma questão, que não sei se esteve na ordem da reunião que ontem teve, a discussão da reabertura da economia portuguesa, não sei se esteve em cima da mesa, porventura poderá ter estado, a questão europeia. A questão de uma ideia de reabertura concertada entre os vários países europeus para, de certa forma, dar alguma normalidade àquilo que é o mercado europeu e os seus movimentos. Esteve em cima da mesa essa discussão?
Algumas pessoas referiram isso, mas não foi um dos tópicos principais. Mas parece natural que terá de haver alguma coordenação entre diferentes países em relação à abertura, porque nós vivemos no mercado único. Por enquanto, ainda há livre circulação de pessoas, bens e capitais, e acho que não é possível levar a cabo uma reabertura com sucesso, em termos de política de saúde pública, sem coordenação.
Miguel Faria Castro, deixe-me perguntar sobre os Estados Unidos, é onde trabalha, está na Reserva Federal dos Estados Unidos. Como é que a situação do desemprego, sobretudo, está a ser vivida aí, se já há uma grande preocupação ou se essa recuperação, lá está, se a pandemia não durar muito mais, se for possível controlá-la a curto prazo, se essa recuperação vai ser possível também fazer a curto prazo. Porque para já os números que temos são assustadores pela dimensão, não é?
Sim, os números que temos são assustadores, mas também acho que há aqui várias qualificações que têm que ser feitas. Os números que nós temos visto são basicamente número de pessoas que se candidatam a subsídio desemprego. E os critérios para atribuição do subsídio desemprego aqui nos Estados Unidos são diferentes e são um pouco mais relaxados do que os critérios para atribuição do subsídio desemprego em Portugal, por exemplo. Portanto, muitas dessas pessoas que estão a candidatar a subsídio desemprego, os tais 17 milhões nas últimas três semanas, são pessoas que estão, por exemplo, em regime de layoff Eu conheço pessoalmente várias pessoas que foram basicamente enviadas para casa pela empresa, não foram despedidas. A empresa disse a eles: "Tu vais para casa, nós não te podemos pagar enquanto tanto, mas daqui a dois meses voltas." Essas pessoas podem se candidatar ao subsídio de desemprego. Esse é o primeiro ponto, penso que os números não são completamente comparáveis. Depois também há a questão que a economia americana, em muitos aspectos, é mais dinâmica do que a economia portuguesa e do que a maior parte das economias europeias. E uma vez mais, isto vai depender da duração do choque, porque aquilo que eu disse para Portugal de quanto maior for a duração do choque, maior o potencial para que este choque cause danos de longo prazo na economia, isso também se aplica aos Estados Unidos. Porque quanto mais tempo as coisas estiverem fechadas, mais empresas são destruídas, mais relações entre empresas e trabalhadores são destruídas, e isso é um tipo de capital que é bastante importante para a economia e que não pode ser criado de um dia para o outro. Portanto, também vai depender muito da duração do choque. Mas queria só deixar a qualificação de que os números são assustadores e não têm precedente na história recente dos Estados Unidos, mas não são tão horríveis como parecem à primeira vista e não são de todo comparáveis aos números que nós vemos na maior parte dos países europeus.
Por esse dinamismo da economia. Miguel Faria e Castro, já que entramos na reta final, deixa-me perguntar: as previsões do FMI saíram ontem e apontam para uma queda de 8% do PIB português e cerca de mais de 3% a nível mundial. São números que vão em linha com o esperado pela maioria das entidades oficiais ou no caso português, são ainda piores? O Banco de Portugal tinha uma previsão de queda inferior àquela que foi divulgada ontem.
Uma vez mais, esta é a melhor resposta a todas as perguntas que me está a fazer, mas penso que uma vez mais, tem muito a ver com a duração. E quando esses números do Banco de Portugal saíram, penso que foi no início de março, ainda não tínhamos bem a noção do quanto tempo é que isto iria durar e ainda havia a possibilidade de se calhar no fim de abril, podermos reabrir as coisas sem grandes danos de longo prazo. Agora estamos a começar a perceber que não vai ser bem assim e, portanto, naturalmente as previsões pioram. E outra coisa que eu quero enfatizar é que é perfeitamente expectável que numa economia, uma vez mais, que está tão exposta ao turismo e está tão exposta a serviços que envolvem contato físico intensivo, e que são o tipo de atividades econômicas que são mais afetadas de longe pelo lockdown, acho que é completamente de se esperar que a economia portuguesa tenha uma performance péssima durante o lockdown. Porque afinal de contas, é uma economia que está bastante exposta a esse tipo de atividades que têm que estar fechadas. Agora, a principal questão, acho que, uma vez mais, mais importante do que a performance no primeiro dos trimestres, que nós sabemos que vão ser necessariamente más, é de fato a duração do choque. E isto vai determinar não só o tipo de recuperação, se vai ser uma recuperação rápida ou mais lenta, e também a performance macro no médio e no longo prazo. E, de fato, os custos sociais de longo e médio prazo.
Devia ter existido aqui uma preocupação, nos últimos anos, de distribuir melhor esta questão do crescimento econômico em Portugal, de não estarmos focados tão só nessas atividades que exigem contato físico. Enfim, ninguém ia prever uma pandemia, mas até a nível geral, se a economia se devia ter distribuído melhor.
Eu penso que é uma questão muito complicada. Obviamente, ex post, depois do fato, a resposta é sim, a questão é se há um ano devíamos estar a pensar nisso. Como disse, esta era uma situação muito difícil de prever. Muito poucas pessoas consideravam a possibilidade de que uma coisa deste gênero acontecesse. E o fato é que o turismo tem sido uma das vantagens comparativas da economia portuguesa e faz sentido, portanto, que nós, enquanto país, nos especializássemos nisso. Eu sei que há algumas direções nesse sentido, mas também, apesar de tudo, a economia portuguesa é uma economia de mercado e não há uma política industrial muito musculada e, portanto, a economia portuguesa é aquilo que o setor privado em Portugal, de fato, entendeu ótimo fazer dadas restrições e dados alguns incentivos por parte de instituições. Portanto, acho que é uma questão complicada. E, de fato, estamos a sofrer neste momento com isso, mas penso que era uma situação muito difícil de prever. Portanto, eu não sei se teria sido possível fazer muito anteriormente a um custo relativamente baixo.
Miguel Faria Castro, para concluir, esta crise é em tudo diferente da crise de há 10 anos. Tem-se falado muito na receita da austeridade. É uma receita que se pode afastar agora no combate a esta crise?
Sim, isso foi outra coisa que foi discutida ontem, é que, de fato, o governo vai ter de gastar e a dívida pública vai ter de aumentar, porque tal como disse no início, acho que é relativamente consensual que o objetivo de políticas públicas no curto prazo será manter intáctas a oferta, a estrutura produtiva, as empresas, e manter intácta a procura, a situação financeira das famílias. E a única forma de fazer isso é o governo gastando dinheiro e, portanto, a dívida pública vai ter de aumentar, necessariamente. Penso que a austeridade, neste momento, não conheço nenhum economista sério que defendesse isso, porque de fato acho que hipotecaria uma recuperação rápida, caso o lockdown seja levantado no curto ou médio prazo.
Muito bem, Miguel Faria e Castro, muito obrigado por se ter juntado a nós nesta tarde aqui pela Rádio Observador. Até à próxima, muito obrigado.
Obrigado.
Miguel Faria e Castro, que é o economista português da Reserva Federal dos Estados Unidos, um dos muitos economistas que ontem esteve reunido com o primeiro-ministro para discutir a reabertura da economia portuguesa no pós-pandemia e até durante o período em que enfrentamos o surto.