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Connosco em estúdio está o jornalista do Observador João Francisco Gomes que acompanha de perto os temas da religião. Boa tarde, João.
Olá, boa tarde.
João, qual a importância do Papa pegar no tema da inteligência artificial nesta primeira encíclica?
O Papa Leão XIV já desde a sua eleição há cerca de um ano, tem vindo a dar a entender que a questão da inteligência artificial é um aspecto fundamental do modo como a Igreja Católica deve olhar para a realidade contemporânea. Acho que é muito importante assinalar um aspecto interessante desta encíclica. Ela foi assinada no dia 15 de maio deste ano, portanto, na semana passada, e esta data não é inocente. Basicamente, foi exatamente o mesmo dia em que, em 1891, portanto, no final do século XIX, o Papa Leão XIII, o último papa que tinha tido o nome Leão, publicou um documento muito importante pra Igreja Católica moderna, chamado "Rerum Novarum". O "Rerum Novarum" foi um documento que basicamente lançou as bases daquilo a que se chama hoje a doutrina social da Igreja. Qual foi o contexto desse documento? O contexto foi o tempo que se vivia naquela altura, o tempo que nós conhecemos como a segunda revolução industrial, que estava basicamente a transformar radicalmente o mundo do trabalho com as novas tecnologias na viragem do século. E o Papa o que disse, na altura, foi: a Igreja Católica não tem apenas que propor o seu pensamento de forma imutável durante dois mil anos, mas tem que saber ler o tempo de cada momento. E o Papa Leão XIV, que se inspirou diretamente nesse papa e nesse documento para todo o seu pontificado, como ele explicou logo no início, disse: tal como na viragem do século XIX para o século XX, a questão da segunda revolução industrial marcava de forma determinante o mundo humano e o modo como mudavam as relações humanas, as relações no trabalho, por exemplo, atualmente, a inteligência artificial tem esse papel, ocupa esse lugar e representa, de certa maneira, o maior desafio antropológico contemporâneo. E o que o Papa diz é: nós não podemos continuar a propor o pensamento cristão desenvolvido há mais de 100 anos pelo Papa Leão XIII para uma revolução industrial, que tinha características muito diferentes do tempo que hoje se vive. E, portanto, nesse sentido, o subtítulo da encíclica é muito significativo para a promoção da dignidade humana na era da inteligência artificial. O Papa Leão, para sintetizar muito brevemente o que ele passa nesta encíclica, o que ele diz é: apesar de toda a evolução tecnológica, apesar do desenvolvimento da inteligência artificial e das capacidades desta nova tecnologia, temos que perceber o que a inteligência artificial é e o que não é. E o que não é: não tem uma consciência moral, não tem capacidade afetiva, não é humana. E não sendo humana, poderá ajudar os humanos, mas nunca poderá ser o que os humanos são. E é a partir dessa reflexão muito ontológica sobre a humanidade, que o Papa parte para depois um conjunto de outras reflexões sobre que funções a inteligência artificial pode ocupar nos dias de hoje, pode ou não tomar decisões, e depois uma grande parte do documento é dedicada a esta questão da guerra, pode ou não ter um papel nas guerras modernas, nas guerras contemporâneas. E eu acho que ele, olhando para o mundo de hoje, faz um documento muito focado, em primeiro lugar, na questão da inteligência artificial e como isso se relaciona com a questão das desigualdades, com a pobreza e com o desenvolvimento humano, mas ao mesmo tempo com a questão da guerra.
E essa é outra mensagem que também fica desta encíclica.
Claro. O último capítulo é totalmente dedicado à questão da guerra e óbvio que ele diz muitas coisas que já disse sobre a crise do multilateralismo, etc. Mas ele a dada altura diz: no mundo de hoje, marcado pela inteligência artificial, em que de repente estamos a caminho de uma realidade em que já podemos ter cadeias de decisão totalmente automatizadas, sem a intervenção do homem naquilo que para a Igreja sempre foi o último recurso possível, a ideia de lançar a guerra contra outro povo. Nesse sentido, a antiga tese teológica da guerra justa, que tem raízes em Santo Agostinho, etc, está completamente ultrapassada. No lugar da teoria da guerra justa, neste momento a Igreja tem que propor mais o perdão do que a ideia de lançar a guerra por uma causa justa. Obviamente, isso não elimina, e o Papa di-lo claramente, a questão da legítima defesa continua a estar aqui, obviamente, patente. Mas ele faz uma interpretação muito minimalista e muito restrita daquilo que é a legítima defesa. E, portanto, ele diz que o conceito de guerra justa, no mundo de hoje, já não faz sentido.
João Francisco Homos, muito obrigado por teres nos trazido a ajudar a perceber melhor esta primeira encíclica do Papa Leão XIV e, de resto, pode ler, está em manchete no nosso site, o artigo do João precisamente a resumir um pouco daquilo que é o primeiro documento programático de Leão XIV.