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Em direto connosco, Rui, boa tarde. Há um impasse nesta contraofensiva ucraniana. Hoje andaste por Borodyanka, estiveste junto à fronteira com a Bielorrússia. Como é que nos podes descrever as movimentações ucranianas neste momento?
É verdade, Vanessa, esses sítios por onde andámos hoje, não vamos revelar exatamente o trabalho que andamos a fazer, mas estive junto à fronteira com o João Porfírio da Bielorrússia, também mais ou menos a norte de Kiev, isto depois de já termos passado nos últimos dias pelo Donbass, pela zona da cidade de Dnipro, por Pavlograd e também por outras cidades no centro da Ucrânia. E o que se vê, de facto, é que existe alguma impaciência relativamente ao facto de a contraofensiva não avançar. Isso foi mais visível, obviamente, na linha da frente. O João Porfírio esta manhã, quando falava também na Rádio Observador, falava que estivemos a cerca de 16 km da linha da frente, ali próximo de Bakhmut. Eu creio que em alguns momentos até foi bem menos do que isso, talvez entre cinco a 10 km. E de facto, o que se nota ali, quando se fala com os militares, é que há uma grande dificuldade em avançar. Como dizia um ucraniano que percebe destes assuntos militares, quando estávamos no Donbass, era uma grande contraofensiva, mas a verdade é que estamos parados há três meses no mesmo sítio. E há também um pouco essa sensação. É muito difícil. Obviamente, quando nós ligamos o microfone e falamos com comandantes militares, para eles está tudo a correr muito bem, tudo dentro do previsto, mas depois quando se desliga o microfone, ouvem-se relatos que, por exemplo, quando começou esta contraofensiva, houve perdas maiores do que houve, por exemplo, em Bakhmut, que foi muito difícil para as tropas ucranianas. E, portanto, há essa sensação de que a contraofensiva está um pouco parada. Por isso é que também não têm existido tantas notícias de que a Ucrânia reconquiste este território e o outro, porque é muito difícil, porque as tropas russas fixaram as posições, principalmente na linha da frente, e é muito difícil essa progressão e que não está a ocorrer naturalmente ao ritmo que as tropas ucranianas queriam.
E hoje, Rui, há notícias da Ucrânia sobre Portugal. Volodymyr Zelensky deu uma entrevista à RTP, ainda só sabemos um ou outro destaque. Elogiou Marcelo Rebelo de Sousa pela presença na Universidade do PSD para falar a propósito da Ucrânia. Que leitura é que fazes desta ida de Marcelo Rebelo de Sousa à Universidade de Verão do PSD?
Vanessa, eu acho que Marcelo Rebelo de Sousa, de facto, conseguiu conquistar, e acho que nós também passámos isso nos artigos que escrevemos quando o presidente da República esteve cá, alguma empatia com Volodymyr Zelensky. O facto de falar em ucraniano, então, deixou-o totalmente derretido, porque há, e é preciso dizer, às vezes um sentimento nacionalista associado à língua. Acho que quem fala ucraniano às vezes até se sente muito desconfortável quando ouve alguém falar russo, embora uma boa parte da população fale russo, e há até quem fale uma misturada de ucraniano e russo. Isso, obviamente, eu não consigo detetar, mas as pessoas com quem trabalhamos, o nosso fixer, etc., vai nos dizendo e transmitindo isso. Portanto, o facto de Marcelo Rebelo de Sousa falar ucraniano deu força àquela vertente mais nacionalista de resistência, de apoio ao povo ucraniano nesta guerra contra a Rússia e, portanto, obviamente, que houve esse elogio. Depois, aqui entre alguns diplomatas e outros jornalistas ucranianos, etc., já aqui chamam a Marcelo Rebelo de Sousa o "The Beer Guy", porque a parte dele estar a beber cerveja apareceu nas notícias, nas televisões ucranianas e ficou associado como o presidente que está a beber uma cerveja na praça. Mas há alguma coisa a dizer sobre esse momento da cerveja, que Marcelo Rebelo de Sousa retratou uma parte da Ucrânia, em que estávamos aqui num raio, que é o qual que eu estou neste momento, que é bastante confortável em Kiev, que é um raio talvez de cinco km, em que se calhar há mais Patriots do que algumas reservas militares nos Estados Unidos e alguns pontos estratégicos militares dos Estados Unidos. Está ultraprotegido e obviamente que a vida aqui é muito diferente de outras zonas do país. E ainda ontem com o João Porfírio falávamos com uma pessoa que vive aqui em Kiev, a não muitos quilómetros de onde nós estamos, e que todas as noites quando toca a sirene, enquanto nós ficamos na cama, ninguém se dirige para o abrigo, porque está de facto ultraprotegido. Essas pessoas vão ao centro da sala, se for um míssil a levantar, se for um drone no ar, vão diretamente pra cave. Quando há escola nesses pontos, volto a dizer, é muito próximo, é três, quatro km do sítio em que Marcelo Rebelo de Sousa bebeu a cerveja. As pessoas vão pra dentro dos abrigos e ficam lá três, quatro horas e as crianças já vão diretas pra escola. Enfim, agora não há escola, porque só começa na próxima segunda-feira e essa realidade continua a existir, é um país em guerra. E a maneira como Marcelo Rebelo de Sousa vendeu pra fora foi precisamente que está tudo bem. Vamos ver. Estou curioso para saber o que é que vai dizer amanhã aos alunos da Universidade de Verão do PSD, que era essa a tua pergunta. Essa razão que é: eu vi o que Marcelo Rebelo de Sousa viu e também vi as outras coisas. E, portanto, vamos ver que tipo de Ucrânia é que ele vai vender à Universidade de Verão do PSD e estou muito curioso relativamente a isso.
Rui, e na imprensa ucraniana está a ser destacada a ausência de referências ao funeral de Prigozhin, o líder do grupo Wagner. Por aí, vocês vão notando que é um assunto que está a ser desvalorizado por uma questão de estratégia, porque a Ucrânia eventualmente pode achar que não altera em nada o rumo da guerra?
Sim, o que nós temos visto é que quando há grandes notícias de funerais nos jornais ucranianos, regra geral, são sobre ucranianos que morreram ao serviço do país. Ou seja, o funeral é o momento de glorificar os heróis que não foram glorificados em vida. "Slava Ukraini! Heroyam slava!", "Glória aos heróis!". Portanto, é um pouco a ideia de que o funeral é o momento de destacar os heróis. E Prigozhin para os ucranianos não é um herói, é alguém que está do lado de lá. E aí não há grande diferença. Obviamente ninguém o assume publicamente. Aliás, Volodymyr Zelensky até fez uma graça e disse que é melhor para nós que ele esteja morto, isto é positivo pra Ucrânia. E fez uma graça que é: quando nós pedimos ajuda com os aviões aos nossos parceiros e ao mundo inteiro, não era disto que falávamos. Até fez essa piada na conferência de imprensa com o Marcelo Rebelo de Sousa, mas pelo que nos vão dizendo, mesmo os comandantes militares, e nós temos falado com alguns por causa desse trabalho que estamos a fazer aqui e que será publicado daqui a uns dias no Observador, que a ideia é que as pessoas celebraram em surdina. Enfim, nas casernas houve uma pequena celebração imediata: "Olha, este morreu, está contra nós", mas não foi uma coisa que tenha motivado particularmente. Claro, do ponto de vista anímico, eles admitem que é sempre bom quando morre um dos rostos do lado de lá, mas do ponto de vista tática militar, não mudou grande coisa. Até porque a maioria deles não está bem a acreditar que os Wagner, neste momento, possam vir por aí adentro, pela zona onde nós estivemos esta tarde, ali no norte da Ucrânia, numa das fronteiras mais próximas com a Bielorrússia.