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Temos conosco, a partir de Fátima, o padre Joaquim Ganhão. Ele é diretor do Departamento de Liturgia do Santuário de Fátima, o que significa que é o responsável por preparar ao detalhe as celebrações que ocorrem no Santuário de Fátima. Ora viva, senhor padre Joaquim Ganhão, como está?

Boa tarde, obrigado.

O senhor padre tem sido responsável por organizar ao pormenor inúmeras celebrações no Santuário de Fátima. Por exemplo, quando o Papa Francisco veio a Fátima em 2017, também esteve à frente desse processo de preparar as celebrações. Mas diria que este ano foi a celebração mais desafiante de preparar no tempo que está no Santuário de Fátima?

Em certo sentido, tem razão, foi muito desafiante. Por outro lado, também não escondo que tudo que rodeou a visita e a peregrinação do Papa Francisco não foi menos desafiante. Talvez agora o apelo tivesse sido uma certa criatividade para saber ler o contexto e responder-lhe do ponto de vista também da celebração da fé e dos sinais da liturgia, sem dúvida.

Qual foi o maior desafio? Diria que é a falta dos peregrinos fisicamente?

Repare, nós aqui no Santuário temos uma consciência muito clara e viva de que o Santuário existe para os peregrinos. E desde a primeira hora, lembro-me perfeitamente, o dia 13 de março, quando iniciamos este confinamento, que o Santuário continuou a assumir essa sua vocação e essa sua missão de estar para os peregrinos e procurar chegar à casa dos peregrinos. Tem sido muito interessante, com tudo que isto nos causa, de desconforto e de saudades até das pessoas e das assembleias, mas tem sido muito interessante os ecos que, por exemplo, nos têm chegado de todo o mundo, de gente que acompanha as nossas celebrações deste modo virtual. Isto pra dizer que o Santuário assumiu também esta sua missão nesta fase. Não nos esquecemos dos peregrinos e procuramos chegar-lhes à casa. Ora, a preparação desta peregrinação insere-se, de certo modo, neste cuidado que nós temos vindo a intensificar nestes dois últimos meses.

Este fim de semana, foi numa entrevista, penso que à Agência Ecclesia, o reitor do Santuário lembrava que a missão de Fátima é precisamente esta, acolher os peregrinos e que sem esta dimensão, o Santuário acaba, no fundo, por se esvaziar um pouco. Isto é uma pequena provocação, mas como é que se faz o acolhimento dos peregrinos fechando a porta?

Repare, eu começo a sentir que o Santuário nunca esteve tão aberto aos peregrinos. Aliás, a preparação desta peregrinação, 12, 13 de maio de 2020, teve aqui algumas nuances e algumas novidades que não eram hábito. Isto é fruto daquilo que este tempo nos tem obrigado, esta tal criatividade para chegar às pessoas. Nós pedimos aos peregrinos que se fizessem peregrinos pelo coração, por exemplo. E para ter ideia, só nas nossas redes sociais do Santuário, sem ter em conta aquelas redes que replicam também esta oferta, esta iniciativa do podcast diário durante estes últimos nove dias até amanhã, já atingiram só nas nossas redes sociais 500 mil, o que supera até o número que às vezes temos no recinto de oração do Santuário. Efetivamente, isto não nos resolve a questão. Neste sentido, o nosso desejo é ter o Santuário cheio de gente, sem dúvida. Mas nesta hora, a responsabilidade a que somos chamados e o cuidado das pessoas a que o Santuário também é chamado, não nos permite fazer de outro modo. E então socorremo-nos destes modos.

Já há alguns anos que o Santuário de Fátima se viu obrigado também, até pelos pedidos que recebia dos peregrinos, a instalar, por exemplo, aquela câmera 24 horas na Capelinha das Aparições. Isto já vos dava um sinal de que as pessoas, mesmo estando longe, querem acompanhar aquilo que se faz no Santuário de Fátima e isso agora também já vos traz uma maior flexibilidade para se adaptarem num período como este.

Sem dúvida, o Santuário é cada vez mais um lugar para o mundo todo. Como disse, acompanhei a visita do Santo Padre Francisco, a última, mas estou aqui no Santuário a coordenar este serviço da liturgia desde o mês de setembro, de uma maneira mais continuada. E de fato, tem-se aqui a percepção de que Fátima é uma referência em todo o mundo neste momento. E isso refletiu-se mesmo nesta crise da pandemia. Refletiu-se positivamente, de certo modo, para o Santuário. É certo que temos tido aqui momentos um bocado desoladores, no sentido de não vermos peregrinos, de não termos as assembleias que costumamos ter, de não podermos fazer uma profissão de velas. Tudo isto se reflete não só aqui no Santuário, mas em toda a cidade de Fátima. Também é verdade que têm chegado aos nossos serviços ecos extraordinários do bem que o santuário tem estado a fazer através desta presença online.

Tanto quanto percebi, um dos fatores que levou a que a decisão do Santuário de Fátima tivesse de ser anunciada com maior antecedência, ainda numa altura em que não se sabia quando é que o estado de emergência iria acabar, foi a pressão que já havia de muitos pedidos de informação de peregrinos de todo o mundo que queriam saber se compravam as viagens de avião ou não, se podiam vir, se não podiam. Consegue dizer-nos quantos peregrinos de todo o mundo tiveram que cancelar, por exemplo, a sua presença este ano em Fátima? Eu lembro que o senhor D. António falava em 180 grupos, mas isto ainda em abril, não sei se há números mais atuais.

Sim, entre 180 a 200 grupos. Como percebe, o santuário tem vários departamentos, o departamento dos peregrinos e a hospedagem não é comigo. Mas tive notícia de que, de facto, houve aqui uma fase destes dois últimos meses que todos os dias se ouvia mais: um grupo cancelou, outro grupo cancelou. Muitos cancelaram, até porque vir ao santuário e não poder participar numa celebração litúrgica, para muita gente é doloroso. Portanto, nós estamos à espera também desta abertura. Agora, há aqui uma coisa que é clara: nós todos temos a percepção de que estamos em tempos diferentes e que ainda que saibamos já que é possível abrir e ter celebrações comunitárias a partir do dia 30 de maio, o santuário tem estado, assim como a Igreja em Portugal, tem sido claro. Nós aqui no santuário temos feito este exercício diário. Temos de olhar para isto com muita responsabilidade e temos de olhar para isto a partir do bem de cada peregrino e de cada pessoa que aqui vem.

Isso significa que não será logo a partir de 30 de maio que vamos voltar a ver grandes multidões no Santuário de Fátima.

Não, mas certamente que veremos celebrações, o que é muito importante. Isto é um pouquinho da minha lábia, desculpe dizer assim, mas eu penso que poucos lugares deste país, e não sei se do mundo, têm tão boas condições para ter celebrações em segurança como o Santuário de Fátima, desde logo este grande recinto de oração. Claro que isto precisa de muito bom senso, de muito trabalho, de muita gente, de muita reflexão e precisa depois de concretizações cuidadosas, mas temos um espaço de excelência para podermos ter celebrações litúrgicas para grupos maiores, ainda que com os devidos cuidados.

Há duas semanas, uma das grandes polémicas à volta disto era a comparação com o 1º de Maio, organizado pela CGTP em Lisboa. Diria que seria possível, com o recinto do Santuário de Fátima, fazer uma celebração com a mesma lógica, portanto, pondo as pessoas a distâncias de segurança? Isto parece-lhe possível no contexto de uma celebração religiosa?

A primeira coisa que me parece impossível é fazer uma comparação entre as duas coisas, mas eu percebo o que está a dizer. Efetivamente, se formos por aí, eu penso que é possível, com a nossa gente e com todos os cuidados e atenções, podermos ter aqui um grupo razoável de gente em celebração. Isso parece-me que sim.

Dizia ao início que uma das imagens que não vamos conseguir ver este ano é a da tradicional procissão das velas, por exemplo, da noite de 12 de maio, com uma multidão no recinto de Fátima. Mas o que lhe pergunto muito concretamente é: como é que vai ser este ano? Que detalhes é que nos pode já dizer sobre como vão ser as celebrações de 12 e 13 de maio? Por exemplo, a procissão das velas. Será feita uma recriação da procissão com menos gente?

Eu não diria recriação. Se me permite, eu gostava de falar disto como um momento em dois atos, ou melhor, o mesmo ato, mas em lugares diferentes. O santuário, nesta preparação que temos estado a fazer e convidado os peregrinos a fazer, tem convidado a que todos os dias se vá acendendo uma vela. Nós convidamos, e aproveito a oportunidade que o Observador também nos dá nesta conversa, para convidar todos os radioouvintes e todas as pessoas que possam escutar ou a quem possa chegar esta notícia. Pedimos a todos aqueles que se sentem peregrinos e em comunhão com o santuário que na noite do dia 12 possam acender nas suas janelas uma vela, de tal modo que a multidão de velas que costumamos ver aqui no recinto do santuário, desta vez se possa estender não só pelo nosso país todo, mas pelo mundo onde haja devotos de Nossa Senhora de Fátima. Portanto, gostaríamos que a noite do dia 12 de maio fosse uma grande noite de luz para toda a gente, nesta unidade e nesta comunhão com os peregrinos que estão no santuário.

Concretamente no recinto.

A liturgia que vamos celebrar aqui no santuário é uma liturgia como todas as outras, uma liturgia autêntica para aqueles que vão estar aqui em nome de todos os peregrinos de todas as partes do mundo.

Mas haverá uma pequena procissão também entre a capelinha das aparições e o altar?

O que lhe posso adiantar é que o esquema geral da peregrinação será em tudo igual a todas as outras peregrinações dos 12 e 13 de maio, claro, com uma adaptação ou outra, porque não temos no recinto de oração a mesma multidão que costumamos ter, embora espiritualmente esteja repleto o santuário, fisicamente não estarão cá. Mas teremos também a procissão de velas pro altar do recinto, a celebração no altar do recinto. Rezaremos por todos, como se faz sempre em Fátima, tendo em conta esta realidade presente que estamos a viver e todos aqueles que mais sofrem nela. Enfim, e aquilo que é o coração da mensagem de Fátima, tudo isso estará presente no dia 12. Portanto, haverá a procissão das velas e a procissão de regresso à capelinha, sem dúvida nenhuma.

Essa vontade de fazer a procissão nos moldes em que habitualmente ela é feita com a multidão de peregrinos, motivou a decisão de realizar as celebrações no recinto, em vez de, por exemplo, no interior de uma das basílicas? Chegou-se a falar dessa possibilidade ao início, por permitir, por exemplo, lugares marcados?

Efetivamente, mas repare, toda gente que pensa em Fátima, concretamente nestes dias, e nós que aqui vivemos também, a começar pelo senhor reitor, eu até diria do senhor dom António Marto. Jamais imaginávamos um 12 e 13 de maio, a menos que a coisa se complicasse ainda mais e fosse mesmo impossível estar na rua, mas sem uma procissão de velas. Se não a fizéssemos na rua, teríamos de a fazer dentro de casa. Mas optamos por manter com a colaboração das autoridades de segurança, etc. E também, deixe-me dizer, com a belíssima compreensão dos peregrinos de Fátima, que nos têm apoiado extraordinariamente e que têm compreendido estas medidas como um bem para todos. E portanto, se nós não tivéssemos esta possibilidade também de isolar, de certo modo, o santuário para podermos celebrar a peregrinação deste modo, para que tudo chegue tranquilamente à casa de todos e todos se possam unir nos mesmos sentimentos e com as mesmas imagens, seria mais difícil.

Tem sido fácil conciliar, estava a falar dessa grande unanimidade entre os peregrinos de Fátima, mas há também algumas vozes dentro da igreja que pedem um regresso mais rápido das celebrações religiosas e que se indignaram, de certa forma, com esta impossibilidade de haver peregrinos em Fátima. É fácil conciliar estes apelos que chegam dentro da própria comunidade católica com estas recomendações mais gerais das autoridades, quer das autoridades de saúde, quer das forças de segurança. Isto é um processo fácil pro Santuário de Fátima?

Repare, não é fácil pra ninguém. Eu confesso-lhe que também me junto aos que têm saudades de podermos celebrar a fé em comunidade. Agora, também é uma realidade que efetivamente nós temos de olhar para este momento com toda a responsabilidade. E nesse sentido, precisamos de tempo, de espaço e de bom senso para gerir tudo isto. Nós desejamos o quanto antes poder celebrar com as assembleias. Sejam as assembleias reduzidas, sejam as assembleias mais alargadas. Porque a igreja não se aguenta a viver apenas no virtual. A igreja precisa da comunhão e da presença uns dos outros e da visibilidade uns dos outros. Nós percebemos o bem que é podermos usar estes meios virtuais e temo-los usado e continuaremos a usá-los na medida em que forem necessários. Mas a celebração da fé precisa da comunidade. Isto é velho. Na história da igreja, os mártires da Abissínia já diziam que nós não podemos viver sem o domingo. E o domingo significava justamente isto tudo. Significa a eucaristia, significa a comunidade, a presença, etc.

E é por isso também que o santuário quer, na medida do possível, fazer com que estas celebrações 12 e 13 de maio sejam o mais próximas daquilo que seriam num dia normal.

Sim.

Também pra dar este sinal a quem vê à distância.

Sem dúvida. Efetivamente, nós temos aqui também uma pequena assembleia, que é uma assembleia reduzidíssima. Serão apenas e só as pessoas que são necessárias para a celebração e para os vários serviços e ministérios.

Estamos a falar de acólitos, o coro, os cantores, os leitores.

De um pequeníssimo grupo de acólitos, um pequeníssimo coro. Estamos a falar dos leitores que são necessários pro rosário, que são necessários pra celebração da eucaristia.

No total, quantas pessoas, mais ou menos, poderemos ver?

Não sei se tem que precisar, mas a partir daqui pode calcular que será um número muito reduzido.

E de que forma é que esta celebração vai ter em conta ou vai lembrar este momento global de pandemia que vivemos? Eu sei que já surgiu algumas indicações de que estariam presentes algumas pessoas, designadamente profissionais de saúde, polícias, etc, em representação destas profissões. Mas se me pudesse concretizar um bocadinho, como é que esta celebração vai lembrar também este momento da pandemia?

Repare, o Santuário de Fátima, certamente tem acompanhado o acontecer do santuário já há tempos, sempre tem presente tudo aquilo que é a vida concreta e hora presente da história do mundo em que vivemos, e não apenas do país. E certamente que não nos passa pela cabeça celebrar esta peregrinação sem termos em conta esta realidade que vivemos em torno desta pandemia e de termos muito presente na oração não só as vítimas imediatas, mas também todos os cuidadores. E queremos tê-los aqui presentes neste sentido de estarem aqui representados, no sentido de lhes dizermos obrigado e de lhes dizermos que estamos com eles. E todos os cuidadores, sem exceção, neste sentido, dos vários serviços. Haveremos de rezar por todos, quer no dia 12, quer no dia 13, e pelas boas intenções da Igreja e por este ambiente, no fundo, de apreensão em que continuamos a viver.

Mas e como é que vão fazer agora do ponto de vista um bocadinho mais prático, também é o seu papel garantir a forma como as celebrações vão decorrendo. Como é que vão fazer algumas coisas? Por exemplo, para manter o distanciamento de segurança no recinto, vão ser colocadas cadeiras no recinto a uma distância?

Vamos colocar as cadeiras necessárias na frente do altar do recinto de oração, sem dúvida, ainda com mais espaço do que aquele que a lei prevê. Porque felizmente ou infelizmente, temos muito espaço neste momento no recinto.

É possível garantir esse espaço.

É possível garantir este espaço. Mas também os nossos serviços estão a marcar, inclusivamente, o piso para que as distâncias de segurança se possam garantir.

Muito bem. E como é que o recinto vai ser fechado? Grande parte do recinto acaba por ser aberto, de acesso livre. Vão ser instaladas barreiras?

Nós aqui contamos com o bom senso das pessoas. Claro que nestas coisas há sempre entusiasmos do momento que é preciso cautelar e por isso as forças de segurança têm colaborado com o santuário no sentido de criar aqui um perímetro, digamos assim, de segurança. Mas enfim, apenas para as celebrações a partir do dia 12 até ao almoço do dia 13. Até porque o santuário nunca esteve fechado e não vai fechar. Só fecha mesmo para as celebrações do 12 e 13 de maio.

Estamos a falar de um período a partir da noite, das 21h, se não me engano, do dia 12.

Nós precisamos de fechar mais cedo para preparar o recinto para a celebração e, portanto, para não criar aqui constrangimentos, não lhe sei precisar, mas penso que a partir da hora de almoço de amanhã até à hora de almoço do dia 13, o recinto estará fechado. Mas depois está aberto, as pessoas podem vir, observando as regras sociais que estão previstas pela DGS e que os nossos funcionários também aconselham depois ou chamam a atenção para que sejam observadas. A capelinha está aberta, o serviço de confissões continua aberto. Aliás, nunca fechou. A capela do Santíssimo Sacramento também. E as basílicas também, desde há oito dias, que também podem-se visitar os túmulos dos pastorinhos e também a Basílica da Santíssima Trindade, que estão abertas, assim como os serviços da Reitoria também reabriram faz uns oito dias.

Muito bem. Espera que o 13 de agosto já possa ser celebrado de uma forma diferente?

Não lhe sei dizer. Que espero, espero. E mais do que espero, desejo. E quem nos dera que o 13 de junho já pudesse ser, mas não sabemos, porque, como sabe, sabemos todos que nesta circunstância de pandemia, temos de ir momento a momento, dia a dia, estando atentos e tomando as decisões que nem sempre são aquelas que o coração mais deseja, mas aquelas que a razão nos impõe. E o bem de todos nos impõe. Porque Fátima é, sobretudo, lugar de salvação. E salvação significa também saúde, saúde do corpo e da alma.

Muito bem. Senhor Padre Joaquim Ganhão, muito obrigado por ter estado conosco aqui. Obrigado.

Muito bem, obrigado.