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Boa noite, Ricardo. Antes de mais, muito obrigado pela disponibilidade por falar com a Rádio Observador. Começava por lhe perguntar, vamos dividir isto por fases da vida de Jimmy Carter. Começando pelos anos da presidência, qual é a marca que Jimmy Carter deixa enquanto está na Casa Branca?

Obrigado por me terem de volta. É sempre um prazer estar aqui a falar com vocês. António, a presidência de Carter foi bastante problemática. Ele teve grandes crises que aconteceram durante a sua presidência, desde a crise econômica, que teve inflação e desemprego com valores muito elevados, o que causou uma grande pressão a nível da presidência. Também a crise dos reféns no Irão, que talvez o António queira falar um pouco mais tarde, uma crise energética. Aliás, há um detalhe muito interessante, porque o presidente Carter foi o primeiro a meter painéis solares na Casa Branca, que era exatamente para tentar motivar os americanos para eles também saberem poupar energia e já nessa altura com a visão de começar a adotar energias renováveis. Dava mais uns pequenos exemplos: houve o acidente nuclear em Three Mile Island, a revolução sandinista na Nicarágua e depois a invasão do Afeganistão pela União Soviética, que também causou uma grande tensão diplomática e também no equilíbrio daquilo que foi depois a Guerra Fria.

Em relação à questão do Irão, que se referiu, como é que a intervenção de Jimmy Carter é feita em relação a essas questões?

A questão é que não só era logo a partir de uma batalha perdida por causa do que estava a acontecer no Irão. A revolta que houve na altura, liderada pelos mulás, que tentaram transformar aquilo que era uma sociedade mais modernista, pró-Ocidente, para aquilo que a gente conhece hoje em dia do Irão. E depois, o que aconteceu em 4 de novembro 1979, quando estudantes iranianos tomaram a embaixada americana em Teerão, aliás, o que chamava na altura a Frente de Estudantes Muçulmanos do Irmão. E depois isso levou, mais tarde, à Revolução do Irão. O que aconteceu que foi particularmente mais importante? Eu acho que o António estava aí nesse sentido. É porque Carter tentou resolver a questão de uma forma diplomática, o que, como eu disse há bocado, era impossível o fazer. E depois, em abril 24, 1980, ele dá luz verde pra uma operação chamada Eagle Claw, que tentou libertar os reféns que estavam na embaixada e que foi um desastre.

Aliás, Ricardo, este episódio da embaixada marca de tal forma que acaba também por ser história na sétima arte.

Exato, com o filme do Ben Affleck, o "Argo", que retrata muito bem, aliás, um filme que a gente recomenda aos nossos ouvintes. Mas só pra terminar, é um desastre, não só oito soldados morrem nessa operação, dois sistemas que eles tinham para extrair também são apanhados e são destruídos. Isso mancha, sem dúvida, aquilo que foi o legado do presidente Carter, principalmente nos Estados Unidos, o António sabe isso de certeza, o que aconteceu, por exemplo, em Mogadíscio, é um bom exemplo, quando há soldados americanos que morrem em operações no estrangeiro, isso nos Estados Unidos, principalmente pelo Partido Republicano, é muito utilizado.

Isso sobretudo por causa do trauma do Vietnã, não é? É um país que estava ainda traumatizado, anos 70, diria que o trauma do Vietnã ainda não tinha passado.

Exato, com aquelas famosas imagens também de helicópteros a tentarem extrair pessoas de embaixadas. Era, sem dúvida, algo que ainda estava bastante presente na comunidade e no eleitorado americano. Aliás, porque depois, e o António está a tentar fazer aqui uma cronologia, ele perde para o Reagan de uma forma decisiva.

Exatamente, ele só está há quatro anos na Casa Branca, perde para Ronald Reagan. E há aqui uma coisa muito interessante, estava me lembrando uma frase que foi dita em 2002, quando Jimmy Carter ganha o Nobel da Paz. É dito que ele não terá sido o melhor dos presidentes norte-americanos, mas foi, com certeza, o melhor dos ex-presidentes, que é uma citação bastante engraçada.

Sim, ele vem também de uma situação que era governador da Georgia, também era militar da Marinha, esteve em submarinos, era um homem simples, tinha aliás também uma coisa que faz parte daquilo que é o legado folclórico. Ele tinha uma quinta onde criava amendoins e isso também fez um impacto muito grande, depois o senhor até teve que abandonar a quinta porque não podia ter a quinta ao mesmo tempo que era presidente. Há sim várias partes tornurentas do presidente Carter, sem dúvida, mas não foi o suficiente, principalmente contra Reagan. Reagan limpou aquela eleição, ganhou muito à vontade, porque Carter, realmente, e o António estava a referir a isso, tinha aquele estigma de ser um presidente só por um mandato, que não tinha conseguido criar a dinâmica para ganhar o segundo mandato. Aliás, uma coisa que até depois agora falou-se muito também com o presidente Biden, por exemplo.

Sim, fez-se a comparação de Biden. Diga-me uma coisa, Ricardo, tentando fazer aqui um exercício mental e tendo em conta, por exemplo, recordando que Jimmy Carter está por trás dos acordos de Camp David, e olhando pro cenário atual que se vive no Médio Oriente, que mensagem é que os atuais responsáveis políticos podiam tirar deste legado de Jimmy Carter na forma como ele atuou em relação ao Médio Oriente?

Essa é uma excelente pergunta e muito difícil de responder, e aqui, claro, necessariamente, a Rádio Observador convida-me pra dar a minha opinião pessoal. Ele fez o que podia, Clinton fez o que pôde, Bush fez o que pôde. Os americanos, nesse aspecto, não podem ser criticados por ter uma atitude que é conhecida, que eles apoiam muito mais Israel, por exemplo, do que a Palestina. Isso aí a gente sabe, é óbvio, nem que seja por causa de armamento e de dinheiro. Mas diferentes presidentes têm tentado negociar uma paz. O problema tem sido muito mais da relação entre Israel e os seus vizinhos, e neste caso, a questão da Palestina, necessariamente, porque, por exemplo, o António falou nisso, já desde Carter se fala na solução de dois Estados e depois avança-se e recua-se, avança-se e recua-se, e infelizmente agora recuou-se mais uma vez. O legado será um legado de tentar encontrar uma paz duradoura no Médio Oriente. Aliás, o presidente Biden está a tentar neste momento negociar um cessar-fogo também na Palestina. Esperemos que sim, esperemos que seja e que a coisa se resolva no futuro, brevemente, esperamos nós.

Ficamos então com essa esperança para terminar esta nossa conversa. Ricardo Silvestre, mais uma vez, muito obrigado pela sua disponibilidade em falar, em conversar aqui com a Rádio Observador. Obrigado, boa noite.

O prazer é todo meu, António. Obrigado.